Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times

Dançarino russo de break sonha com o ouro olímpico

Olimpíadas estão incorporando esportes não convencionais e, assim, abrem caminho para futuros medalhistas inesperados

Andrew Keh, The New York Times

12 de setembro de 2019 | 06h00

VORONEZH,  RÚSSIA - Sergey Chernyshev, 39, lembrou do começo, adolescente ainda, em Voronezh. Era meados dos anos 1990, antes que a internet encolhesse o mundo, quando a cidade ainda parecia um universo de distância das fontes da cultura hip-hop. Na época, a salvação para Chernyshev foram as fitas de VHS que entravam com dificuldade no país vindas do Ocidente. “Alguém conseguia uma fita do exterior, e nós fazíamos cópias”, contou. “Tirávamos alguma coisa de um vídeo, outra de outro, e foi assim que aprendemos a dançar”.

Aqui as coisas mudaram consideravelmente, e Chernyshev o demonstra apontando para o outro lado da sala, para o filho de 18 anos, também chamado Sergey, que dança break com o apelido de Bumblebee. No ano passado, Bumblebee (abelha grande) ganhou a medalha de ouro para adolescentes no primeiro evento de break dance nas Olimpíadas da Juventude.

Quando este ano foi anunciado que o breakdance seria incluído nas Olimpíadas de 2024, dependendo de uma votação final em dezembro, Bumblebee ganhou um novo objetivo na vida. Ele personifica um novo tipo de aspirante a campeão olímpico, que se destaca em um novo tipo de esporte não-tradicional, promovido recentemente pelo Comitê Olímpico Internacional: surfe, skate, escalada, e kiteboarding. 

Muitos destes eventos, dentro em breve, também serão apresentados nos Jogos Olímpicoss, refletindo os interesses e as ambições de uma geração mais jovem, e um movimento olímpico ansioso por chamar a sua atenção. Michael Holman 64, que fundou a equipe de breakdance New York Breakers, nos anos 1980, sempre considerou as Olimpíadas uma espécie de terra prometida para esta dança.

“A competição é a base de toda a cultura hip-hop”, afirmou Holman. “Os DJs competem: qual é o sistema de som mais alto? Os MCs e os rappers se desafiam: quem tem o melhor ritmo, o mais rápido, o mais poético? Os grafiteiros competem: quem desenha o melhor lado de um trem? E, evidentemente, também os breakers: quem executa os melhores movimentos? 

Durante toda a década de 1990, Sergey Chernyshev organizou combates em Voronezh. Em 2009, ele abriu uma escola chamada Infinity Dance Studio. Seu filho, então com nove anos, foi um dos seus primeiros alunos. Bumblebee continua dançando horas a fio todos os dias. Mas agora ele suplementa as sessões com exercícios no ginásio. Dorme cedo, acorda cedo e evita os doces. O importante é que este é um estilo de vida disciplinado, tão exigente quanto o de qualquer aspirante a campeão olímpico.

Bumblebee, entretanto, afirmou diversas vezes que a dança break não é um esporte e sim uma forma de arte. Evidentemente, ela exige força física e coordenação, acrescentou, mas também muito mais do que isso. “Exige sentimento, e sem sentimento, sem esta percepção artística não se pode fazer nada”, afirmou. “E não perceberemos este sentimento se não fizermos parte da cultura, se nos limitarmos a executar os movimentos”.

No apartamento da família Chernyshev, onde a medalha de ouro de Bumblebee tem um lugar de honra na prateleira da sala de estar, sua mãe, Oksana, 38, disse que espera que o filho continue trabalhando para ter a possibilidade de representar a Rússia em Paris. “Desde um ano de idade, ele observava o pai treinar”, contou, “por isso estava sempre por perto, sempre perto da dança”.

Naquela tarde, Bumblebee encontrou um velho videotape que mostrava seu pai dançando com amigos. Ele enfatizou impressionado, que seu pai fazia uma parada sobre uma mão só. Chernyshev riu quando se viu fazendo o Robô para I Believe in Miracles das Jackson Sisters. “Naquela época, passava muito tempo fazendo isso”, disse. “Foi ótimo porque serviu para alguma coisa”. Daria Konovkina contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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