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Desafiando o duradouro governo de um revolucionário

Depois de protestos súbitos e fatais, a ‘Nicarágua mudou’

Frances Robles, The New York Times

05 Maio 2018 | 10h15

MASAYA, Nicarágua - O revolucionário, dizem muitos nicaraguenses, de repente está enfrentando sua própria revolução.

A insurreição que levou à ascensão do presidente Daniel Ortega e suas lutas contra os Estados Unidos na Guerra Fria começaram aqui, em Masaya, há 40 anos. O irmão de Ortega morreu combatendo nesta cidade, e um antigo posto da guarda nacional continua sendo um marco para a revolta que alçou ao poder seu movimento de guerrilha esquerdista.

Mas o posto de guarda virou palco de confusão e vandalismo. Os manifestantes se apropriaram de um famoso slogan de guerra e o pintaram nas paredes, como uma espécie de aviso zombeteiro para Ortega.

“Sua mãe que se renda”, diz a pichação.

A Nicarágua está passando por sua maior revolta desde o fim da guerra civil, em 1990.

Diante de um casal presidencial que controla praticamente todos os ramos do governo e da mídia - a esposa de Ortega, Rosario Murillo, é a vice-presidente -, jovens de todo o país estão fazendo sua própria versão da Primavera Árabe. Armados com celulares e habilidades em mídias sociais, seus protestos contra o governo surpreenderam os nicaraguenses que viveram a revolução de Ortega nos anos 70, a guerra civil nos anos 80 e os 30 anos desde então.

Ortega perdeu o controle sobre as massas e, de repente, parece estar contra a parede.

“Sempre votei no Daniel Ortega”, disse Reynaldo Gaitán, 32 anos, padeiro no bairro histórico de Monimbó. “Mas Daniel acabou. Seu mandato termina aqui”.

“A Nicarágua mudou”, disse José Adán Aguerri, presidente da Cosep, organização empresarial bastante influente no país. “A Nicarágua de uma semana atrás não existe mais”.

Os protestos começaram com uma questão relativamente pequena - mudanças no sistema de seguridade social - mas logo se transformaram em um caldeirão nacional quando os estudantes começaram a morrer. 

Organizações de direitos humanos dizem que dezenas foram mortos, inclusive nas mãos da polícia. Um jornalista e dois policiais também estão entre os mortos.

Os protestos avassaladores também começaram a ter repercussão internacional. Apenas algumas semanas depois de a revista Travel and Leisure chamar as Ilhas do Milho de “paraíso caribenho subestimado”, o Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou as famílias de seus funcionários da embaixada do país e os navios de cruzeiro passaram a mudar de rota.

“Estão destruindo a imagem da Nicarágua, depois de tudo o que fizemos para construir essa imagem”, disse Ortega em um discurso na televisão. “A imagem da Nicarágua era uma imagem de guerra. Guerra. Morte. Quanto turismo, investimento e empregos isso vai nos custar?”

Os estudantes que ocuparam a Universidade Politécnica na capital, Manágua, se recusam a negociar enquanto o presidente ainda estiver no cargo.

“Não queremos Daniel”, disse Lester Hamilton, 35, que foi atingido por balas de borracha durante os protestos. Por “Daniel” ele estava se referindo a Ortega, o ex-guerrilheiro que foi a principal figura da revolução contra a ditadura de Anastácio Somoza.

Depois que os guerrilheiros sandinistas declararam vitória em 1979, Ortega governou a Nicarágua durante os anos 80, depois concordou com eleições em 1990 e perdeu. Mas, mesmo depois de desistir da presidência, ele nunca desistiu do poder, com os sandinistas ainda controlando grupos de estudantes e sindicatos e exercendo influência sobre a polícia, o Exército e o Judiciário.

Ortega voltou ao cargo em 2007, fez importantes alianças com seus antigos inimigos e reforçou seu poder. Mas até mesmo os últimos simpatizantes de Ortega reconhecem que ele errou feio ao dar tanto poder a Murillo. Poucas decisões parecem ser tomadas sem sua aprovação. O casal fez mudanças institucionais que lhes permitiram controlar a Suprema Corte e a Assembleia Nacional e foi acusado de flagrante fraude eleitoral nas eleições que também lhe deu poder sobre as prefeituras.

As mudanças que Ortega promoveu no falido sistema de previdência social exigiram que os trabalhadores pagassem mais e os aposentados recebessem menos. Estudantes universitários se rebelaram contra as mudanças. E, então, foram barrados por grupos pró-governo, que os atacaram.

Logo depois, Ortega e Murillo disseram que os manifestantes não passavam de gangues de direita.

“Isso nos deixou ainda mais indignados”, disse Enma Gutiérrez, organizadora de um grupo de jovens.

Os moradores de Masaya também aderiram aos protestos.

“Dizem que esta cidade foi o berço de Daniel Ortega, onde ele deu seus primeiros passos”, disse Mayra Pabón, antiga apoiadora do presidente, durante um protesto em Monimbó. “Bom, ele também morreu aqui, no momento em que ordenou a matança de tantos jovens com um futuro tão brilhante pela frente”.

“Ele nunca mais vai pôr os pés em Masaya”.

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Nicarágua [América Central]

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