Mohamed Sadek/The New York Times
Mohamed Sadek/The New York Times

O que é Waacking, e por que virou uma febre no TikTok?

Alguns nova-iorquinos dedicados são mestres da dança club dos anos 1970, que se tornou uma sensação na rede social

Ted Alcorn, The New York Times - Life/Style

16 de setembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK – O objetivo de Princess Lockerooo é um só: converter mais fiéis ao waacking. Durante mais de uma década, a fã da dança clássica de discoteca, de 34 anos, se apresentou em competições e ministrou workshops no mundo todo, promovendo incansavelmente uma mensagem de empoderamento e autoexpressão.

Este ano seria incrível: ela estava escalada para liderar a parada anual de dança de Nova York, na Broadway, receberia centenas de competidores no festival que organizou na cidade e ainda viajaria para o Brasil e para Londres, onde seria juíza em batalhas de dança. "Eu estava me preparando para uma incrível onda de criatividade", disse Princess Lockerooo, cujo nome verdadeiro é Samara Cohen.

A única onda que chegou, no entanto, foi a do coronavírus, que fechou estúdios de dança e casas noturnas, e interrompeu competições. Ainda assim, o waacking resistiu pela internet, já que seus gestos rápidos e contidos são perfeitos para o Instagram e o TikTok. Essa não é a primeira vez que um vírus quase acaba com o waacking, que surgiu como uma dança social, ao som de disco music, em baladas gays underground de Los Angeles nos anos 1970, como forma de expressão de homens gays não brancos.

Alguns de seus criadores se referiam aos passos como "punking", ou "whacking" e, com o passar do tempo, "waacking". Porém, depois que muitos deles morreram em decorrência da Aids nas décadas seguintes, o estilo praticamente desapareceu. "Não se trata de algo que simplesmente dançávamos. Nós vivemos isso", comentou Tyrone Proctor, um dos sobreviventes dessa geração e mentor de Princess Lockerooo. A dança se baseia em movimentos soltos, mas bem definidos, avaliados por meio da conexão que cada dançarino estabelece com a música.

O estilo de cada pessoa é diferente. "Você tem de fazer o público visualizar o que está ouvindo. As pessoas precisam sentir a emoção nos movimentos", comentou Proctor pouco antes de Nova York decretar o bloqueio, em março. "O waacking fala de prazer, mas também de dor, e de superar tudo isso por meio de uma postura extremamente confiante. Trata-se do que os braços e as mãos podem dizer, mas também do que os ombros sabem dos movimentos da coluna e do coração", explicou Mary Fogarty Woehrel, professora associada de dança na Universidade York, em Toronto.

A dança poderia ter desaparecido, como muitas outras modas das discotecas, se não fosse pelo programa de TV Soul Train. Proctor e outros integrantes do Outrageous Waack Dancers (incluindo a cantora pop Jody Watley) se apresentavam regularmente no programa, apresentando a dança para todo o país. Foi assim que Archie Burnett o viu pela primeira vez. Sua mãe era muito religiosa e o proibia de dançar em casa quando ele era criança, mas ele assistia ao programa escondido toda semana, depois da igreja, para aprender os passos.

"Quando cresci e comecei a me rebelar contra minha mãe, meu jeito de dançar era esquisito, porque aprendi tudo pela TV", relembrou. Burnett muitas vezes misturava o waacking e o voguing, um estilo de dança mais novo, mas parecido, que tomou o lugar do waacking nos anos 1990, em grande parte graças ao grande sucesso de Madonna, Vogue. No início dos anos 2000, o waacking havia sido amplamente esquecido.

Animados, porém, pelo interesse de outros dançarinos, Proctor e Burnett se dedicaram a reviver o movimento em Nova York. Princess Lockerooo foi uma das primeiras estudantes da dupla. Filha de mãe solteira no Upper East Side de Manhattan, Princess Lockerooo cresceu ouvindo os musicais de Rodgers e Hammerstein e estudou canto na LaGuardia High School. Contudo, quando os planos de se matricular em um conservatório não deram certo, ela viu o sonho de trabalhar na Broadway desmoronar.

Acabou ganhando peso e entrou em uma depressão profunda, revelou ela. A chance de frequentar o Broadway Dance Center, uma escola no centro da cidade que oferece aulas de diversos tipos de dança – do balé à dança de cabaré – para todos os níveis, deu vida nova a Princess Lockerooo.

