Rozette Rago / The New York Times
Rozette Rago / The New York Times

Ideia que liga uso de redes sociais e depressão pode estar equivocada, indicam estudos

'Não há evidências suficientes para explicar o nível de pânico e consternação em razão destas questões', diz pesquisadora

Nathaniel Popper, The New York Times

28 de janeiro de 2020 | 06h00

SAN FRANCISCO – Passou a ser senso comum que o tempo acelerado na era do iPhone e das redes sociais seria a causa de um recente aumento da ansiedade, depressão e outros distúrbios da saúde mental, principalmente entre adolescentes. Entretanto, um número cada vez maior de estudos acadêmicos sugere que esta noção é equivocada.

A pesquisa mais recente, publicada por duas professoras de psicologia, examina a fundo cerca de 40 estudos que buscavam uma eventual ligação entre o uso de redes sociais e a depressão e a ansiedade entre adolescentes. Esta relação, segundo as professoras, é insignificante e inconsistente.

“Ao que tudo indica, não há evidências suficientes para explicar o nível de pânico e consternação em razão destas questões”, afirmou Candice L. Odgers, professora da Universidade da Califórnia, Irvine, a principal autora do trabalho, publicado na revista Child Psychology and Psychiatry.

As pesquisadoras contestam a ideia já muito difundida segundo a qual a persistente exposição a estes aparelhos seria a causa de problemas sociais como o aumento das taxas de ansiedade e privação do sono entre os adolescentes. Na maioria dos casos, elas afirmam, o celular é um espelho que revela os problemas apresentados por uma criança mesmo que não tenha celular.

O novo artigo de Candice Odgers e Michaeline R. Jensen da Universidade da Carolina do Norte, em Greensboro, apareceu após a publicação de uma análise de Amy Orben, pesquisadora da Universidade de Cambridge, e pouco antes da programação da publicação de estudo semelhante de Jeff Hancock, fundador da Stanford Social Media Lab. Ambos chegaram a conclusões semelhantes.

'Depressão do Facebook'

O debate sobre o tempo passado com o celular e a saúde mental remonta aos primeiros dias do iPhone. Em 2011, a Academia Americana de Pediatria publicou um artigo muito citado que alertava os médicos a respeito da  "Depressão do Facebook".

Mas em 2016, com a divulgação de novas pesquisas, a academia decidiu rever esta afirmação. Apagou toda e qualquer menção à terminologia, e passou a enfatizar as evidências conflitantes e os possíveis efeitos benéficos do uso da rede social.

Megan Moreno, uma das principais autoras do trabalho revisto, disse que a afirmação original criou um problema “porque provocou pânico sem apresentar provas consistentes”.

A preocupação com a relação entre o smartphone e a saúde mental foi alimentada também por importantes estudos como o artigo publicado em 2017 na revista The Atlantic – e um livro relacionado – da psicóloga Jean Twenge em que ela afirmava que o recente aumento dos suicídios e da depressão entre adolescentes estava ligado à chegada do smartphone.

Segundo os críticos de Jean Twenge, o seu trabalho encontrou uma correlação entre o aparecimento dos smartphones e um crescimento real de relatos de problemas de saúde mental, mas sem chegar a estabelecer que os celulares eram a sua causa.

Segundo os pesquisadores, também pode ser que o aumento da depressão tenha levado os adolescentes a um uso excessivo do celular em uma época em que existem muitas outras explicações possíveis para a depressão e a ansiedade. Por outro lado, as taxas de ansiedade e de suicídios aparentemente não aumentaram em grandes partes da Europa.

“Porque as crianças americanas não poderiam ser ansiosas por outras causas além do celular?”, indagou Hancock. “E a mudança climática? E a desigualdade de renda? E o aumento da dívida dos estudantes? Há tantas outras gigantescas questões estruturais que produzem um profundo efeito negativo nas pessoas, mas são invisíveis e às quais não prestamos atenção.”

Candice L. Odgers disse que não se surpreende com o fato de as pessoas terem dificuldade  para aceitar as suas conclusões. Sua própria mãe contestou a pesquisa da filha quando um dos seus netos parou de falar com ela durante longas viagens de carro, que ela adorava. Contudo, o fato de as crianças se afastarem dos mais velhos na adolescência não é uma novidade, ela afirmou.

Ela também lembrou à mãe de que as suas conversas ocorriam em um chat por vídeo – o tipo de relacionamento entre gerações impossível antes dos smartphones. “É difícil porque não é o ambiente em que fomos criados”, observou. “Pode ser um tanto assustador em certos momentos. Eu também tenho destes momentos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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