Kunsthistorisches Museum em Viena
Kunsthistorisches Museum em Viena

'Descascando' a pintura para descobrir os segredos de Bruegel

Fotografia em raio-X revela detalhes de obras de pintor

Nina Siegal, The New York Times

28 Novembro 2018 | 06h00

AMSTERDÃ - O que aconteceria se retirássemos camada por camada a tinta de uma obra-prima de um dos maiores pintores da história da arte?

Corpos mortos poderiam voltar a aparecer. Por exemplo, a cena da festa de Pieter Bruegel, o Velho, em “A luta entre Carnaval e Quaresma”, pintada em 1559. Se olharmos os primeiros esboços que ele fez da pintura, usando fotografia por raios-X, perceberemos que há um cadáver em uma carroça que uma velha arrasta atrás de si. Depois vemos outro corpo no chão, o rosto ameaçadoramente próximo de uma criança doente voltado para o espectador.

Mas quando observamos a versão final do quadro - a que está diante dos nossos olhos - já não notamos estes elementos macabros. O cadáver na carroça foi coberto com tinta marrom; o corpo no chão está envolto em um pano branco. Quando e como estes mortos desapareceram?

Uma nova tecnologia por imagem, criada para um projeto conhecido como “Inside Bruegel” (Por dentro de Bruegel), nos permite retirar as diversas camadas da pintura. O projeto foi elaborado, juntamente com o Kunsthistorisches Museum de Viena, para “Bruegel”, a mostra de 87 obras do pintor que ficarão expostas até 13 de janeiro.

Bruegel, um dos maiores pintores da Renascença Nórdica, conhecido por obras como “A torre de Babel”, “A boda camponesa” e “O triunfo da Morte”, criou mundos caóticos repletos de minuciosos detalhes. Eles parodiam temas religiosos, zombam da piedade religiosa, apresentam a morte com detalhes realistas e conferem aos camponeses papéis centrais. O autor nos mostra um universo cômico e violento de pessoas comuns da época da Inquisição espanhola, no século 16.

No leito de morte, Bruegel aconselhou a esposa a queimar os seus desenhos, temendo “que fossem exageradamente cáusticos ou irrisórios, ou talvez porque estava arrependido” ou para que ela não tivesse problemas, segundo uma biografia de 1604 de Karel can Mander. Teria medo de uma punição?

“Uma das coisas que os historiadores da arte debatem com seriedade é em que nível Bruegel satirizava o governo da sua época”, disse Ron Spronk, professor de história da arte da Universidade de Queens, no Canadá. “Este tipo de questões continua em debate ainda hoje”.

Como outros mestres do século 16, Bruegel construía os seus quadros cuidadosamente em pranchas de madeira, camada por camada.

No quadro “A luta entre Carnaval e Quaresma”, vemos, de um lado, os foliões comemorando, e devotos que respeitam a Quaresma do outro. Um homem obeso carrega uma peça de porco enfiada em um espeto na frente de um austero penitente, que segura uma pá de padeiro sobre a qual há dois peixes.

Entretanto, se olharmos para uma imagem desta pintura feita com raios infravermelhos, veremos que no lugar dos dois peixes, Bruegel pintara uma cruz - um símbolo da Igreja. Posteriormente, tirou a cruz e acrescentou os peixes, um alimento tradicional servido durante a Quaresma. Mas os peixes são também o símbolo de Cristo, talvez em uma referência mais sutil à Igreja.

Quanto aos cadáveres do quadro, Sabine Pénot, curadora dos Quadros Flamengos e Holandeses do Kunsthistorisches Museum, disse que não foi Bruegel que fez estas mudanças; outros teriam apagado o corpo da carroça, e coberto o que estava no chão, embora ninguém saiba quem fez isto ou quando, precisamente.

“O espectador vê a camada de tinta na qual encontramos estes corpos mortos ou doentes, e depois, mais tarde, descobrimos uma intervenção de alguém com o propósito de amenizar estas imagens sombrias ou chocantes”, disse Pénot.

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