Radu Sigheti/Reuters
Radu Sigheti/Reuters

Debate sobre Israel toma conta de festival de música alemão

Young Fathers não se apresentarão por causa do seu apoio ao boicote contra Israel

Melissa Eddy e Alex Marshall, The New York Times

11 Julho 2018 | 10h00

BERLIM - Os rappers escoceses Young Fathers, elogiados pela crítica por mesclarem hip-hop, música eletrônica e gospel, foram distinguidos com o prestigioso Mercury Prize britânico dado ao álbum do ano. Suas apresentações inspiradoras são solicitadas em toda a Europa.

Entretanto, no mês passado, um festival de arte da Alemanha decidiu retirar a banda do seu programa, provocando um estardalhaço que não tinha a ver com a música do grupo, mas por despertarem sensibilidades no país, anteriores à Segunda Guerra Mundial.

Os Young Fathers apoiam abertamente o movimento a favor do Boicote, Desinvestimento e  Sanções, também conhecido como BDS, que pede às companhias e aos cidadãos que evitem fazer negócios com Israel em protesto contra o tratamento deste país aos palestinos. Mas, na Alemanha, onde o pedido de um boicote contra o Estado Judeu carrega profundas associações históricas com os nazistas, o movimento é considerado antissemita.

A Alemanha enfrenta ataques cada vez mais numerosos contra os judeus, enquanto Israel sofre pressões pelas mortes de manifestantes ao longo de sua fronteira com Gaza, fazendo com que o conflito gerado em torno do BDS se estenda à cena cultural. Por isso, neste momento está havendo uma divisão nos festivais de arte e música que visam promover o diálogo cultural, e inclusive originou um conflito entre o prefeito de Munique e Roger Waters, do Pink Floyd, uma figura reverenciada aqui.

Omar Barghouti, um dos fundadores do movimento, afirmou em um e-mail que a decisão do festival de cancelar o convite  aos Young Fathers - depois de inicialmente pedir que eles se distanciassem do movimento BDS - não passa de pura e simples “censura”.

Assim como vários eventos culturais, o festival Ruhrtriennale, que este ano se realizará de 3 de agosto a 23 de setembro na região industrial do Ruhr, na Alemanha ocidental, é financiado pelo governo. Enquanto isso, os governos de todos os estados da Alemanha denunciaram o BDS.

O apoio oficial a Israel é uma posição inegociável na Alemanha do pós-guerra. Em 2016, o partido de centro-direita da chanceler Angela Merkel aprovou uma resolução que declara que “o BDS promove o antissemitismo como antissionismo, mas embora disfarçado de forma a ser aceito no século 21, o ódio contra os judeus continua sendo o ódio contra os judeus”.

O BDS contesta as acusações de antissemitismo, afirmando que o seu protesto é contra a política israelense, e não contra o povo judeu. E observa que há inclusive judeus entre os seus seguidores.

Mas na Alemanha, um pedido de boicote a Israel estabelece paralelos com o boicote nacional instituído contra as empresas judias em 1933.

O anúncio, feito no dia 13 de junho, declarou que o festival não considerava o grupo antissemita. “Entretanto, a Ruhrtriennale distancia-se de todas as formas do movimento BDS e pretende não ter qualquer relação com a campanha”, disse o documento. No entanto, algumas artistas, como um grupo libanês, desistiram de se apresentar em nome da liberdade de expressão.

Laurie Anderson, artista multimídia americana, também ameaçou retirar-se. “Seria um grande problema participar de um festival que pede a alguns artistas que se distanciem de suas convicções e compromissos”, ela afirmou em um e-mail.

Diante do risco de perder uma apresentação muito importante como a de Laurie Anderson - e possivelmente de outros - a diretora do festival, Stefanie Carp, recuou. E no dia 21 de junho, anunciou que pedira aos Young Fathers que voltassem e participassem do festival. O grupo recusou.

O prefeito de Munique, Dieter Reiter, agora está discutindo com Waters, do Pink Floyd, que apoia abertamente o BDS e é admirado aqui por seu concerto “The Wall (O Muro)” pouco depois da queda do Muro de Berlim.

Reiter divulgou um comunicado no site da prefeitura criticando-o, e o prefeito acusa Waters de apoiar “campanhas de boicote antissemitas contra Israel” e de “fantasiar a respeito de um ‘lobby israelense extraordinariamente poderoso’”.

Christian Schertz, um advogado de Waters, pediu que o comunicado fosse retirado. “O nosso cliente se envolveu frequentemente com a política do Estado de Israel e, há muitos anos, vem defendendo o respeito pelos direitos humanos em todo o mundo”, escreveu Schertz.

Em Berlim, vários artistas que apoiam o BDS afirmaram que não participarão do festival Pop-Kultur deste ano, em agosto.

Anton Teichmann, diretor de uma gravadora de Berlim, que se apresentaria no festival, observou que os artistas alemães acham difícil falar publicamente sobre a questão. Teichmann, 31, disse que mesmo que ele não gostasse do governo de Israel, não poderia boicotá-lo por causa da história da Alemanha.

“A música supostamente deveria unir as pessoas”, afirmou em um e-mail. “Infelizmente, agora a questão é escolher um lado”.

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