Alexey Solodov/Alamy, via The New York
Alexey Solodov/Alamy, via The New York

Degelo do Ártico atiça ambições da China

Pequim está aproveitando o aquecimento do Ártico para buscar rotas marítimas mais rápidas e expandir suas pesquisas de novas fontes de energia

Somini Sengupta e Steven Lee Myers, The New York Times

31 de maio de 2019 | 06h00

ROVANIEMI, FINLÂNDIA — O Ártico está derretendo, e a China está aproveitando a oportunidade para expandir sua influência no norte. Para o país, o recuo do gelo tem o potencial de oferecer dois grandes prêmios: novas fontes de energia e uma rota de transporte marítimo mais rápida passando pelo topo do mundo. Para tanto, a China está cultivando laços mais profundos com a Rússia.

Equipes chinesas têm perfurado em busca de gás sob as águas geladas do Mar de Kara, perto da costa do norte da Rússia. No verão dos últimos cinco anos, cargueiros chineses manobraram pelo gelo ao alcance das praias da Rússia — uma nova passagem que as autoridades de Pequim gostam de chamar de Rota da Seda Polar. E, em Xangai, estaleiros chineses lançaram recentemente o segundo quebra-gelo do país, o Dragão da Neve 2.

O embaixador da Finlândia para assuntos do Ártico, Aleksi Harkonen, explicou que as ambições da China no extremo norte não são diferentes de suas ambições em outras partes do mundo. "O país quer ampliar sua influência global", disse, "e isso inclui o Ártico". A parceria entre China e Rússia é benéfica para os objetivos de ambos os países na região, ao menos por enquanto. Está também inserida em um contexto mais amplo de crescente hostilidade entre China e Estados Unidos em relação a temas como o comércio, as ambições territoriais e as acusações de espionagem. Essa tensão está chegando ao Ártico.

Em abril, o departamento de defesa dos EUA, em seu relatório anual a respeito do poderio militar da China, incluiu pela primeira vez uma seção a respeito do Ártico e alertou para o risco de uma crescente presença chinesa na região, incluindo a possível mobilização futura de submarinos nucleares.

Recentemente, o secretário de Estado Mike Pompeo usou uma reunião de ministros das relações exteriores em Rovaniemi, a poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, para criticar a China por aquilo que ele descreveu como "comportamento agressivo" na região, apontando para as ações de Pequim em outras partes do mundo.

Segundo analistas, a China não tem presença militar no Ártico nem reivindica territórios no norte. Suas atividades são comerciais e científicas, ao menos por enquanto. Mas, do ponto de vista estratégico, Pequim tem muito a ganhar com o aquecimento do Ártico, e está concentrada nos ganhos no longo prazo.

A China tenta despejar dinheiro em quase todos os países do Ártico. Investiu bilhões na extração de energia sob a camada de permafrost na Península de Yamal, norte da Rússia. Está perfurando em águas russas em busca de petróleo, em parceria com a empresa russa Gazprom. Faz prospecção de minerais na Groenlândia. E sua gigante das telecomunicações anseia por firmar uma parceria com uma empresa finlandesa interessada em instalar um novo cabo submarino de internet conectando o norte da Europa à Ásia.

Navios chineses também percorrem a Rota do Mar do Norte e, embora a passagem seja de difícil navegação, a mudança climática está mantendo essa via aberta durante um trecho mais longo do ano.

O relacionamento entre China e Rússia é cada vez mais vital para ambos os países. A Rússia precisa do investimento chinês para extrair os recursos naturais sob o permafrost e lucrar com seu longo litoral ártico, especialmente depois que os EUA impuseram sanções à Rússia por causa da sua anexação da Crimeia em 2014. Assim, a antiga suspeita da Rússia em relação a uma concorrência no Ártico deu lugar a uma nova abertura diante da China.

O presidente Vladimir V. Putin se reuniu com o colega chinês, Xi Jinping, mais do que com qualquer outro líder estrangeiro. Putin cultiva pessoalmente investimentos de empresas chinesas nos setores de energia e infraestrutura de transportes em toda a vasta expansão ártica da Rússia.

Em abril, Putin apareceu ao lado de Xi em Pequim para propor uma ligação entre a Rota do Mar do Norte, descongelando nas águas russas, e a grande série de projetos de infraestrutura chineses conhecidos como Cinturão e Estrada. De acordo com Putin, o resultado pode ser a criação de uma "rota competitiva e global" ligando boa parte da Ásia à Europa.

Outros modos de cooperação estão em estudo. Recentemente, China e Rússia anunciaram planos para a criação de um centro conjunto de pesquisas que estudaria, entre outras coisas, as mudanças nas condições do gelo oceânico ao longo da Rota do Mar do Norte. E o Poly Group, uma corporação pertencente ao governo chinês, propôs em 2017 a construção de um novo porto de águas profundas em Arkhangelsk, na costa ártica da Rússia.

A China estabeleceu um acordo de livre comércio com a Islândia seis anos atrás, garantindo ao minúsculo país um mercado gigantesco para uma de suas principais exportações: peixes. Uma empresa chinesa propôs uma parceria com a Groenlândia para a reconstrução de aeroportos, levando a Dinamarca a interceder e patrocinar o projeto. Outra empresa chinesa propôs a construção de um porto para a Suécia, mas recuou com a deterioração das relações diplomáticas entre os dois países.

"Os países do Ártico não podem recusar investimentos. Quanto a isso não há dúvida", disse o diplomata finlandês Aleksi Harkonen. "Queremos saber com certeza o que a China está procurando". / Oleg Matsnev e Martin Selsoe Sorensen contribuíram com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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