Tauseef Mustafa/Agence France-Presse - Getty Images
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De olho na China, EUA investem no exército da Índia

Antiquadas, forças armadas do país ganharam ajuda financeira norte-americana

Maria Abi-Habib, The New York Times

09 de março de 2019 | 06h00

NOVA DELHI - Foi um momento de pouca honra para um exército no qual os Estados Unidos apostam para manter sob controle as ambições de uma China expansionista. Um piloto da força aérea indiana se viu num duelo no fim do mês passado contra um avião de guerra da força aérea do Paquistão, e acabou como prisioneiro atrás das linhas inimigas, ainda que brevemente.

O piloto voltou para casa, abalado e ferido, mas o avião, um antigo MiG-21 da era soviética, teve menos sorte. O duelo aéreo, o primeiro entre os rivais sul-asiáticos em quase cinco décadas, foi um raro teste para as forças armadas indianas - e seus observadores ficaram um pouco perplexos. Ainda que os desafios enfrentados pelas forças armadas indianas sejam conhecidos, a perda de um avião para um país cujo exército tem a metade do tamanho do indiano e recebe um quarto dos recursos foi reveladora.

As forças armadas da Índia se encontram em um estado alarmante. Se combates intensos tivessem início amanhã, a Índia só poderia manter suas tropas abastecidas de munição por 10 dias, de acordo com estimativas do governo. E 68% do equipamento do exército são tão velhos que recebem oficialmente a designação de antiguidades.

“Nossos soldados carecem de equipamento moderno, mas precisam realizar operações militares do século 21", disse Gaurav Gogoi, membro da Comissão Parlamentar Permanente de Defesa. Funcionários do governo americano encarregados de fortalecer a aliança falam de sua missão com frustração: uma burocracia inchada transforma a venda de armas e os exercícios conjuntos de treinamentos em tarefas paquidérmicas; e o orçamento das forças indianas é muito insuficiente.

Sejam quais forem os problemas, os EUA estão determinados a fazer do país um aliado nos próximos anos como forma de se proteger das ambições regionais da China. O exército americano começou a tratar a aliança com a Índia como prioridade conforme o relacionamento com o Paquistão azedou ao longo dos 20 anos mais recentes. Em apenas uma década, a venda de armas dos EUA para a Índia passou de quase zero para US$ 15 bilhões.

Mas o Paquistão ainda pode se valer de um arsenal fornecido pelos americanos. Oficiais indianos dizem que o Paquistão usou um de seus caças F-16 para derrubar o MiG-21 indiano no mês passado. Independentemente dos problemas das forças armadas, a Índia reserva um apelo estratégico para os EUA. 

A Índia logo se tornará o país mais populoso do mundo, provavelmente ultrapassando a China já em 2024. O país partilha uma longa fronteira com o sul e o oeste da China e controla importantes águas territoriais das quais Pequim necessita para suas rotas comerciais marítimas. Tudo isso pode ajudar os EUA na tentativa de conter a rival.

“A dinâmica demográfica da India, seu potencial militar no longo prazo, suas dimensões geográficas - tudo isso faz da Índia um sucesso pelo qual vale a pena esperar", disse Jeff Smith, pesquisador especializado no Sul da Ásia patrocinado pela Heritage Foundation, de Washington. 

“Com a ascensão da China e a luta dos EUA para manter seu domínio, os americanos vão precisar de um país que possa atuar como pêndulo no equilíbrio de poder do século 21", disse ele. “E esse país é a Índia.” Para o exército da Índia, o maior desafio ainda é o orçamento.

Em 2018, a Índia anunciou um orçamento de aproximadamente US$ 45 bilhões para suas forças armadas. O orçamento militar da China daquele ano foi US$ 175 bilhões. No mês passado, Delhi anunciou outro orçamento de US$ 45 bilhões. Não é apenas uma questão do quanto a Índia gasta com seu exército, mas também de como esse gasto é feito. A maior parte do dinheiro é destinado ao pagamento do salário de seu 1,2 milhão de soldados ativos, além das pensões. 

Apenas US$ 14 bilhões serão usados na compra de novo equipamento. “Em um momento em que os exércitos modernos estão investindo muito no aprimoramento de suas capacidades técnicas e de espionagem, deveríamos seguir esse mesmo rumo", disse Gogoi.

Diferentemente da China, onde um governo autoritário tem liberdade para definir a política de defesa, a Índia é uma democracia, com toda a bagunça que isso pode acarretar. Reduzir o número de soldados para que o exército possa comprar equipamento moderno não é algo tão simples. Faz tempo que o exército da Índia é uma fonte de empregos num país que enfrenta uma precariedade crônica no trabalho.

Funcionários do governo em Nova Delhi dizem ter dificuldade para melhorar a vida dos cidadãos nas maneiras mais elementares - enfrentando um alto analfabetismo e a total insuficiência da infraestrutura de saneamento, para citar apenas dois exemplos - o que impede que mais dinheiro seja destinado ao exército enquanto a China faz incursões aéreas e marítimas no quintal da Índia.

O primeiro-ministro Narendra Modi foi eleito em 2014 prometendo reformar a economia e criar um milhão de empregos por mês, o necessário para satisfazer a crescente força de trabalho. Mas, passada a votação, Modi pôs de lado as promessas de reforma econômica e adotou as medidas populistas habituais.

“O ímpeto deste governo está mais no desenvolvimento econômico, que teve ter precedência em relação ao poderio militar", disse Amit Cowshish, ex-assessor financeiro para aquisições militares do ministério da defesa. “Foi o que a China fez - eles se concentraram no desenvolvimento da sua economia e, em seguida, se concentraram em alcançar sua estatura militar atual. A diferença é que a China começou 20 ou 30 anos na nossa frente em termos de liberalização econômica.”

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