William Widmer para The New York Times
William Widmer para The New York Times

Reconstrução de cidades após desastres usa imigrantes como força de trabalho

Enquanto os EUA se defrontam com um clima mais feroz causado pela mudança climática, a reconstrução é uma atividade em expansão

Miriam Jordan, The New York Times

15 de novembro de 2019 | 06h00

CALALWAY, FLÓRIDA - Eles chegaram às centenas, no ano passado, depois que o furacão Michael arrasou a península da Flórida, o chamado Panhandle, com ventos de 250 quilômetros horários que cortaram árvores ao meio, destruiu postes de aço, arrancou telhados e conturbou a vida das pessoas. Sem eletricidade, água potável ou acomodações seguras, uma rápida força de trabalho de reação rápida arregaçou as mangas para retirar os escombros. 

Nos meses seguintes, imigrantes - quase todos da América Central, México, e Venezuela - trabalharam em Bay County para a reabertura da Prefeitura de Panamá City, reparar o campus local da Universidade Estadual da Flórida e consertar os telhados danificados das igrejas. Em cidades como Callaway, em que 90% das habitações foram danificados pela tempestade de Categoria 5 em outubro, os trabalhos continuam.

O aumento da frequência e a gravidade dos desastres deram origem a uma nova força de trabalho para a recuperação e a reconstrução. Ela é composta principalmente de imigrantes. Como os trabalhadores agrícolas migrantes de ontem que cuidavam das culturas, os trabalhadores das tempestades se deslocam de desastre em desastre. Eles chegaram a Nova Orleans depois do Furacão Katrina; a Houston após o Harvey; à Carolina do Norte depois do Florence; na Flórida depois do Irma e do Michael. E enquanto os EUA se defrontam com um clima mais feroz causado pela mudança climática, a reconstrução é uma atividade em expansão.

Muitos destes trabalhadores são imigrantes sem documentos que entraram ilegalmente pela fronteira sudoeste. Outros são pessoas que buscam asilo, fugindo de perseguições em seus países de origem, ou turistas que teoricamente deveriam permanecer no país por alguns meses apenas. Muitos afirmam que vieram porque sabiam que haveria abundância de trabalho e a promessa de bons salários.

Mas desde a sua chegada a Bay County durante as semanas caóticas após a passagem do furacão Michael, muitos deles têm sido explorados por empregadores que nem sempre pagam o que lhes é devido, ou senhorios que cobram alugueis exorbitantes por suas moradias temporárias.

Nesta parte relativamente conservadora do país, alguns foram detidos por delegados e transferidos para a Polícia da Imigração e Fiscalização Aduaneira. “Às vezes, nós nos matamos de trabalhar, confiamos nas pessoas e depois não somos pagos”, falou Will, um imigrante de Honduras de 44 anos que trabalha após vários furacões desde o Katrina, em 2005. Como outros, ele pediu para não ser identificado.

Em setembro, os imigrantes que limparam dois resorts na Florida Keys depois do Irma, em 2017, entraram com processos na justiça federal em Miami contra uma companhia de reconstrução de desastres, a Cotton Holdings, e Daniel Paz, o proprietário de uma empresa de fornecimento de mão de obra, alegando que não receberam o salário mínimo, ou as horas extras trabalhadas. Eles retiraram os escombros, abateram árvores e paredes podres, afirmam em suas denúncias.

Bellaliz Gonzalez, uma querelante venezuelana que entrou nos Estados Unidos com visto de turista, afirmou que o seu chefe a ameaçou de entregá-la à polícia da imigração juntamente com outros trabalhadores quando eles se queixaram da falta de pagamento. “Eu me senti impotente”, disse Bellaliz, 53, que calcula que teria de receber US$ 2 mil e desde então pediu asilo. Em Bay County, uma ONG chamada Resilience Force atende trabalhadores imigrantes, procurando organizá-los e fazendo pressão para melhorar suas condições de vida.

“Desde Katrina, nós temos uma nova força de trabalho”, disse Saket Soni, líder do grupo, em um recente encontro que teve grande número de participantes. “Vocês são esta força de trabalho, reconstruindo uma cidade após a outra”. Durante um comício de campanha, em maio, em Panama City Beach, o presidente Donald Trump não mencionou a mão de obra itinerante que realiza os reparos em um discurso em que falou dos imigrantes ilegais. “Como paramos estas pessoas?” perguntou, e alguém na multidão respondeu: “Matando!” Trump disse: “Só no Panhandle é possível escapar disso”.

Mas em um condado em que sete em cada dez eleitores apoiaram o presidente em 2016, houve pouca oposição política aos trabalhadores dos furacões. “Nós temos muitos eleitores de língua espanhola. ‘Agradeçamos a Deus por eles’ ”, disse Pamn Henderson, a prefeita de Callaway. José Hernandez, especialista em estruturas, e seu irmão Rigoberto, originários de Honduras, estavam pagando US$ 1,2 mil por mês para morar em uma casa derrubada pela tempestade - com um piso de concreto irregular, sem portas e móveis salvos do desastre.

Will, o trabalhador de Honduras, disse que ele e três companheiros imigrantes estavam pagando US$ 250 cada um para dividir um barraco. Will parecia mais sem graça com a situação da sua habitação do que pelo fato de estar pagando uma cifra exorbitante para morar em uma choupana. No entanto, ao longo dos anos, com os ganhos do seu trabalho depois dos furacões contou: “Construí uma casa para a minha família em Honduras”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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