Yasser Al-Zayyat/Agence France-Presse
Yasser Al-Zayyat/Agence France-Presse

De George Orwell a Walt Disney, cresce lista de livros proibidos no Kuwait

O país censurou mais de 4 mil livros nos últimos cinco anos

Rod Nordland, The New York Times

04 Outubro 2018 | 15h15

KUWAIT - Aparentemente, nenhum livro é demasiadamente significativo ou insignificante demais para ser proibido no Kuwait. Entre os alvos recentes dos censores oficiais das obras literárias está uma enciclopédia com um quadro de Davi, de Michelangelo, e uma versão da A Pequena Sereia, da Disney. O Davi não tinha a folha de figo, e a sereia, infelizmente, usava meio biquíni.

"Não há sereias de hijab", disse a ativista kuwaitiana Shamayel al-Sharikh. "Os poderes superiores acharam que sua roupa era promíscua. É humilhante".

Os kuwaitianos gostam de considerar que seu país é um enclave de liberdade intelectual no Golfo Pérsico conservador, um refúgio que outrora recebia de braços abertos os escritores árabes exilados. Entretanto, atualmente, está se tornando muito difícil sustentar esta autoimagem.

Atendendo às exigências de um crescente bloco conservador no Parlamento, o governo está proibindo cada vez mais livros. Em agosto, o país admitiu ter proibido, desde 2014, 4.390 livros, centenas deles este ano, incluindo muitas obras de literatura antes consideradas intocáveis, provocando manifestações de rua e protestos online.

Às vezes, a comissão formada por 12 censores (seis que leem árabe e seis que leem inglês), que têm todo o poder sobre os livros para o Ministério da Informação, apresenta uma razão. A antologia "Por que escrevemos", por exemplo, foi proibida porque sua editora, Meredith Maran, acusara falsamente o pai de assédio sexual.

Em outros casos, a justificativa é obscura, como no caso de “The Art of Reading”, de Damon Young. O livro de memórias de Maya Angelou, “I Know Why the Caged Bird Sings”, também é proibido no Kuwait.

Os ganhadores de prêmios não estão imunes - na realidade, parecem ser vítimas frequentes. “Cem Anos de Solidão”, do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez, foi proibido por causa de uma cena em que uma esposa vê o marido nu, assim como “Children of Gebalawi’, do egípcio Naguib Mahfouz, o primeiro escritor em língua árabe a ganhar o Nobel de Literatura.

Se tudo isso parece orwelliano, “1984”, de George Orwell, também foi proibido, em pelo menos uma tradução árabe, embora seja permitido em outra.

Os leitores kuwaitianos reagiram às proibições com um misto de brio e alegria debochada. Alguns postaram nas redes sociais fotos de pilhas de livros proibidos que eles têm nas bibliotecas de suas casas. Eles sugeriram que os serviços de entrega online de obras do exterior poderiam escapar da proibição, que se aplica principalmente às livrarias e às editoras locais.

"Agora, os livros estão se tornando como drogas", disse Hind Francis, ativista de um grupo kuwaitiano contra a censura chamado Meem3. "As pessoas precisam ter seu livreiro proibido".

Em setembro, ativistas e escritores reuniram-se três vezes para protestar contra a proibição dos livros.

Como a feira do livro do país - a terceira maior do mundo árabe, depois da do Cairo e de Beirute - foi marcada para novembro, as autoridades recuaram. "Não existe proibição de livros no Kuwait", dizia um recente comunicado do Ministério da Informação. "Existe uma comissão de censura de livros que revê todas as obras".

O ministro assistente da Informação, Muhammad Abdul Mohsen al-Awash, explicou que "no Kuwait, nos últimos cinco anos, só foram proibidos 4.300 livros de 208 mil (avaliados). Isso significa que apenas 2% estão proibidos e 98% são aprovados".

Esta é uma questão particularmente sensível porque o emir do Kuwait, Sheikh Sabah al-Ahmad al-Sabah, pressiona para que seu país se torne um centro cultural regional. O teatro, a dança e a música estão sob o patrocínio real e são isentos de censura, mas os livros não estão.

"Esse centro cultural não pode acontecer enquanto há um massacre de livros como o que estamos vendo aqui, com todos estes livros proibidos", afirmou Bothyana Al-Essa, autora kuwaitiana cujo livro “Maps of Wandering” foi banido. Os censores kuwaitianos baniram o livro por causa de uma cena de abuso contra uma criança ambientada em Meca, na Arábia Saudita. No entanto, os próprios sauditas nunca proibiram o livro em seu país, onde é um best-seller.

As proibições se estenderam pela primeira vez a muitas obras internacionais e a livros de referência que já se encontram nas estantes kuwaitianas.

"Este ano eles fizeram um papel ridículo ao proibir histórias infantis e livros de autores kuwaitianos", disse Sharikh. Até mesmo obras produzidas pela editora oficial para o Conselho Público para a Cultura, Artes e Literatura foram proibidas, como um estudo científico sobre o hímen, segundo o ativista Hind Francis.

Em uma livraria de Kuwait City, a proprietária mostrou um móvel secreto repleto de livros de contrabando atrás da caixa registradora e um depósito no porão com muitos outros. "É um clichê afirmar que a proibição de livros estimula as vendas", comentou. "Como vendedora de livros, posso dizer que gostaria muito mais que eles ficassem à mostra".

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