Ben Roberts/The New York Times
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Nicholas Casey, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 05h00

MADRID - Para o dramaturgo cubano Yunior García, a rápida jornada do ativismo em Havana para o exílio em Madrid poderia ter saído de uma de suas peças.

Tudo começou com pombos decapitados na porta de sua casa. Ele suspeita que tenham sido colocados ali por agentes do governo cubano para assustá-lo. Então, uma multidão favorável ao regime cercou sua casa com o objetivo de constrangê-lo. Em segredo, ele conseguiu um visto espanhol e seus contatos o levaram primeiro para um local seguro e, em seguida, para o aeroporto de Havana.

E foi assim que, de uma hora para a outra, García, uma das estrelas em ascensão nas manifestações da oposição que abalaram Cuba este ano, desapareceu do mapa.

"Não sou feito de bronze, nem de mármore, e não monto um cavalo branco. Sou uma pessoa que tem medos e preocupações", disse García, de 39 anos, aos repórteres em uma conferência de imprensa em Madrid, um dia após sua chegada, afirmando que tinha medo de ser preso e não queria ser um mártir.

Foi uma perda desalentadora - alguns disseram até que foi uma traição - para os manifestantes pró-democracia em Cuba, que canalizaram décadas de revolta pelos problemas econômicos e o desespero causado pela pandemia em um momento sem precedentes na ilha: um movimento que tomou as ruas, organizado através de smartphones e redes sociais, atraindo milhares de cubanos que exigem mudanças.

Porém, tudo isso acabou quando agentes de segurança do Estado dispersaram uma onda nacional de protestos. Dias depois, García, um dos líderes mais conhecidos do movimento, estava na Espanha.

Para muitas pessoas, a situação de García anuncia o retorno do sistema cubano de repressão de dissidentes, que atingiu o ápice entre os anos 1980 e 2000. Os críticos eram intimidados até fugir do país, ou, em alguns casos, eram obrigados a ir embora.

"Existe um fenômeno recorrente, cíclico: descreditar essas vozes, silenciá-las, intimidá-las", afirmou Katrin Hansing, antropóloga especializada em Cuba no Baruch College, em Nova York.

Porém, essa nova geração de exilados é diferente. Trata-se de jovens autores, artistas e músicos que, por um tempo, foram encorajados pela abertura de Cuba, chegando até mesmo a promover seus talentos pelo mundo.

Há menos de uma década, os líderes cubanos falavam sobre a necessidade de mudar, apesar das críticas limitadas ao sistema. O país deixou de exigir visto para visitantes e passou a consentir que os cubanos viajassem sem permissão oficial, além de permitir que a geração mais jovem buscasse formação fora do país. Cuba firmou um acordo para reestabelecer os laços com os EUA, visando uma intensificação do fluxo de informação.

Hamlet Lavastida, artista cubano de 38 anos, estava entre os que aproveitaram o relaxamento das restrições. Depois de viver na Polônia por muitos anos, ele foi para a Alemanha em 2020 para realizar uma residência artística. Seu trabalho muitas vezes ataca o Estado cubano: em maio deste ano, ele exibiu uma obra feita de papel cortado que incluía a confissão de outro artista cubano interrogado por autoridades da ilha.

Depois que Lavastida voltou para Havana em junho, as autoridades o prenderam e o levaram para ser interrogado em um centro de detenção, onde passou três meses sem qualquer acusação formal. Ele conta que contraiu Covid-19 no local e que era questionado repetidamente sobre sua arte pelos agentes, que o chamavam de terrorista.

"Eles me perguntavam se eu conhecia Tony Blinken", contou Lavastida, referindo-se a Antony Blinken, o secretário de Estado dos EUA. O governo de Cuba acusou os dissidentes de agir em favor dos Estados Unidos, que estaria fomentando um clima de descontentamento com o objetivo de derrubar o governo.

Em setembro, o governo colocou Lavastida à força em um avião para a Polônia, onde ele tem um filho. Agora, de volta a Berlim, soube que foi acusado de incitamento em Cuba.

Mónica Baró, jornalista independente de 33 anos que trocou Cuba por Madrid este ano, disse que os padrões atuais lembram o da Primavera Negra de 2003, quando o governo prendeu 75 dissidentes e jornalistas.

Contudo, desta vez o Estado está usando táticas que chamam menos a atenção da mídia, de acordo com Baró. Por exemplo, em vez de sentenciar os críticos do governo à prisão, as autoridades os mantêm detidos por longos períodos, com o objetivo de "desestabilizar você e sua família emocionalmente", afirmou ela.

García ficou conhecido no pequeno, mas crescente mundo do teatro cubano, por ser pioneiro em um estilo que conta com roteiros curtos que são usados como base para improvisações. Muitas de suas obras se concentram em seu histórico como artista dissidente.

Uma peça, conhecida como Jacuzzi, conta as histórias de três cubanos - um dissidente, um comunista e uma jovem apática -, enquanto conversam sobre a vida e a política em uma banheira. Apresentações da peça, que estreou em 2017, foram permitidas em Cuba. Contudo, o dramaturgo contou que, durante o maior festival de teatro de Havana, a peça só foi apresentada em um teatro de difícil acesso.

A esperança de que a relação entre Cuba e EUA melhorariam diminuiu durante o governo Trump, que desfez a maioria dos laços que haviam sido refeitos entre os dois países, causando um enorme dano à economia cubana.

No início deste ano, a pandemia também levou ao limite o elogiado sistema de saúde do país.

Em julho, a fome e os apagões geraram uma nova onda de manifestações, com milhares de pessoas nas ruas demonstrando uma oposição nunca antes vista nas seis décadas que se passaram desde a revolução cubana. O governo reagiu prendendo centenas de manifestantes.

García pretendia voltar a mobilizar as manifestações este semestre. Ele e outros ativistas criaram o "Archipiélago", grupo no Facebook que chegou a mais de 38 mil membros. Eles se organizaram para realizar mais uma onda de protestos no dia 15 de novembro, o dia em que Cuba permitiria a volta dos turistas estrangeiros. García se tornou um alvo.

Na Espanha, García foi bem recebido.

Recentemente, entrou em uma pizzaria onde foi abraçado pelo proprietário, Eduardo López, que deixou Cuba décadas antes, aos 22 anos de idade. "Eu estava torcendo para você vir aqui. Até rezei para isso", comentou.

García se sentou e olhou para o cardápio. Ele disse que queria voltar para Cuba. Não se sabe quando isso será possível, se é que será possível um dia.

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