AnnieTritt para The New York Times
AnnieTritt para The New York Times

De olho nas crianças da Broadway

Tutora de artistas mirins, Jill Valentine relata o trabalho de orientar jovens de 'Escola de Rock'

Alexis Soloski, The New York Times

06 Fevereiro 2019 | 06h00

Jill Valentine tem certeza de que as crianças a chamavam com um apelido: Desmancha Prazeres. Ao longo de aproximadamente quatro anos, ela foi uma espécie de tutora das crianças que atuaram em “Escola de Rock”, que no dia 20 de janeiro encerrou sua temporada na Broadway. Esta espécie de babá cuida dos pequenos atores durante os ensaios, e antes e depois de sua atuação no palco. Jill distribui analgésicos para elas e tem fichas de consulta.

Jill não tem filhos - “Tenho dois gatos e um namorado, já é o suficiente!” - mas, desde que passou a fazer parte da equipe de “Escola de Rock”, na época dos ensaios do musical na Broadway, em 2015, Jill cuidou ao todo de 63 crianças. Treze delas, entre 8 e 13 anos, estrelavam cada apresentação, com mais quatro aguardando nos bastidores.

Abaixo estão alguns trechos da entrevista com a tutora Jill Valentine.

O que faz exatamente um tutor?

Nós somos responsáveis pela segurança, saúde, bem-estar das crianças que atuam no musical, desde o momento em que entram pela porta que leva direto ao palco até a sua saída. Eu preciso estar a postos duas horas antes do início da apresentação. Então, ficamos com as crianças cerca de uma hora e 15 minutos antes do espetáculo.

Elas sobem, deixam suas coisas, fazem um aquecimento vocal e físico na nossa sala verde, e depois começam os preparativos para estarem em cena - cabeleireiro, figurino, checagem do som, todas essas coisas. Quando as crianças descem para começar a sua apresentação, não temos um instante de folga. Elas estão no palco o tempo todo e nós nos bastidores.

Como você cria um relacionamento com elas?

A gente começa perguntando coisas concretas sobre a sua vida, e dali para a frente acompanha o tempo todo, então elas têm consciência de que nós nos preocupamos com elas. Afinal, passamos 40 horas por semana juntos, é muito tempo. A gente se torna realmente uma família.

Como você tranquiliza os pais?

Quando começamos os ensaios, eu dou uma orientação aos pais. Tenho um folheto de oito páginas que distribuo para eles; ali explico que o filho deles está em um espetáculo da Broadway, estas são as coisas que eles precisam saber, um guia passo a passo. Todos têm o número do meu celular. Sou eu que pego as mensagens de texto, recebo telefonemas, abro os e-mails.

Já tratou de alguma emergência?

É claro que uma vez ou outra tivemos pequenos acidentes. Nós recomendamos: ‘Se vocês acham que vão se sentir mal, por favor saiam do palco, estaremos ali esperando vocês com um balde. E devo perguntar: ‘Precisam parar? Conseguem terminar o espetáculo?’ A escolha é do próprio ator.

Então, Desmancha Prazeres, como você acaba com o divertimento?

Se é um dia de muito trabalho, eu sou a pessoa que diz: “Está maluco? Estamos no meio de um espetáculo. Você não pode jogar uma bola de futebol nos bastidores. Não pode e pronto!” Já tive de esconder bola de basquete, prancha de skate.

Você tem um grupo favorito de crianças?

É muito difícil não ter favoritos. As crianças sabem e isto na realidade não é bom para o que tentamos ensinar a elas, que é um comportamento profissional.

Já houve romances?

Não de fato. O nosso grupo etário costuma se enquadrar na faixa antes de isto acontecer. A maioria dos meninos e das meninas têm os seus preferidos, é claro. Além disso, não temos tempo!

Qual é a parte mais complicada do trabalho?

Acho que a coisa mais difícil é ser coerente com o compromisso assumido. Não importa quanto eu esteja cansada. Ou se é a noite de domingo e tudo o que quero é ir para casa. Porque, quando há algum problema, é preciso que estas crianças recorram a mim e confiem em mim.

É triste o fim de temporada?

Um pouco. Este é o meu sexto espetáculo na Broadway. Já sei muito bem o que isto significa. Mas ao encerrar uma temporada, tenho trabalho burocrático para resolver, preciso me desfazer dos cronogramas antigos, guardar os desenhos que as crianças fizeram. E você pensa: ‘Então é isso aí. Lembra disso?’ Trabalhamos tanto! No fundo, o sentimento que predomina não é tanto o cansaço, mas o orgulho do que realizamos.

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