Michael Tyrone Delaney/The New York Times
Michael Tyrone Delaney/The New York Times

David Oyelowo luta por representação em filmes para a família

O ator passou a dirigir após uma discussão reveladora com seu filho. Ele percebeu que não podia contar com Hollywood para encontrar histórias que queria contar

Nicole Sperling, The New York Times - Life/Style

27 de maio de 2021 | 05h00

A jornada do ator David Oyelowo até a cadeira de diretor levou 20 anos e uma conversa fundamental com seu filho mais velho. O ano era 2015 e Oyelowo se preparava para estrelar o filme de família Rainha de Katwe. Seus quatro filhos já o haviam visitado no set do filme Selma, no qual parecia não haver nada que seu pai não pudesse fazer. Afinal, foi Oyelowo quem raspou uma linha no cabelo e ficou atrás do púlpito, canalizando as habilidades de oratória singulares de Martin Luther King Jr.

Agora, Oyelowo estava voltando sua atenção para um filme da Disney, Katwe, e animado em informar o filho de que seu pai tinha finalmente chegado à verdadeira fábrica de sonhos de infância. "Contei para ele e a primeira pergunta que ele me fez foi: 'Uau, papai, isso é ótimo. Você vai interpretar o melhor amigo?'", lembrou o ator.

Oyelowo ficou chocado. O garoto de 14 anos já havia feito os cálculos e percebido que, se seu pai, negro britânico filho de nigerianos, ganhasse um papel em um filme da Disney, certamente não poderia ser no centro da narrativa, mesmo que tivesse acabado de retratar King. Embora Pantera Negra possa ter mudado a equação ao tratar da representação negra na tela, o fato de Oyelowo ter ganhado o papel principal em um filme da Disney com um elenco totalmente negro não fazia sentido para o garoto.

E foi só isso. Oyelowo já havia passado a maior parte de duas décadas construindo uma carreira que atraiu a atenção de diretores de prestígio como Anthony Minghella, Christopher Nolan e Ava DuVernay, enquanto desempenhava papéis que se erguiam acima dos estereótipos preguiçosos frequentemente presentes em filmes de Hollywood. Foi tudo intencional. Como sua esposa, Jessica Oyelowo, explicou: "Ele recusou muitos papéis que, de alguma forma, caracterizavam negativamente os negros. E não porque os negros não façam coisas ruins ou não tenham feito coisas ruins para eles mesmos. Mas porque escolheu olhar para a frente".

Agora, porém, fazer parte de projetos que representavam com precisão a realidade de Oyelowo não era mais suficiente. A partir dessa conversa, ele pegaria o capital social que havia adquirido em Hollywood e o investiria em uma produtora própria, a Yoruba Saxon, que criou com Jessica, e que lhe permitiria controlar a narrativa e contar histórias que mostrassem as complexidades das pessoas não brancas.

"Não vou buscar apenas essas coisas que mostram um nível de representação do meu mundo. Agora tenho de lutar por elas", comentou Oyelowo. Era sua maneira de fazer sua parte para garantir que nenhuma outra criança negra se sentisse relegada ao papel coadjuvante novamente. "Sinto que meu trabalho é normalizar minha existência", disse sem rodeios.

Nos últimos seis anos, o casal criou filmes de orçamento baixo como Um Reino Unido, em que Oyelowo interpretou Seretse Khama, o herdeiro do trono de Botswana que causou um escândalo internacional ao se apaixonar por uma inglesa branca e se casar com ela em 1940, e Nightingale, o filme da HBO que rendeu a Oyelowo, o único ator do projeto, um Globo de Ouro e uma indicação ao Emmy.

Em seguida, ambos concentraram seus esforços em filmes que atraíssem a atenção das crianças, desde o filme de orçamento minúsculo da empresa Blumhouse, Correndo contra o Tempo, no qual ele contracena com Storm Reid (Uma Dobra no Tempo), até o filme do ano passado Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos, mistura dos contos de fadas Alice no País das Maravilhas e Peter Pan, no qual atuou ao lado de Angelina Jolie. Nem foram grandes sucessos – Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos sofreu particularmente com críticas ruins e um lançamento em meio à pandemia –, mas indicaram uma nova direção.

