Jens Mortensen for The New York Times
Jens Mortensen for The New York Times

De cirurgia a comprimido: a difícil busca da cura da obesidade

Pesquisas científicas tentam encontrar comprimido para reduzir peso

Gina Kolata, The New York Times

07 Dezembro 2018 | 06h00

Sempre que vejo uma foto dos anos 1960 ou 1970, fico impressionada. Havia muito mais pessoas magras. Em 1976, 15% dos adultos americanos eram obesos. Hoje, essa proporção está quase em 40%. Ninguém sabe ao certo por que os corpos mudaram tanto. Os cientistas apontam para a abundância de alimentos do tipo fast food a preços baixos e os lanches em geral, o sabor viciante dos produtos das empresas de alimentos, as porções maiores, a tendência de passar o dia comendo alguma coisa.

Todos gostariam que houvesse um tratamento capaz de devolver o peso ao normal e mantê-lo nesse patamar. Por que isso ainda não foi descoberto? Não é por falta de tentativas. Há um único tratamento de eficácia quase uniforme, que é pouco utilizado: apenas cerca de 1% dos 24 milhões de adultos americanos que poderiam se submeter ao procedimento de fato o realiza.

Esse tratamento é a cirurgia bariátrica, uma operação que transforma o estômago num pequeno saco e, em uma variante, muda também o trajeto do intestino. A maioria daqueles que se submetem a ela perdem um peso significativo - mas há também os que continuam acima do peso, ou até obesos.

De todo modo, a saúde deles costuma melhorar. Muitos com diabetes dispensam a insulina. Pressão e colesterol tendem a baixar. A apneia do sono desaparece. Costas, quadris e joelhos deixam de doer. Muitos pacientes e médicos insistem em pensar (apesar de todas as provas contrárias) que, se os obesos realmente tentassem com determinação, conseguiriam emagrecer e manter-se magros.

Os cientistas analisaram o fenômeno 50 anos atrás, quando o pesquisador clínico Jules Hirsch, da Universidade Rockefeller, em Nova York, recrutou pessoas obesas para que se mantivessem numa dieta líquida de 600 calorias diárias até alcançarem o peso normal. Em média, os participantes perderam 45 quilos. Mas, assim que deixaram o hospital, voltaram a ganhar peso.

Hirsch e Rudy Leibel, atualmente na Universidade Columbia, em Nova York, descobriram que quando uma pessoa muito gorda faz dieta até chegar ao peso normal, seu funcionamento psicológico passa a se assemelhar ao de uma pessoa com inanição, desejando o alimento com uma avidez que é difícil de imaginar.

Há apenas dois anos, Kevin Hall, do Instituto Nacional de Diabetes e Males Digestivos e Renais, nos Estados Unidos, ganhou as manchetes com um estudo envolvendo os participantes do programa de TV Biggest Loser. Eles perdiam muito peso, mas raramente conseguiam se manter magros. O elo genético da obesidade foi demonstrado nos anos 1980 em estudos mostrando que o peso corporal é uma característica hereditária. Começava a parecer que não havia esperança para o caso dos obesos.

Então, em 1995, o professor Jeffrey Friedman, da Universidade Rockefeller, descobriu uma molécula que batizou de leptina, produzida pelas células de gordura para indicar ao cérebro quanta gordura há no corpo. Se a pessoa estiver demasiadamente magra, o cérebro a estimula a comer. Nas pessoas obesas, esse mecanismo é demasiadamente sensível.

A empresa farmacêutica Amgen pagou à Rockefeller e a Friedman 20 milhões de dólares pelos direitos de exploração da leptina com o objetivo de desenvolver um tratamento para a obesidade. A ideia era dar leptina aos pacientes obesos para que seus cérebros entendessem que já havia gordura demais.

A leptina não progrediu, mas foi fundamental para abrir as portas para uma complexa rede de hormônios e sinais cerebrais que controlam o peso corporal. O problema é que nenhum elemento isolado pareceu produzir um impacto significativo na perda de peso.

Agora, a esperança é encontrar uma forma de reproduzir os benefícios do procedimento bariátrico sem a cirurgia. A operação altera a orquestra de hormônios e sinais do corpo. Depois da bariátrica, os sabores mudam. Muitos pacientes perdem o desejo de ingerir alimentos de alto valor calórico. Muitos se descobrem livres da fome irresistível.

Seria possível imitar esses efeitos com um remédio? É o que muitos pesquisadores estão tentando fazer. Randy Seeley, do centro de pesquisa em nutrição da Universidade de Michigan, está otimista quanto à possibilidade de descoberta de um remédio.

“Acreditamos que estamos no rumo certo", disse ele, “mas, por enquanto, nada avançou o suficiente". Por enquanto, os pesquisadores gostariam apenas que as pessoas (mesmo as obesas) parassem de culpar os gordos pelo seu problema de peso. “A ideia segundo a qual as pessoas deveriam comer menos e se exercitar mais imagina que isso seja simples", disse Hall.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.