Laura Leon/The New York Times
Laura Leon/The New York Times

Grupo de dança volta aos palcos na Espanha, com cuidado, respeito e plateia

Festival de Granada foi realizado ao ar livre, em um pátio no complexo da Alhambra, com público obrigado a usar máscaras e apenas 50% da capacidade do teatro

Marina Harss, The New York Times - Life/Style

22 de agosto de 2020 | 05h00

Quando a Compañia Nacional de Danza apareceu no palco no Festival Internacional de Musica y Danza de Granada, no sul da Espanha, em julho, parecia até que se tratava de um espetáculo de dança como qualquer outro. Um casal apresentou um delicado pas de deux de Bournonville, um conjunto de 21 bailarinos em costumes soltos, cinza claro, estreou uma nova obra, com a música de Juan Crisóstomo Arriaga, um prodígio musical espanhol do século 19.

As bailarinas se moviam com  leveza incomparável, como a de uma seda. O público aplaudiu.

Mas o fato de que o espetáculo se realizava no meio de uma pandemia, em um país que sofreu muito com os efeitos da covid-19 - e continua sofrendo -, tornou a situação extraordinária. Era a culminação de meses de planejamento, com a elaboração de protocolos, testes e um retorno cuidadoso, minuciosamente organizado no estúdio.

Todas as apresentações do festival, um evento anual, foram ao ar livre, em um pátio no complexo da Alhambra, com público obrigado a usar máscaras e apenas 50% da capacidade do teatro.

Será que não foi cedo demais? Nos dias que antecederam a apresentação da companhia, novos surtos de coronavírus ameaçaram a reabertura do país e o futuro destes eventos. “Aqui em Granada não tivemos nenhum problema”, disse Antonio Moral, diretor do festival, na época. “Até o momento, houve problemas na Catalunha e em Aragão” - regiões  do norte do país, a centenas de quilômetros de distância.

O regente e pianista Daniel Barenboim, que tocou um concerto de Beethoven, declarou à imprensa que o festival, um dos primeiros do verão espanhol, havia sido “un milagro”.

“Estou flutuando em uma nuvem de emoções”, escreveu no WhatsApp Joaquim De Luz, que é diretor da Compañia Nacional desde setembro, na manhã seguinte ao espetáculo. “Estamos indo em frente, com cuidado, com respeito, e sem medo”.

Para a ocasião, De Luz voltou ao palco com o solo meditativo de Jerome Robbins A Suite of Dancers. Em 2018, a peça constou no programa de despedida de De Luz do New York City Ballet, onde ele dançou por 15 anos. Depois do longo fechamento, ele disse: “Senti que queria estar com os meus bailarinos”.

No entanto, foi estranho apresentar-se depois de meses de atividade limitada. “Havia tantas coisas para ajustar ao mesmo tempo”, falou no WhatsApp depois do espetáculo, Kayoko Everhart, bailarina da companhia há 16 anos. “O palco ligeiramente inclinado, as luzes da cena, a variação dos andamentos da música ao vivo. Fazia tempo”.

Há alguns meses, estas apresentações eram impensáveis. A Espanha, um dos países da Europa mais afetados pela doença, declarou estado de emergência em meados de março. Mais de 250 mil pessoas foram infectadas e mais de 28 mil morreram antes do fim do estado de emergência, no dia 22 de junho.

De Luz começou a sonhar com os planos de um retorno ao estúdio em meados de abril, quando foi noticiado que os times de futebol poderiam voltar a treinar dentro em breve: “Na Espanha, o futebol é sempre o primeiro”, afirmou. Lionel Messi e seus colegas de time no Barcelona voltaram a treinar no início de maio.

Na segunda semana de maio, De Luz e Marisol Pérez García, a diretora executiva da Compañia Nacional de Danza, elaboraram um protocolo de segurança detalhado para a companhia, levando em conta a orientação das autoridades de saúde e cuidando das necessidades específicas dos bailarinos: Aulas diárias, ensaios, a mudança dos quartos, parcerias e, finalmente, a apresentação.

No dia 1º de junho, quando o país observava um período de luto de 10 dias pelas vítimas do coronavírus, os bailarinos retornaram aos seus estúdios perto de Matadero, o antigo matadouro de Madri, hoje um centro de artes. As medidas de segurança foram severas. As máscaras eram obrigatórias em todas as áreas, com exceção do estúdio de dança - e até no interior do estúdio, sempre que os ensaios faziam com que os bailarinos chegassem a dois metros de distância um do outro. As aulas de balé foram divididas em grupos de 14, para que os bailarinos pudessem ficar bem distanciados na barra, nos dois estúdios amplos, de teto alto, ventilados da companhia. Todos os pertences pessoais tinham de ficar em bolsas de tecido, carregadas pelos bailarinos.

“Foi um pouco assustador”, disse Kayoko. “Parecia que havia 100 pequenas regras, o que se podia e o que não se podia fazer.” Mas com o tempo, tudo se tornou rotina. “Sabe como é. Tire a máscara, lave as mãos, use pinças para pegar outra máscara”. O mais difícil, ela falou, foi não poder usar os chuveiros no final do dia de trabalho.

Durante semanas, os bailarinos não se tocaram. Ensaiaram tudo, salvo o contato entre si.

O momento crucial foi em meados de julho quando todos os 52 bailarinos da companhia foram submetidos aos testes e receberam o atestado de saúde. Com isto, receberam a permissão para se tocarem, sem máscara, tornando novamente possível a aproximação. “Só foi no meu primeiro ensaio do pas de deux que me dei conta de quanto havia sentido falta deste aspecto do meu trabalho”, ela observou.

No dia 20 de julho, enquanto os casos de coronavírus aumentavam, particularmente no norte da Espanha, os bailarinos viajaram de ônibus para Granada, na região meridional da Andaluzia. Durante a viagem, todos usaram máscaras. O dia foi escaldante,  com o calor de 40º C, tão quente que o ônibus ficou superaquecido. Tiveram de descer para esperar que esfriasse antes de retomar a viagem.

Na apresentação, quase todos os 800 lugares disponíveis no teatro dos Jardines del Generalife, um jardim mourisco com uma ampla vista da Alhambra e do resto da cidade, foram ocupados. Durante o dia, havia feito um calor brutal, mas no momento do espetáculo, refrescou o suficiente para o palco se tornar um pouco escorregadio por causa da condensação do vapor, disse De Luz. (Nada que os bailarinos não pudessem controlar.)

O diretor do festival, Moral, informou que cerca de 90% dos assentos permitidos foram vendidos durante o festival, o que ele considerou uma validação de sua decisão de seguir em frente com o festival, De Luz concordou: “Até onde sabemos, os espetáculos não provocaram nenhum contágio”. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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