Melissa Golden para The New York Times
Melissa Golden para The New York Times

Descanso para o cérebro melhora a criatividade

Cientistas defendem importância do horário livre do trabalho

Alan Mattingly, The New York Times

24 de março de 2019 | 06h00

Mudança climática. Pronto: agora podemos nos entregar novamente ao desespero depois de ler essas palavras. Recebemos diariamente novas revelações do quanto o problema é desafiador. É grande demais para uma solução única, ou ao menos é o que nos dizem; para evitar um cataclisma, teremos de fazer muitas pequenas mudanças.

Legisladores de Connecticut têm uma mudança dessas para propor: recreios mais longos. Tecnicamente, a medida não é voltada ao problema do aquecimento. O objetivo é desenvolver mentes jovens capazes de pensar em problemas tão imensos. Lucy Dathan é mãe e uma das legisladoras propondo uma lei que exigiria um mínimo de 50 minutos de horário livre para os alunos menores. 

Ela disse que, quando sua família mudou-se da Califórnia, onde as crianças tinham 40 minutos de recreio, para Connecticut, onde o recreio era de 20 minutos, ela percebeu uma piora no comportamento dos filhos, na sua forma de lidar com os relacionamentos e na sua capacidade de concentração.

Ela pensou que a resposta seria mais tempo fora da sala de aula.. Outros tinham pensado o mesmo. Um ano atrás, o Arizona começou a exigir dois recreios por dia no ensino infantil, e melhorias no comportamento e no resultado dos exames já foram observadas. O Arkansas pensa em adorar algo semelhante. “Acredito que o horário livre para brincar fomenta a criatividade da qual precisamos para solucionar grandes problemas mundiais, como o aquecimento global, ou outras questões que precisamos enfrentar”, disse Lucy ao Times.

Os cientistas concordam com essa linha de raciocínio. “A criatividade da criança envolve a capacidade de inventar histórias e fazer de conta", disse a professora Sandra Russ, do departamento de ciências psicológicas da Universidade Case Western Reserve, em Cleveland. Nos adultos, a criatividade também exige tempo livre, de acordo com o colunista Carl Richards, que escreve a respeito de saúde financeira e profissional para o Times. E não há nada de errado se este tempo livre for ocupado por uma soneca.

“Corredores profissionais precisam descansar os músculos das pernas", escreveu ele. “Carpinteiros precisam descansar os músculos das mãos. Se o principal músculo utilizado no seu trabalho é o cérebro, você precisa aprender a descansá-lo também. Para o trabalhador da economia do conhecimento, isso significa períodos consideráveis sem fazer nada.”

Richards disse que algumas das pessoas mais bem sucedidas que ele conhece parecem ser preguiçosas, enquanto outros que parecem sempre ocupados simplesmente ficam esgotados. A recomendação dele para encontrar o equilíbrio certo? “Sair um pouco, deitar-se na grama e observar as nuvens", escreveu ele. “E não sair da cama até se sentir pronto pra fazê-lo.”

Se parece contraditório observar que as pessoas mais criativas podem parecer as mais preguiçosas, pense que elas talvez sejam também as que se sentem mais frustradas. O psicólogo organizacional Adam Grant, da Faculdade Wharton, Universidade da Pensilvânia, contou ao Times o caso da rejeição do diretor Brad Bird pela Pixar em 2000, quando ele apresentou pela primeira vez a ideia para um filme. Mas ele insistiu, recrutou um grupo de funcionários independentes da Pixar cujas ideias também tinham sido ignoradas, e o resultado foi “Os Incríveis", que ganhou dois Oscars e fez mais dinheiro (US$ 631 milhões) que qualquer outro filme anterior da Pixar.

“Normalmente, evitamos pessoas frustradas - não queremos ser arrastados pelo peso de suas reclamações e cinismo", escreveu Grant. Mas “quando estamos insatisfeitos, em vez de lutar ou fugir, às vezes nós inventamos. A frustração é o sentimento de ser impedido de alcançar uma meta. Embora pareça uma emoção destrutiva, ela pode funcionar como combustível para a criatividade".

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