Emily Kask / The New York Times
Emily Kask / The New York Times

De volta ao México, onde ser trans significa perder a identidade

Diferença de culturas entre países obriga homens e mulheres transgênero a viver uma existência dupla

José A. Del Real, The New York Times

05 de abril de 2019 | 06h00

MEXICALI, MÉXICO - Nas fotos, Jess Enríquez Taylor usa maquiagem e seu cabelo tem um penteado elegante. Mas, recentemente, a bordo de um ônibus em direção à fronteira, seu rosto estava lavado e seu cabelo longo estava preso em baixo de um boné. “Esta sou eu, esta é o que eu sou de fato”, disse, mostrando as fotos, tiradas do outro lado da fronteira, nos Estados Unidos.

Para Jess, que é mexicana, mas cresceu nos Estados Unidos, cruzar a fronteira entre os dois países exige também que ela se esconda enquanto mulher trans. Aos 39 anos, ela não pode pagar um apartamento na Califórnia, e sua família e vizinhos de Mexicali querem que ela viva essencialmente como um homem. 

Ir para a casa do irmão significa lavar a cara para tirar os cosméticos e mudar o cabelo. Sua família no México a obriga a usar pratos separados com medo de que ela tenha alguma doença sexualmente transmissível. Em lugar de voltar regularmente para o México, ela prefere não ter casa nos EUA. “É mais fácil não saber aonde vou parar do que vir para Mexicali”, disse. 

A intolerância pelas identidades de gênero e orientações sexuais não tradicionais mesclam-se na cultura de algumas partes do México, onde a Igreja Católica considera algo pecaminoso. Mexicali, uma cidade de 1 milhão de habitantes, tem muitos clubes LGBTI+. Mas mulheres transgênero ainda são tratadas com desprezo. Os ataques são comuns, e frequentemente seus autores não são condenados. 

Na região agrária de Imperial Valley, na Califórnia, mulheres trans, muitas das quais têm famílias numerosas do outro lado da fronteira, dizem que se sentem mais seguras por causa das leis  e das normas culturais americanas. Entretanto, mudar para os Estados Unidos não é simples, mesmo para quem, como ela, tem a residência permanente. A vida pode ser cara em comparação com a vida no México. E Imperial Valley é calma por se localizar em uma área rural. O Centro de Recursos LGBTI+ de Imperial Valley tornou-se um local de reunião para os membros da comunidade de ambos os lados da divisa.

O espaço  é como uma tábua de salvação para pessoas como Sonia Coronado, de 65 anos. Mexicana, em 1972 ela foi trabalhar em um abatedouro na cidade de Brawley, na Califórnia, enquanto morava em Mexicali. Depois de mais de dez anos, ela e sua esposa se mudaram para os Estados Unidos e, juntas, criaram seis filhos. Sonia revelou-se como uma pessoa trans para os filhos e os irmãos, há três anos, depois da morte da esposa, única pessoa que sabia até então. Quando a companheira morreu, Sonia se sentiu muito só. 

Uns dois anos atrás, Sofia Gonzalez, agente de uma seguradora de Imperial Valley, começou a atuar em shows como drag em Mexicali - onde vivia como Raul Gonzalez. Viver abertamente como mulher no México ainda significa insultos diários, compartilhou Sofia, de 25 anos. “Você é uma celebridade, todos querem uma foto ao seu lado. Mas, como mulher trans na vida diária, você é vista sob uma luz completamente diferente”, afirmou no palco. 

Evidentemente, a vida nos Estados Unidos tem seus próprios desafios. Recentemente, Sonia foi à farmácia  e perguntaram seu nome completo. “Jesus Enríquez Taylor”, ela respondeu. “Não entendi, pode repetir?”. “Jesus Enríquez Taylor”.

É melhor do que no México, prosseguiu, onde os donos das lojas muitas vezes se recusam  a atendê-la. A mãe de Sonia, que vive em um apartamento para idosos subsidiado pelo governo, em Calexico, não questiona sua nova identidade. Mas as normas do edifício proíbem que Sonia more com ela, por isso muitas vezes ela dorme no sofá de uma amiga. Com tanta incerteza a respeito de onde ela pode ser encontrada, está sempre preparada para ser Jess ou Jesus a qualquer momento. “Eu sempre preciso ser duas pessoa”.  / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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