Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Desaceleração da China gera cortes de vagas e redução de salários

País não revela dados confiáveis sobre desemprego, mas sinais apontam problemas

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

26 de março de 2019 | 06h00

A feira de empregos na cidade chinesa de Shenzhen ofereceu um futuro para trabalhadores de colarinho branco em um país que atingiu a grandeza econômica graças à força de suas linhas de montagem, escavadeiras e guindastes. Empresas de tecnologia, financeiras e imobiliárias contribuíram com seus empregos em vendas, engenharia, contabilidade e logística. Um salário de US$ 150 mil ao ano, anunciava um cartaz, “não é apenas um sonho”.

Mas para muitos à procura de uma ocupação, ainda parecia. Em uma extremidade de um salão de eventos, os candidatos sentavam desanimados em baixo de uma faixa que dizia: “Espero que você encontre um bom emprego logo”. “Ter de caçar um empregos”, disse Hou Hao, uma contadora de 28 anos que não conseguia encontrar um cargo que equivalesse ao seu anterior com um salário de US$ 2.700 mensais, “é como levar um tapa na cara”.

A desaceleração da China, que deixa ociosas fábricas e canteiros de obras, está se estendendo aos escritórios. Funcionários com diplomas universitários, os chamados colarinhos brancos, estão sendo afetados pelos cortes dos empregos e por salários cada vez menores. Até as grandes empresas de tecnologia, como a JD.com, uma varejista online, e a Dido Chuxing, o equivalente do Uber na China, e uma das startups mais valiosas do mundo, não foram poupadas. 

A desolação dos funcionários de colarinho branco sugere que a desaceleração da economia da China - a segunda maior do mundo - é maior do que os números oficiais indicam. A China depende cada vez mais dos consumidores de classe média, que ajudam a ampliar a economia além de sua base industrial. Mas estes consumidores não estão gastando como costumavam fazer, e esta letargia ricocheteia em todas as partes da economia.

Os instrumentos de que a política da China dispõe para impulsionar rapidamente o crescimento - desencadeando ondas de empréstimos pelos bancos controlados pelo Estado ou construindo novas rodovias e aeroportos - não será muito útil para os trabalhadores que processam pedidos de seguros ou introduzem dados em computadores. Alimentar estas empresas e trabalhadores exigirá reformas a prazo mais longo, como fazer com que os bancos estatais emprestem mais a empresas privadas ou reduzir as normas burocráticas para os empreendedores.

No passado, “construindo uma ponte, seria possível fazer a economia crescer”, disse Fraser Howie, coautor de três livros sobre o sistema financeiro chinês. Agora, ele disse, “não há uma recuperação óbvia, e portanto torna-se cada vez mais fundamental que a China tome decisões importantes e difíceis a fim de seguir em frente”. A China não revela dados confiáveis sobre emprego ou demissões, portanto todo o impacto da desaceleração não está claro. Mas inúmeros sinais apontam para vários problemas.

Uma medida, baseada em uma pesquisa entre empresas de serviços, sugere que o emprego encolheu em uma variedade de setores. Executivos da área de recursos humanos e diretores de empresas de tecnologia, de incorporadoras e de outras grandes empresas privadas falaram em demissões nos últimos meses de até 30% dos funcionários em algumas firmas, ou seja de centenas de trabalhadores, segundo uma recente pesquisa da empresa especializada do ramo, a Global Source Partners.

Para trabalhadores como Sherry Xu, o mercado de empregos agora mais fraco faz duvidar da premissa básica de que uma educação superior leva a um futuro mais seguro do que um emprego em fábrica. Xu, uma profissional da área de finanças de 38 anos, estudou em uma importante universidade, e depois foi galgando degraus no setor.

Recentemente, foi avisada de que seria demitida, então aceitou um contrato de freelancer com a mesma empresa pela metade do salário anterior. “O mercado de trabalho não parece ruim”, ela disse. “Acho que desta vez para mim será mais difícil do que nunca encontrar um emprego”.

As demissões, como outros eventos econômicos, tornaram-se politicamente sensíveis, e as companhias relutam em confirmar a redução da mão de obra. Mas a JD.com, uma companhia de comércio eletrônico, anunciou à equipe em fevereiro que pretende demitir 10% dos seus altos executivos. O vibrante cenário tecnológico da China também enfrenta uma crise de dinheiro. Muitas startups têm dificuldade em levantar recursos.

Qi Feng começou a trabalhar em vendas na Renrenche, a plataforma online de automóveis, há cerca de quatro anos. Este mês, Qi e outros foram informados de que teriam de sair da empresa, contou. Eles receberam a oferta de novos contratos que exigiam que eles pagassem US$ 6 mil para a companhia em troca dos dados dos clientes. Então poderiam usar os dados para vender carros na plataforma e embolsar os lucros. Ele se recusou a sair e a empresa avisou que seria demitido.

“Foi um golpe muito grande para mim”, disse Qi. Ele explicou que precisava pagar hipotecas de US$ 400 e US$ 300 ao mês de empréstimos pela compra do carro. Qiao Lifeng, um contador com formação universitária que deixou a empresa rapidamente para abrir um restaurante, mudou-se da província de Heilongjiang, no extremo nordeste da China para Shenzhen, no sudeste, há 20 anos, quando a cidade estava na linha de frente das reformas econômicas da China. 

Lentamente, ele foi trabalhando em várias companhias como contador, até dois anos atrás, quando decidiu abrir sua própria empresa. Agora que o seu restaurante fechou, ele está de volta, mas em um mundo mudado. “É muito difícil encontrar um emprego que sirva para mim”.

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