JimWilson/The New York Times
JimWilson/The New York Times

Desabrigados encontram trabalho entregando avisos de despejo

À medida que os aluguéis disparam, mais moradores de rua estão tentando encontrar trabalho, mesmo que isso signifique se tornar parte do processo que força as pessoas a sair de suas casas

Thomas Fuller, The New York Times

21 de fevereiro de 2020 | 06h00

SÃO FRANCISCO - Depois de dever dois meses de aluguel do apartamento, a família ouviu a batida na porta que mais temia. O despejo trouxe a perspectiva de ter de viver sem um teto depois de temer durante meses que a ameaça se concretizasse. Mas a família não sabia que o homem que estava entregando os documentos do despejo, John Hebbring, tampouco tinha onde morar.

“Acreditem, nós percebemos muito bem a ironia”, disse Hebbring, cuja função é entregar os avisos de despejo com a sua namorada, Kim Hansen. Eles moram em um acampamento de desabrigado cheio de lixo, em um trailer de 50 anos infestado de ratos. A situação do casal dá uma ideia da dimensão a que chegou a crise dos sem tetos na Califórnia. Os despejados fazendo o despejo.

Em geral, eles andam de transporte público com uma pilha de documentos. Em alguns casos, podem colar os avisos na porta das casas. Em outros, devem deixá-los diretamente nas mãos dos despejados. “Eu entendo a situação deles porque conheço a minha”, disse Kim. O casal ganhou cerca de US$ 1,6 mil desde que começou a fazer este tipo de trabalho em setembro, apenas o suficiente para comer. Kim achou o emprego online.

O número de sem teto na Califórnia alcançou um patamar recorde; o governador decidiu requisitar hospitais fechados e espaços para feiras para abrigar mais de 150 mil pessoas nestas condições, dois terços das quais estão morando nas ruas. Não há dados confiáveis relativos ao número de despejos na Califórnia, porque a maioria dos documentos é selada, segundo Carolyn Gold, diretora de litígios e política da ONG Eviction Defense Collaborative. Ela calcula que ocorram cerca de três mil despejos por ano somente em São Francisco.

Roy Cordeiro, proprietário de uma empresa de distribuição de processos da Bay Area, disse que o número de avisos de despejo que ele distribui aumentou de dois por semana para dois por dia. “Dizem que a economia vai bem, mas as pessoas não conseguem pagar o aluguel”, disse Cordeiro.

Em uma noite gélida, recentemente, Hebbring e Kim Hansen viajaram para Hunters Point, um bairro de pessoas de baixa renda na periferia ao sul da cidade. Hebbring bateu na porta do apartamento indicado nos documentos. Ele levava uma pequena câmera digital no caso de ninguém atender porque precisava provar que havia preso os papéis na porta com fita adesiva. Uma mulher atendeu. Hebbring leu o nome contido nos documentos. “Sou a mãe dela”, disse a mulher.

O apartamento, que estava sujeito ao controle dos aluguéis, custava US$ 135 por mês, uma soma minúscula pelos padrões de São Francisco, onde a média é superior a US$ 4 mil. A inquilina estava sendo obrigada a pagar dois meses de aluguel, US$ 270, ou a sair do imóvel no prazo de três dias.

“Ela está passando por uma série de problemas”, explicou a mãe. “Estamos tentando impedir que ela se torne uma sem teto”. Kim disse que fica pensando quantas pessoas às quais eles entregam os papéis  acabam sem ter onde morar. Talvez ela as veja nas ruas, algum dia. “Tenho vontade de dizer a esta gente: ‘Se forem despejados, tenho um lugar ao meu lado’ ”, disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
despejomorador de rua

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.