Yagazie Emezi para The New York Times
Yagazie Emezi para The New York Times

Pintores estrangeiros usam muros da capital do Senegal como telas

Um coletivo de arte sem fins lucrativos ajuda a escolher quais as casas que podem ser pintadas

Anemona Hartocollis, The New York Times

27 de novembro de 2019 | 06h00

DAKAR, SENEGAL - Em um muro, a pintura de um marabout, um santo homem muçulmano, espia atrás de um longo varal de roupas. Ali perto, o pôster de uma mulher africana foi colado em uma casa. Um pouco mais longe, mulheres socializam diante de um muro coberto de um intricado desenho abstrato em preto e branco.

Estas são as casas pintadas da Medina, um bairro de trabalhadores pobres perto do centro de Dakar. O bairro recebeu os artistas de braços abertos para que praticassem a sua arte em um museu a céu aberto, como o definiu o fundador do projeto. Não há apenas artistas senegaleses, outros vieram de Burkina Faso, Argélia, Marrocos, Congo, França e Itália para pintar sobre estes muros. Eles enriquecem o florescente cenário de arte internacional  em Dakar e trouxeram amantes da arte e turistas para um bairro, que de outro modo talvez nunca visitariam.

A arte mural da Medina “reúne pessoas que normalmente sequer olham umas para as outras”, disse Mauro Petroni, ceramista de Dakar. A arte das ruas parece vir naturalmente para o Senegal, onde muitas lojas são decoradas com as imagens dos produtos que elas vendem. Pinturas de tesouras na oficina de um alfaiate; cabeças com penteados artísticos nas de barbeiros; uma ovelha divulga a presença de um ambulante que vende carne grelhada.

A arte das lojas encomendada pelos proprietários, às vezes, é de autoria deles próprios. Mas para pintar nos muros de uma casa no bairro de Medina, é importante procurar antes Mamadou Boye Diallo, conhecido como Modboye. Diallo, 31, nasceu e cresceu na Medina. Abandonou a escola aos 15 anos para se tornar um dançarino de break e sobre patins. Ele teve o primeiro contato com a arte trabalhando como mensageiro, entregando folhetos para as galerias de patins.

Em 2010, ele criou o Yataal Art, um coletivo de artes sem fins lucrativos, e pintou o primeiro muro na Medina com amigos. “É preciso passar antes por ele para trabalhar na Medina”, disse um dos artistas de rua, Doline Legrand Diop, “É uma espécie de curador”. No começo, nem sempre foi fácil convencer os proprietários das casas a permitir que as pessoas pintassem suas paredes. “Eles queriam dinheiro”, contou Diallo. Mas à medida que o projeto progrediu, eles quiseram imitar os seus vizinhos.

O que os moradores esperam e o que os artistas oferecem nem sempre é a mesma coisa. Giacomo Bufarini, um artista italiano chamado Run, pintou o muro de uma casa com uma gigantesca silhueta da mulher que morava nela. Ele incorporou uma janela na sua cabeça, como uma janela para a sua mente.

Em lugar de ficar impressionada, ela se queixou de que o pintor havia respingado tinta no batente da janela. “Falei para ela que eu não sou um decorador”, lembra Bufarini, parecendo um pouco aborrecido e culpado. O projeto cresceu tanto que, este ano, Delphine Buysse, uma curadora belga, conseguiu fazer com que os artistas residentes se hospedassem por uma semana em um hotel de luxo em Dakar enquanto pintavam na Medina.

Uma pintura recente é uma colaboração de Kouka Ntadi, um artista franco-congolês, e Barkinado Bocoum, um artista senegalês. Ntadi pintou retratos abstratos em preto e branco, e Bocoum, retratos mais folclóricos em cores vibrantes. “Não é como na França ou nos EUA, onde há um esnobismo em relação à arte”, disse Ntadi, “e você não pode fazer marketing. Então, é claro que você pode continuar sendo um artista e pintar uma garrafa de leite ou um corte de carne”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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