Heather Stan para The New York Times
Heather Stan para The New York Times

Uma grande dançarina de odissi invoca deuses e demônios sozinha

Bijaymi Satpathy quer testar uma 'nova dimensão' com sua arte, 'antes que seja tarde demais'

Marina Harss, The New York Times

15 de agosto de 2019 | 06h00

Em uma noite memorável, alguns anos atrás, no Metropolitan Museum of Arts, de Nova York, as bailarinas clássicas indianas Bijaymi Satpathy e Surupa Sen executaram uma dança em frente ao grande templo de arenito de Dendur. O tempo parou, cada detalhe da suas exibições era tão perfeitas que as duas pareciam um só corpo, movendo-se em harmonia com a música.

A fusão da forma e da musicalidade era o fruto de uma longa colaboração; elas dançavam juntas há mais de 20 anos. Até o final do ano passado, as duas bailarinas criaram o seu trabalho no estúdio, em Nrityagram, uma companhia e uma escola de dança nas proximidades de Bangalore, no sul da Índia. Sen era a coreógrafa, e Satpathy a dançarina principal e professora.

Mas perto dos 40 anos, Stapathy disse recentemente que sentiu um renovado desejo de se testar, apresentando-se uma noite em uma dança solo. Ela sentia “uma forte urgência de avançar para uma dimensão intocada e pouco explorada” de sua arte “antes que fosse tarde demais”, afirmou.

No ano passado, quando fez 45 anos, anunciou a Sen que faria uma pausa em suas atividades em Nrityagram para passar a explorar. Deixou então a direção da escola e o posto de dançarina sênior da companhia.

O estilo odissi de dança clássica indiana existe pelos menos desde o século 10 em Odisha, um estado na costa leste da Índia, onde pinturas com as suas posições estão nas paredes dos templos.

Satpathy nasceu na capital de Odisha; como muitas meninas da região, estudou odissi na academia de dança local, onde se destacou como a melhor da classe. Mas a ideia de dedicar a própria vida à dança não passava pela sua cabeça. Formou-se em educação, com o projeto de se tornar professora. Surgiu então um teste para Nrityagram, que na época estava procurando dançarinas.

“Assim que entrei neste lugar”, contou, “soube que era isto que eu queria fazer.” Apesar da desaprovação da família - “meus pais não falaram comigo durante três anos” - ela persistiu. Tornou-se a diretora da escola, desenvolveu um programa de condicionamento rigoroso com elementos de ioga, artes marciais e até mesmo de balé e Pilates.

Deixar Nrityagram foi doloroso. De início, disse Satpathy, ficou desolada. “Experimentei uma sensação chocante de perda do meu domínio da dança”. Levou meses para voltar a encontrá-lo, trabalhando sozinha seis horas por dia no estúdio da sua casa que compartilha com o marido, um fotógrafo, perto de Nrityagram.

Aos poucos, afirmou, conseguiu se recuperar. “Lutei e ainda estou lutando por encontrar o meu ser solo”, ela disse.

Neste momento, ela prepara uma apresentação solo inspirada em um poema do Gita Govinda, um texto em sânscrito do século 12, que conta os caprichos do amor entre o deus Krishna e a leiteira Radha. Na canção, Krishna expressa a sua saudade por Radha, que se recusa a vê-lo. “Ela fala da dor profunda da separação”, disse Satpathy, um tema sobre o qual ela medita particularmente nestes dias.

Sozinha no palco, Satpathy sente que finalmente está livre para viver no mundo pelo qual ansiava em sua mente. “É um luxo”, ela disse, “viver no mundo que você cria como se fosse real”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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