Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Descobrindo tesouros nas lixeiras de milionários

Catadores de San Francisco encontram de roupas novas a celulares descartados por vizinhos ricos do Vale do Silício, como Mark Zuckerberg

Thomas Fuller, The New York TImes

01 de maio de 2019 | 06h00

SAN FRANCISCO - A três quarteirões do luxuoso lar de Mark Zuckerberg, avaliado em US$ 10 milhões, Jake Orta vive em um minúsculo apartamento de uma só janela e cheio de lixo. Vemos um aspirador de pó, um secador de cabelo, uma máquina de café e uma pilha de roupas que ele trouxe para casa em uma sacola de papel, recuperadas da lixeira de Zuckerberg.

Veterano do exército que viveu nas ruas e agora mora em uma habitação subsidiada, Orta trabalha como catador de lixo em tempo integral, parte de uma economia subterrânea em San Francisco formada por pessoas que vasculham o lixo em frente a lares de milhões de dólares na expectativa de encontrar algo que possam vender.

Quando falamos em catadores de lixo, é comum pensarmos em favelas e cortiços. A Aliança Global dos Catadores de Lixo, organização voltada para pesquisa e defesa dos direitos desses trabalhadores, soma mais de 400 grupos organizados de catadores de lixo, quase todos na América Latina, África e Sul da Ásia. Mas os catadores de lixo estão presentes em muitas cidades dos Estados Unidos e, com o aumento descontrolado do número de sem-teto em San Francisco, são um exemplo dos extremos do capitalismo americano.

Orta, 56 anos, se considera algo parecido com um caçador de tesouros. "Fico impressionado com as coisas que as pessoas jogam fora", disse, mostrando uma calça jeans de grife pouquíssimo usada, um novo casaco de algodão, tênis de corrida e uma bomba pneumática. Ele disse que seu objetivo era conseguir algo entre US$ 30 e US$ 40 por dia.

Remexer  no lixo alheio é ilegal na Califórnia. Depois que o lixo é colocado para fora de casa, seu conteúdo é considerado propriedade da empresa coletora. O policiamento, no entanto, raramente se ocupa de fiscalizar essa lei.

Orta costuma explorar seus becos favoritos e uma lixeira que se mostrou particularmente rentável. De acordo com ele, a primeira regra do catador é certificar-se de que não haja nenhum gambá ou guaxinim no lixo. Em março, a lixeira rendeu uma caixa de cálices, pratos e utensílios de prata. Outras das descobertas recentes de Orta: celulares, iPads, três relógios de pulso e sacos de maconha. Quando indagado a respeito da erva, ele respondeu, "Fumei tudo".

"Há muita coisa descartada que pode ser reaproveitada", explicou Robert Reed, porta-voz da Recology, empresa contratada para coletar o lixo de San Francisco. "Há na cidade um número cada vez maior de profissionais da indústria da tecnologia, e o ritmo não para de acelerar. São pessoas que logo se distraem. Algumas descartam itens que poderiam ser facilmente reaproveitados em uma loja de usados".

Há décadas, homens e mulheres catam papelão, papel, latas e garrafas, arrastando imensas sacolas para trocá-las por dinheiro nos centros de reciclagem. A cidade de San Francisco está preocupada com as picapes decadentes que circulam pelas ruas recolhendo material reciclável, interferindo na renda da Recology, segundo Bill Barnes, porta-voz municipal. O resultado é uma taxa de coleta mais alta para os moradores.

Catadores de lixo como Orta buscam itens que seriam enterrados em um buraco nos arredores da cidade, onde o lixo é compactado por escavadeiras e transportado para um aterro a uma hora e meia de distância. A cidade exporta cerca de 50 caminhões cheios por dia.

O fotógrafo australiano Nick Marzano, que documenta os catadores de lixo em San Francisco, estima que haja centenas deles pela cidade. "Do meu ponto de vista, eles prestam um serviço cívico", disse Marzano. "Em vez de destinar todo esse volume aos aterros, parte do material é reutilizada".

Marzano afirmou haver uma sobreposição entre os catadores de lixo, os sem-teto e os usuários de drogas no espaço público. Mas, para ele, os catadores de lixo e os mercados improvisados por eles nas calçadas são uma forma de empreendedorismo. "É a fonte primária de renda das pessoas que não têm outra renda", disse.

Brinquedos de crianças raramente são vendidos. Os pais não gostam da ideia de dar aos filhos algo tirado do lixo. Roupas femininas são geralmente ignoradas. Mas os homens parecem menos preocupados com a origem de suas roupas, e é fácil vender uma calça jeans por algo entre US$ 5 ou US$ 10.

Na lata de lixo reciclável marcada com o endereço de Zuckerberg, havia latas de refrigerante diet, caixas de papelão e uma oferta de cartão de crédito pelo correio. Na lata destinada ao aterro, havia restos de frango, pão e embalagens de comida chinesa.

Orta abriu um saco de lixo. "Só porcaria - nada de útil aqui". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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