Jeenah Moon/The New York Times
Jeenah Moon/The New York Times

Desastre com vítimas fatais expõe riscos das viagens turísticas

Voos de portas abertas, em que os turistas se inclinam para fora para tirar uma foto, estão se tornando mais populares

Benjamin Mueller, The New York Times

22 Março 2018 | 10h00

Cinco passageiros que morreram quando um helicóptero sem portas mergulhou no East River, no dia 11 de março, estavam amarrados com cintos pesados e presos ao piso do helicóptero, com apenas uma faca para se soltarem nas águas geladas.

Depois de terem recebido pouco mais que um breve vídeo sobre segurança, foram deixados à mercê de uma corrente forte quando o helicóptero os arrastou por 50 quarteirões mais para o sul, de cabeça para baixo e debaixo d’água, antes que mergulhadores de resgate conseguissem soltá-los.

Cinco dias depois do acidente, agências reguladoras federais ordenaram a suspensão em todo o país de voos turísticos em que os passageiros são presos com cintos que não podem ser soltos rapidamente em uma emergência. A ordem permanecerá em vigor até que as operadoras e os pilotos passem a controlar e a minimizar este risco, declarou em um comunicado a Agência Federal da Aviação.

Este foi o acidente de helicóptero que provocou mais mortes na cidade de Nova York desde 2009, e mostrou, segundo especialistas da aviação, espantosas falhas de segurança em voos turísticos com aeronaves sem portas para tirar fotografias, atualmente em grande expansão. Antes reservados apenas a fotógrafos profissionais, hoje estão sendo cada vez mais comercializados para turistas que apreciam a paisagem, com os pés pendurados para fora da aeronave, e compartilham fotos arrepiantes no Instagram.

Nas principais cidades, como Miami, Los Angeles e San Francisco, os passageiros, que não recebem nenhum treinamento prévio, desconhecem as manobras de salvamento adequadas e não usam trajes próprios  para enfrentar ventos fortes, usam em geral os helicópteros sem portas.

Antes de dar voltas ao redor da Estátua da Liberdade e dirigir-se a Manhattan naquela noite, os passageiros assistiram a um vídeo de cerca de 10 minutos de duração que mostrava os seus cintos equipados com uma faca a ser utilizada se ficassem presos. Mas não foram informados de que deveriam olhar através dos arreios de náilon, caso o helicóptero precisasse mergulhar nas águas ao redor de Manhattan.

Um passageiro que assistiu à apresentação antes de embarcar em outro voo disse que, em momento algum, a tripulação apontou para as facas assim que os seus cintos foram atados, e ele ficou sem saber onde a dele se encontrava.

Embaixo da água, os cintos se tornaram armadilhas mortais.

“Esta é uma coisa que não está regulamentada e não deveria ser permitida”, disse Gary Robb, um advogado da aviação que representou um cinegrafista morto quando um helicóptero sem portas atingiu uma linha de força em Iowa, em 2006. “É como permitir que uma pessoa ande na asa de um avião, e, na minha opinião, representa um risco excessivo”.

Os investigadores enfrentaram uma enorme quantidade de indagações depois do acidente. Entre elas, por que os botes amarelos infláveis do helicóptero não impediram que afundasse e, além disso,  principalmente, o que o piloto poderia ter feito depois para salvar os seus passageiros.

As vítimas são Trevor Cadigan e Brian McDaniel, ambos de 26 anos, amigos de colégio de Dallas; Carla Callejos Blanco, de Corrientes, Argentina, e Daniel Thompson, 34 e Tristan Hill, 29, que, segundo um funcionário, trabalhavam para a companhia de helicópteros que operava o voo.

O piloto, Richard Vance, 33, ex-instrutor de helicópteros de Connecticut, falou no seu pedido de socorro que ocorrera “uma falha mecânica”. Mais tarde, ele disse aos investigadores que a chave que interrompe o fluxo do combustível deve ter sido inadvertidamente atingida pelos passageiros ou ficado presa no equipamento de bordo ou por um cinto, fechando o fornecimento de combustível para o motor. 

Especialistas da aviação disseram que não ficou claro como isto pode ter acontecido, considerando que a chave estava localizada no piso, na parte da frente da cabine.

A Liberty Helicopters, uma companhia de voos charter e turísticos com sede em Nova Jersey, é a proprietária e opera o Airbus AS350 B2 que se acidentou.

A companhia também se envolveu em uma colisão sobre o Rio Hudson, em 2009, na qual um helicóptero atingiu um pequeno avião particular, matando seis pessoas no helicóptero e três a bordo do avião. Dois anos antes, um helicóptero de passeios turísticos da mesma Liberty caiu no Rio Hudson; todos os ocupantes sobreviveram.

Na opinião de Bruce Hunt, um consultor de segurança da aviação do Colorado, as companhias de turismo têm históricos terríveis em matéria de segurança. “Elas matam gente todos os anos”, afirmou.

A FlyNYON, a companhia que reservou o voo, disse em seu site que a sua finalidade é oferecer a emoção  de tirar fotos de um helicóptero aberto “acessível a todos”.

Os clientes não precisam de qualquer treinamento em fotografia e nem de experiência com voos em helicópteros, mas devem ter pelo menos 12 anos de idade.

A FlyNYON Air e a Liberty Helicopters informaram em um comunicado que estavam cooperando com as investigações federais.

Eric Adams, um fotógrafo da aviação que embarcou em outro voo ao mesmo tempo do que se acidentou, retornou à base em Nova Jersey para recuperar os seus pertences de um armário que compartilhara com outros passageiros. Adams disse que havia ainda coisas no armário quando saiu, que ninguém fora retirar: carteiras, chaves de carro e uma bolsa./ Al Baker, Patrick McGeehan, Sarah Maslin Nir e Nate Schweber contribuíram para a reportagem. Jack Begg colaborou com a pesquisa.

 

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