Max Whitaker / The New York Times
Max Whitaker / The New York Times

Degelo em Parque Nacional de Washington deixa paisagem semidestruída

O derretimento afetará ecossistemas e seres que neles vivem, como os salmões que desovam nos riachos da água da descongelação

Henry Fountain, The New York Times

10 de maio de 2019 | 06h00

PARQUE NACIONAL DO MONTE RAINIER, WASHINGTON  - Quando foi construída, no início dos anos 1900, a estrada ocidental no Parque Nacional do Monte Rainier passava no sopé da Geleira Nisqually. Os visitantes podiam parar para tomar sorvete em uma banca construída entre as geleiras e apreciar maravilhados a visão do gelo. A banca de sorvetes há muito desapareceu, e também o gelo. O glaciar acaba a cerca de dois quilômetros, montanha acima. Como provavelmente ocorre agora no mundo inteiro, as geleiras também estão desaparecendo na América do Norte.

Este derretimento afetará os ecossistemas e os seres que neles vivem, como os salmões que desovam  nos riachos da água do degelo. Enquanto as geleiras encolherem e a água do degelo se reduzir, as mudanças da temperatura da água, o teor de nutrientes e outros fatores destruirão estas comunidades. “Grande parte destes ecossistemas evoluíu com as geleiras ao longo de milhares de anos ou mesmo mais”, afirmou Jon Riedel, geólogo do Serviço do Parque Nacional que criou programas de monitoramento das geleiras no Monte Rainier.

Entre os pesquisadores que tentam compreender esta destruição está J. Ryan Bellmore, biólogo do Serviço Florestal dos Estados Unidos em Juneau, no Alasca. Ele estuda redes de alimentos em água doce, a complexa relação do que come o que – que mostra, de fato, como a energia se desloca em um ecossistema.

O Alasca é um lugar ideal para estudar os efeitos da mudança climática nos glaciares, porque há milhares deles e em geral estão perdendo cerca de 75 bilhões de toneladas de gelo a cada ano. Um dia, no fim do ano passado, Bellmore e um colega instalaram armadilhas de peixes no Rio Herbert, a cerca de 15 quilômetros ao norte do centro de Juneau. O rio serpenteia por vários quilômetros da geleira do mesmo nome até desembocar na costa. Depois de pesar e medir cada peixe, eles fizeram uma lavagem gástrica.

Introduzindo cuidadosamente a ponta de uma seringa plástica na garganta de um peixe e injetando água, Bellmore pôde esvaziar o estômago do seu conteúdo. O alimento foi colocado em saquinhos para  ser posteriormente analisado e catalogado. Os peixes foram devolvidos ao rio.

Bellmore pretende comparar o que os peixes comem no Herbert, que consiste quase totalmente de água do gelo derretido, ao que eles comem nos rios vizinhos, onde o fluxo vem de outras fontes. As temperaturas da água diferem dependendo da fonte, assim como as concentrações e tipos de nutrientes e a transparência ou turvação da água. Tudo isto influi em cada tipo de alimento disponível e na saúde do ecossistema.

Fluxo do degelo

O estudo das redes de alimentos em diferentes tipos de riachos levará a uma melhor compreensão  do que acontecerá quando os glaciares se retirarem e os fluxos de água do gelo derretido forem substituídos por outras fontes de água. Os riachos que são alimentados na maior parte pela água do gelo derretido muitas vezes contêm espécies únicas adaptadas a condições frias. “Quando os glaciares desaparecerem, estas espécies se extinguirão”, destacou Alexander M. Milner, professor da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, que estudou durante anos as mudanças produzidas pelo recuo das geleiras.

Milner estava falando de pequenas criaturas como insetos e microrganismos como bactérias. Os efeitos nas espécies maiores como os peixes poderão ser mais complexos. “Nesta parte do mundo, os salmões são imensamente importantes para as economias e as culturas”, afirmou Jonathan W. Moore, ecologista da Simon Fraser University em Burnsby, Colúmbia Britânica. Ele formou um grupo para estudar as relações entre o salmão e o gelo que se dissolve. O salmão nasce em riachos de água doce, depois dirige-se para o mar para crescer antes de retornar à água doce, desovar e morrer. As temperaturas da água devem estar perfeitas para que ele possa desenvolver-se; por isso, com o aumento das temperaturas dos riachos, as populações poderão ser afetadas.

À medida que as geleiras recuam, deixam rochas nuas, seixos e sedimentos, e os riachos que correm ao seu redor. Os leitos de seixos podem ser lugares ideais para os salmões depositarem os seus ovos. Em alguns pontos talvez exista um ganho no habitat dos salmões, segundo Kara Pitman, que faz doutorado na Simon Fraser. “Estamos tentando compreender as novas oportunidades para o salmão”, continuou Moore, “mas entendemos plenamente que a mudança climática em geral não é boa para o salmão na maior parte dos lugares”.

O degelo que provoca mudanças no habitat dos salmões poderá ocorrer ao longo de anos e décadas. Mas o encolhimento dos glaciares também pode provocar inundações ou a precipitação de rochas que podem alterar o leito dos riachos em um instante. Muitos rios e riachos do Parque Nacional do Monte Rainier foram afetados pelas inundações ao longo dos anos.

A história natural do Noroeste do Pacífico e do Alasca, e de outras partes do mundo com glaciares, pode ser considerada a história da destruição causada pelo gelo, lenta ou rapidamente. Aconteceu durante a última era glacial, quando o movimento de enormes placas de gelo que cobriam a maior parte do planeta remodelou a terra. E está acontecendo hoje, enquanto os glaciares, os remanescentes daquelas placas de gelo, estão recuando. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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