Agora há The Water Man (O Homem da Água, em tradução livre), conto de aventura escrito por Emma Needell sobre um pré-adolescente que, em um esforço para salvar a mãe moribunda, tenta encontrar uma criatura mítica com poderes de cura que supostamente vive na floresta do Oregon. Apresentado na Black List de 2015, que é um rol dos melhores roteiros não produzidos, Needell recusou a proposta de um estúdio ansioso com um diretor contratado, optando por vender o roteiro à Yoruba Saxon e aos Harpo Studios, de Oprah Winfrey, para que Oyelowo estrelasse.

Segundo Needell, ela precisava dizer sim à conexão de Oyelowo com o material e à sua promessa de mantê-la envolvida durante todo o processo. "David não só entendeu a história: entendeu melhor do que eu essa ideia de que a esperança é a forma mais forte de bravura".

Foi ela também que o encorajou a assumir a cadeira de diretor. Anos haviam se passado desde que ele comprou o roteiro pela primeira vez, o financiamento finalmente havia saído, o elenco estava escalado e depois o diretor desistiu – "fugiu", segundo Oyelowo. Seu protagonista, Lonnie Chavis, de This Is Us, só teria uma breve janela antes de ter de voltar à produção do seriado, e a equipe estava lutando. Needell sabia que Oyelowo estava por trás de tudo o tempo todo: "Eu dizia: 'Olha, David, você sempre foi a pessoa em que mais confio neste projeto. Você o compreende totalmente e deveria dirigi-lo'."

Então, Oyelowo se mudou com a família para o estado do Oregon. Os quatro filhos, que agora têm entre nove e 19 anos, serviram como conselheiros não oficiais do pai, e Jessica se posicionou atrás do monitor para garantir que Oyelowo oferecesse um desempenho forte como um militar rude tentando entender seu filho sonhador enquanto cuidava da esposa doente (Rosario Dawson). Isso foi fundamental, assim como dirigir o filme, que custou mais de US$ 10 milhões e apresentou uma infinidade de desafios imprevisíveis: crianças, animais, terreno acidentado e fogo. (Jessica e o filho mais velho do casal, Asher, também escreveram a música que toca durante os créditos finais do filme.)

O filme parecia se conectar com Oyelowo em um nível metafísico. "The Water Man é um indicativo de como vejo a paternidade. Como vejo o amor. É uma força que pode cortar pedra, e ser pai é cometer erros todos os dias, mas não significa que você ame menos seus filhos", revelou o ator.

Tendo Nagenda, executivo da Netflix que havia trabalhado com Oyelowo em Rainha de Katwe e que foi o defensor original de The Water Man quando estava na Disney, comparou Oyelowo a outro ator que virou diretor, Kenneth Branagh. "Você não pode colocar nenhum dos dois em uma caixa", disse ele, acrescentando que são a visão de mundo global de Oyelowo e sua fé que orientam suas escolhas profissionais. "Ele quer trabalhar e não quer ter de escolher um trabalho em que não acredita, por isso opta por criá-lo ele mesmo."

Da mesma forma, Oyelowo estabeleceu os termos para o tratamento da raça no filme. O fato de se tratar da única família negra em uma cidade de maioria branca do Oregon dá o tom da história, mas não é o centro da trama. "Para a maioria das pessoas não brancas neste país e em qualquer lugar onde a raça é um problema, muito do que acontece são microagressões, não macroagressões. São coisas sutis que fazem você pensar, quando chega em casa: 'Aquilo realmente aconteceu?' Foi por isso que meu filho me perguntou: 'Você vai interpretar o melhor amigo?' Isso vem de algum lugar."

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.