Decidida a entrar em forma e aprender técnicas de dança teatral, ela começou a dançar nos trens da cidade como "Samara, a Soprano do Metrô", economizando o dinheiro que ganhava para pagar as aulas de dança. Mas, com o passar do tempo, os estilos de dança de discoteca e de rua oferecidos pela escola acabaram atraindo Princess Lockerooo, e um dia ela se matriculou na aula de waacking.

"Era uma dança feminina, sexy e forte, e me apaixonei", comentou. Pouco tempo depois, ela conheceu Proctor e Burnett, e começou a estudar com os dois. Como mulher heterossexual de origem judaica e dominicana, Princess Lockerooo tinha pouco em comum com as origens queer do waacking. Ela disse, no entanto, que a cultura underground gay que deu origem à dança a aceitou e empoderou de um modo que formas de dança mais convencionais raramente faziam.

Outros dançarinos de sua geração, como Kumari Suraj, Nubian Néné, Waackeisha e King Aus, também se tornaram embaixadores do estilo, dando seu toque pessoal e arregimentando milhares de seguidores nas redes sociais. Princess Lockerooo, por exemplo, chama seu estilo pessoal de "waacking hélice", devido aos movimentos circulares polirrítmicos que faz com os braços. Suraj, cujo pai nasceu no sudeste asiático, combinou elementos da dança indiana com o waacking, criando um estilo que apelidou de "Bollywaack".

Destino de estudantes de dança do mundo todo, Nova York é o epicentro do renascimento mundial do waacking. Dançarinos vêm para a cidade para estudar com professores mais próximos da fonte, como Princess Lockerooo (que já deu aulas de waacking em 27 países). Mas, por causa de sua cena de dança extremamente diversificada e competitiva, Nova York não costuma dar muito destaque ao waacking. Princess Lockerooo comenta que os estudantes geralmente buscam estilos mais comerciais, como o jazz de rua.

As festas de waacking semanais que começou a organizar em 2012 deixaram de ser promovidas depois de alguns anos. "Esse é um estilo que não resiste em Nova York, mas que tem ganhado força no mundo inteiro", comentou Miki Tuesday, nascida na Sardenha, mas que atua na cidade. Isso se deve em grande parte às redes sociais.

Assim como o Soul Train trouxe a dança às salas de estar de todo o país, o Instagram e o TikTok permitiram que dançarinos do mundo todo compartilhassem o waacking com a facilidade de uma hashtag. Conexões virtuais como essa se tornaram ainda mais importantes durante a pandemia.

O waacking é popular na Ásia, onde as origens ocidentais da dança são parte de seu charme. Lip J, uma dançarina e coreógrafa de 33 anos que ensina o waacking em seu estúdio em Seul, na Coreia do Sul, observou que os dançarinos americanos e europeus "dão tudo de si no waacking".

Em Taiwan, os dançarinos relacionam a popularidade do waacking à transformação das normas sociais na ilha, desde que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em 2019. Um dos alunos de Princess Lockerooo em Taiwan, Akuma Diva, conta que o waacking deu a ele a confiança necessária para sair do armário. "A energia do waacking é muito pura. O movimento vem de dentro, por isso, antes de tudo, é preciso encarar a si mesmo", disse.

O waacking chegou até mesmo ao Cazaquistão, onde Elaya Baishakova, de dez anos, faz aulas em um estúdio em Almaty, a maior cidade do país, e assistiu a uma masterclass realizada por Princess Lockerooo na cidade, em 2019. Desde então, Elaya ficou conhecida por competir em batalhas virtuais.

Burnett vê a influência das redes sociais sobre o waacking como uma faca de dois gumes. A internet levou a dança aos quatro cantos do planeta, mas falta na rede a empolgação de dançar ao vivo, enquanto outros aplaudem. "Atualmente, a história é sempre gravada, mas a experiência se perde, já que todos estão ocupados demais gravando. Na minha época, a experiência era central, mas agora não sobrou muito para ver", comentou.

Além disso, as primeiras estrelas do gênero também estão se apagando. Em junho deste ano, Proctor morreu de um ataque do coração aos 66 anos. Ele havia se tornado uma figura paterna para Princess Lockerooo, que ficou arrasada. "Ele sempre estará conosco, vivo dentro de nós", disse. Proctor teve um papel importante na ressurreição do waacking – e, ao que tudo indica, cabe à geração de Princess Lockerooo manter o estilo vivo.

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