Jingyu Lin/The New York Times
Jingyu Lin/The New York Times

De 007 a novo filme de Wes Anderson: A trajetória de Léa Seydoux

Depois de dividir as telas com Daniel Craig no último filme da franquia do detetive James Bond, a atriz aguarda o lançamento do longa 'The French Dispatch'

Nicolas Rapold, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2021 | 05h00

As histórias de The French Dispatch, de Wes Anderson, se passam na cidade fictícia de Ennui-sur-Blasé. Léa Seydoux – que interpreta uma agente penitenciária que é modelo para um presidiário – acha o nome hilário. "É muito bom! É exatamente a imagem que os americanos têm dos franceses: eles são tão entediados", disse Seydoux com uma risada.

Este ano tem sido tudo menos entediante para a atriz. O tão aguardado filme de Anderson segue o igualmente esperado 007 – Sem Tempo para Morrer, estrelado por Seydoux como Madeleine Swann, contracenando com o simpático Daniel Craig no papel de Bond. The French Dispatch foi exibido no Festival de Cinema de Nova York e estreou em Cannes, ao lado de outros três filmes estrelados por Seydoux: Deception, de Arnaud Desplechin, adaptação da obra de Philip Roth; a peça de época de Ildiko Enyedi, The Story of My Wife; e France, drama satírico de Bruno Dumont.

A intensa variedade torna difícil ter uma única imagem da própria Seydoux. A atriz de 36 anos ficou conhecida no meio artístico em 2008 com A Bela Junie, comédia dramática sobre um romance entre estudante e professor. Compartilhou a Palma de Ouro em 2013 em Cannes para o explícito Azul É a Cor Mais Quente, com seu diretor, Abdellatif Kechiche, e a coestrela, Adèle Exarchopoulos. 007 contra Spectre, de 2015, trouxe-a para a franquia Bond, na sequência de um Missão: Impossível.

Os admiradores perceberam o toque sedutor e discretamente radiante de Seydoux nas telas. "Léa Seydoux é sempre uma atriz cativante", escreveu Stephanie Zacharek no The Village Voice. A crítica do The New York Times de O Diário de uma Camareira disse que ela pertence a uma linhagem de atrizes que inclui Jeanne Moreau e Paulette Goddard. "A antítese da Bond Girl", declarou Christina Newland em sua crítica de 007 – Sem Tempo para Morrer.

"Léa Seydoux tem um charme impossível de replicar na tela. É, paradoxalmente, elegante (como uma gata, quieta, observadora, movendo-se suavemente em cena) e uma caminhoneira", declarou Cary Joji Fukunaga, que dirigiu o novo filme de Bond, por e-mail.

Apesar dos papéis muitas vezes imponentes, nas conversas com Seydoux ela marcha ao som de uma bateria própria. Em um hotel butique de Manhattan, ela parava com frequência, às vezes se perdendo no silêncio, mas sorria com afabilidade e curiosidade. Seus primeiros comentários não foram sobre Bond ou "Wes", mas sim sobre a crítica existencial em France, de Dumont. "Ela sabe que faz parte do sistema capitalista. E ela quer isso – é sua ambição. Mas está ciente do fato de que também é uma ferramenta do sistema. E está consciente da própria alienação", refletiu Seydoux sobre sua personagem, France de Meurs, jornalista de TV em crise.

Não era isso que eu esperava ouvir na "bolha Bond", como seu agente se referiu à operação de imprensa do filme no hotel. Mas Seydoux passou livremente dos pontos de discussão de Bond para a análise espontânea de seus papéis: "Quando interpretei Madeleine, eu estava 'em primeiro grau': não havia distância, não havia ironia. Meu posicionamento como atriz é algo que amo de verdade. Já com Dumont o tema é a dimensão filosófica."

Quando perguntei a Dumont sobre sua atuação, ele disse simplesmente: "Léa Seydoux trouxe Léa Seydoux! Eu gostava de sua naturalidade, e estava interessado em trabalhar com essa naturalidade para construir uma personagem artificial." (France, também selecionado para o Festival de Cinema de Nova York, estreia em dezembro.)

Em The French Dispatch, Seydoux interpreta uma agente penitenciária e amante de um grande artista encarcerado, Moses (Benicio Del Toro). Sua vivacidade e inteligência mantêm o ritmo cômico. "O ritmo, a linguagem corporal, a maneira como você se movimenta – para o Wes, não podemos nos movimentar de uma maneira normal. Tudo tem de ser tch-tch-tch-tch", afirmou Seydoux.

Anderson ofereceu a ela o papel por mensagem de celular, que ela leu em voz alta para mim: "O filme é uma espécie de coleção de contos. Portanto, vou enviar apenas as partes que você precisa ler..." Sobre o ritmo de sua personagem, ela alega com uma risada: "Acho que sou realmente assim!"

Seydoux foi criada em Paris, com um pai empresário e uma mãe com "espírito artístico", segundo ela. Seu avô adquiriu o famoso estúdio francês Pathé, que remonta ao início do cinema, mas contou que eles não eram próximos. "Era uma família boêmia, mas não era feliz. Eu era muito triste quando criança. Sofri muito com o fato de ser diferente. Tive problemas para ler", contou Seydoux. Em entrevistas anteriores, a atriz descreveu uma infância muito tímida, em que "ficava totalmente no meu mundo".

Para Seydoux, o filme que a revelou, A Bela Junie, foi como ter sua "primeira família, de certa forma". Fazer cinema deu a ela um senso de propósito: "Gosto é de me sentir necessária, e gosto de compartilhar com as pessoas. Isso me conecta ao mundo."

Seydoux acabou de terminar as filmagens de Crimes of the Future, de David Cronenberg, com Viggo Mortensen e Kristen Stewart. O enredo? "É um futuro distópico em que as pessoas comem plástico e órgãos vão crescendo nelas. Sou uma cirurgiã; removo esses órgãos."

Em seguida vem um drama familiar, One Fine Morning, de Mia Hansen-Love. Sua personagem é uma mãe solteira que cuida do pai doente e encontra o amor.

Em determinado ponto, a variedade de seus papéis fez com que eu me lembrasse da citação de um dramaturgo sobre a escolha do tema: "Nada do que é humano me é estranho." Gostando da frase, Seydoux me entrega seu telefone para que eu digite aquilo para ela. Em seguida, joga-se para trás e solta uma piada. "Então você acha que sou humana? Sim!"

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