Elliott Verdier/The New York Times
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Laura Cappelle, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 05h00

PARIS - Quando criança, o autor franco-senegalês David Diop se acostumou a ver soldados não muito diferentes de Alfa Ndiaye, o narrador de seu romance Irmão de Alma. No Senegal, homens que haviam lutado pela França nas duas guerras mundiais frequentemente participavam de desfiles em datas especiais, mas, quando Diop começou a ler as cartas de soldados franceses, não encontrou nenhuma escrita por um soldado de infantaria de algum país africano colonizado. "Foi desalentador, porque no Senegal sabíamos o que eles fizeram pela França. Isso me fez querer escrever uma carta fictícia de um soldado senegalês", disse Diop, professor de literatura do século XVIII na Universidade de Pau, no sudoeste da França.

Desde seu lançamento na França, em 2018, Irmão de Alma tem ajudado a preencher o vazio. Diop, de 55 anos, ganhou vários prêmios, entre eles o Goncourt des Lycéens, prêmio irmão do prestigioso Goncourt, cujo vencedor é eleito por alunos do ensino médio. A versão em inglês de Irmão de Alma, traduzida por Anna Moschovakis, foi publicada pela Farrar, Straus & Giroux em novembro, e agora o livro é um dos finalistas do International Booker Prize deste ano.

Irmão de Alma também contribuiu para um acerto de contas com a história colonial na ficção francesa. Alice Zeniter recebeu um reconhecimento semelhante por The Art of Losing (A arte de perder, em tradução literal), romance multigeracional ambientado durante a guerra pela independência da Argélia e depois dela, que foi traduzido para o inglês por Frank Wynne e publicado nos Estados Unidos em março também pela Farrar, Straus & Giroux.

Embora as teorias progressistas sobre raça e pós-colonialismo tenham desencadeado uma amarga guerra cultural na França e gerado acusações de americanização, o sucesso dos livros de Diop e Zeniter mostra que também existe um desejo por uma discussão mais aberta sobre a história da França com a África.

Zeniter, de ascendência argelina, descobriu que a ficção a ajudou a evitar um debate público polarizado: "Ela oferece uma suspensão do julgamento para explorar uma vida diferente da nossa. A literatura pode ser uma forma de comover as pessoas antes que elas se voltem para a explicação racional da história. Pode ser um indício de que a lembrança é necessária para alcançar um senso de equilíbrio na França."

Como observou Diop, o equilíbrio entre suas duas culturas surgiu de maneira bastante natural. Ele nasceu em Paris, filho de mãe francesa e pai senegalês, que tinha vindo para a França para estudar. A família se mudou mais tarde para Dacar - mudança que Diop, então com cinco anos, não achou especialmente dramática. "Tive a sorte de minhas famílias francesa e senegalesa terem sido muito afetuosas com meus pais. Recebi muito amor de ambos os lados. Não experimentei minhas duas identidades culturais como uma fonte de conflito", revelou o escritor.

Diop voltou para Paris depois de terminar o ensino médio para estudar literatura. Enquanto sua mãe, leitora devotada, era apaixonada por uma ampla gama de autores franceses e africanos, na universidade ele se fixou nos "Lumières" do século XVIII, movimento iluminista/humanista liderado por nomes como Voltaire e Denis Diderot. "Fui atraído por seu ativismo e seu compromisso com os direitos humanos. Não vou dizer que os perdi, mas na época eu tinha ideais políticos", comentou Diop com uma risada.

Criado com base nos valores universalistas da França, Diop disse que não experimentou o racismo como um acadêmico não branco e que tem o cuidado de distanciar sua escrita do ativismo. Para ele, noções como apropriação cultural são "opressivas" - "Flaubert criou Madame Bovary, embora não fosse mulher" - e prefere pensar na literatura como "liberdade". "Não devemos nos trancar em uma prisão para doentes mentais." (Em um ponto da nossa conversa, Diop perguntou gentilmente: "Você não acha que essas questões sobre raça estão sendo importadas para países onde elas não estavam sendo abordadas nesses termos?")

Ainda assim, Irmão de Alma alude inequivocamente à dinâmica racial existente nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Soldados africanos de países colonizados foram equipados com um facão para inspirar mais medo. Alfa, o personagem principal de Diop, percebe quanta selvageria se espera dele e a eleva a outro nível, aventurando-se todas as noites a matar um soldado alemão e trazer de volta sua mão decepada.

Diop e Zeniter se basearam no trabalho de historiadores para preencher as lacunas. "Eu os leio como nenhum acadêmico deveria ler: sem fazer anotações. Eu queria que aquilo que realmente havia me impressionado ressurgisse quando comecei a escrever", contou Diop.

Ao tratar da Guerra da Argélia, Zeniter disse ter encontrado "uma quantidade colossal de bolsas de estudo. Isso torna muito mais fácil continuar sem ter medo de cometer um grande erro".

Diop também se inspirou no wolof, o idioma que falava quando cresceu no Senegal, para dar a Alfa - que não fala francês no romance - uma voz própria: "Tentei moldar o francês para fazê-lo soar um pouco como o wolof, que, quando falado em circunstâncias formais, usa o ritmo e a repetição."

Ele deu ao romancista marfinense do século XX Ahmadou Kourouma o crédito por ter trazido um sabor exclusivamente africano ao francês - uma forma de "reapropriação", segundo Diop, em países onde o francês se tornou a língua oficial sob o domínio colonial.

Tanto Diop quanto Zeniter ficaram impressionados com a reação dos leitores na França. Diop revelou que, ao fazer eventos para promover Irmão de Alma, que vendeu 170 mil cópias no país, as pessoas lhe traziam "cartas, fotos do avô ou bisavô com soldados de infantaria africanos". Zeniter recebeu centenas de cartas de ex-soldados, confidenciando-lhe suas experiências durante a Guerra da Independência da Argélia: "Isso me fez perceber que havia um vazio em matéria de histórias sobre aquela época. É claro que a possibilidade de falar sobre isso em voz alta foi sufocada."

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