Saiyna Bashir para The New York Times
Saiyna Bashir para The New York Times

Demolições de mercados históricos transformam ruas do Paquistão

Transformações urbanas em Karachi dividem opinião dos paquistaneses

Meher Ahmad, The New York Times

13 Fevereiro 2019 | 06h00

KARACHI, PAQUISTÃO - Por três gerações, a família de Muhammad Rizwan viu sua pequena venda no mercado como um segundo lar, com os filhos ajudando no estoque enquanto os pais cuidavam dos fregueses. Rizwan, 35 anos, começou a vender calçados e roupas ali na adolescência, e esperava que os próprios filhos assumissem os negócios um dia. Hoje, a loja é uma pilha de escombros, resultado de uma operação de demolição promovida pelo governo no famoso Mercado Imperatriz, em Karachi, e agora ampliada para o restante da cidade.

“Meu avô foi o primeiro a trabalhar nesse mercado - na época, vendia cordas - e agora parece que serei o último", disse Rizwan. As lojas se tornaram alvo da campanha de “combate aos camelôs” do governo de Karachi, que busca coibir o comércio que toma as ruas e parques.

Os camelôs se tornaram parte da vida em Karachi nas décadas que transformaram o antigo vilarejo portuário em uma das maiores cidades do mundo, com uma população de pelo menos 15 milhões de habitantes. Também contribuíram para a reputação de Karachi como uma das piores cidades do mundo para se viver. O prefeito de Karachi, Waseem Akhtar, pretende mudar isso com a demolição do que ele descreve como estabelecimentos irregulares que funcionam em propriedade pública. Ao lado dele, há uma decisão da suprema corte do Paquistão.

“Precisamos de espaços abertos. Precisamos de jardins, árvores, áreas públicas, bancos", disse ele. Os planos para catapultar Karachi - conhecida pela instabilidade crônica, violência étnica e infraestrutura em ruínas - para a era moderna teve início com demolições em massa no coração pulsante da atividade comercial da cidade: o Mercado Imperatriz. Construído na década de 1880 durante o governo colonial britânico, o mercado é um pátio quadrado cercado por quatro pavilhões cobertos e uma torre do relógio.

“Dentro, era possível encontrar serviços e mercadorias que desapareceram em outros lugares", disse o arquiteto Arif Hasan, que narra há anos a urbanização de Karachi. “O mercado de aves, o mercado dos encadernadores, o mercado de frutas secas, todas as bancas que existem há mais de 50 anos.”

Em novembro, escavadeiras municipais demoliram as bancas da noite para o dia. Depois de serem notificados dos planos com cerca de uma semana de antecedência, os camelôs, em protesto, se recusaram a deixar a área, organizando manifestações até o momento da demolição de suas lojas. “Foi como um pesadelo", disse Abdul Rashid Kakar, proprietário de uma banca de chás. “Vi o lugar onde trabalhei a maior parte da vida desaparecer diante de mim.”

Kakar, Rizwan e centenas de outros donos de bancas que perderam seus espaços, usados por alguns como seus próprios lares, vêm protestando desde então. “Temos bocas para alimentar", disse Rizwan. “Tenho vergonha de voltar para casa porque não tenho nada a oferecer à minha família.” Alguns voltaram a vender seus artigos em meio ao entulho onde antes ficavam suas lojas.

Os moradores ficaram chocados quando acordaram e viram imagens de um Mercado Imperatriz totalmente eviscerado nas redes sociais. No transporte público, os passageiros ficaram boquiabertos ao passar pelo edifício, cujas paredes não eram vistas da rua há mais de 50 anos.

Alguns ficaram satisfeitos. “Quem poderia imaginar que havia um edifício tão bonito por trás de tudo aquilo", disse Muhammad Asif, lavador de pratos que trouxe a mulher para mostrá-la o estado do mercado. Mas, nas redes sociais e no noticiário local, a demolição provocou indignação. “Fui passear pelo ‘novo centro’”, escreveu no Twitter o editor sênior Talat Aslam, de um jornal local, caçoando do “Novo Paquistão” tão anunciado pelo primeiro-ministro Imran Khan. “O Mercado Imperatriz parecia abandonado, sem alma nem vida.”

Então as escavadeiras foram mandadas para o outro lado de Karachi. O pesquisador em planejamento urbano Muhammad Toheed, da universidade local Instituto de Administração de Negócios, estimou que 11 mil lojas em 20 mercados tenham sido afetadas, virando de ponta cabeça as vidas de dezenas de milhares de famílias. “Perdemos nossa história", disse Hasan, que, ao longo dos anos, apresentou planos para revitalizar o centro de Karachi preservando sua cultura de rua.

Akhtar disse que as demolições eram sinal de que Karachi estaria voltando à antiga glória. “Especiarias e lentilhas, papagaios e pombos - isso não é patrimônio histórico", disse ele. “Precisamos de algo para mostrar à geração seguinte. Acredito que estamos avançando no rumo do progresso.”

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