Juho Kuva para The New York Times
Juho Kuva para The New York Times

Empresas dão desconto em alimentos quase vencidos para reduzir desperdício

Cerca de um terço dos alimentos produzidos e embalados para consumo humano acaba se perdendo ou vai para o lixo, segundo a ONU

David Segal, The New York Times

11 de outubro de 2019 | 06h00

HELSINKI, FINLÂNDIA - A happy hour no S-market do bairro de classe operária de Vallila acontece longe do balcão de bares e não é exatamente um motivo de divertimento. Ninguém está aqui por causa da bebida ou em busca de diversão. Todos procuram comprar com um considerável desconto um bom pedaço de carne de porco. Ou mesmo uma centena de alimentos que estão a poucas horas de sua data de vencimento.

A comida que não pode mais ser vendida está à venda em cada uma das 900 lojas do S-market na Finlândia, com preços que já tinham 30% de desconto, e, exatamente às 21 horas, o seu desconto passa a ser de 60%. Isto faz parte de uma campanha implantada há dois anos com o propósito de reduzir o lixo alimentar que os executivos da companhia, neste país conhecido como beberrão, decidiram chamar de happy hour na esperança de atrair clientes regulares, como todo bar decente.

“A ideia me conquistou”, disse Kasimir Karkkainen, 27, enquanto percorria a seção de carne no S-market de Vallila. Eram 21h15 e ele havia agarrado uma embalagem com mini-costelas de porco e cerca de um quilograma de lombo de porco embalado a vácuo. Depois dos descontos, o total da compra seria equivalente a US$ 4,63.

Cerca de um terço dos alimentos produzidos e embalados para consumo humano acaba se perdendo ou vai para o lixo, segundo a Organização para a Alimentação e Medicamentos da ONU. Isto significa 1,3 bilhão de toneladas ao ano, ou US$ 680 bilhões. Os dados representam mais do que apenas uma alocação muito errada de necessidades e desejos, considerando que 10% das pessoas no mundo estão subnutridas. Todo este excesso de comida, segundo os cientistas, contribui para a mudança climática.

De 8% a 10% das emissões de gases do efeito estufa estão relacionados aos alimentos perdidos durante a colheita e a produção ou desperdiçados pelos consumidores, mostra um recente relatório. Os depósitos de alimentos podres emitem metano, um gás aproximadamente  25 vezes mais prejudicial do que o dióxido de carbono. E para coletar e transportar toda esta comida estragada são necessários bilhões de hectares de terra arável, trilhões de litros de água e enormes quantidades de combustíveis fósseis.

Para os consumidores, reduzir o desperdício de alimentos é um dos poucos hábitos pessoais que podem ajudar o planeta. Mas muitas pessoas não se preocupam com este tipo de desperdício. “O foco maior está na energia”, disse Paul Behrens, professor da Universidade de Leiden, na Holanda. “No entanto, a mudança climática é um problema de terra e de alimentos tanto quanto qualquer outra coisa”.

Reduzir o desperdício é um desafio porque vender o máximo de alimentos possível é um aspecto profundamente arraigado nas culturas favoráveis a que se coma ao máximo. Convencer os comerciantes a promover e lucrar com a “recuperação dos alimentos”, não é tão óbvio.

“Os consumidores pagam pelo alimento, e quem quer reduzir isto?” disse Toine Timmermans, diretor da United Agaist Food Waste Foundation, uma ONG da Holanda. “Quem lucra com a redução do desperdício alimentar?” Um número cada vez maior de supermercados, restaurantes e start-ups, muitos deles na Europa, tenta responder a esta pergunta. Os Estados Unidos são uma questão à parte.

“O desperdício de alimentos pode ser um desafio exclusivamente americano porque muitos neste país equiparam a quantidade com a pechincha”, disse Meredith Niles, professora da Universidade de Vermont. “Veja o número de restaurantes que anunciam porções extra abundantes”.

Algumas das iniciativas mais promissoras para conter o desperdício de alimentos são aplicativos que põem em contato quem vende com quem compra. Uma das mais populares é a Too Good to Go, uma companhia sediada em Copenhague, que tem 13 milhões de usuários e contratos com 25 mil restaurantes e padarias em 11 países. Os consumidores pagam cerca de um terço do preço por estes itens; a maior parte do ganho vai para o lojista, e uma pequena porcentagem para o aplicativo.

Na Dinamarca, o resgate dos alimentos atingiu a escala de um movimento cultural, com sua mentora intelectual: Selina Juul, uma designer que emigrou da Rússia aos 13 anos. “Quando nós emigramos, eu nunca havia visto tanta comida. Fiquei chocada. E voltei a ficar chocada quando vi a quantidade de alimentos que as pessoas desperdiçavam”.

Em 2008, aos 28 anos, ela criou um grupo no Facebook chamado ‘Pare de Desperdiçar Comida’. Em poucas semanas, ela deu uma entrevista à rádio. Logo depois, chamou a atenção de Anders Jensen, diretor de compras da REMA 1000, a maior cadeia de supermercados da Dinamarca. “Estava viajando a negócios para a Escócia e li a respeito de Selina em um artigo de jornal”, disse Jensen. “Naquela época, segundo o artigo, cada dinamarquês desperdiçava 63 quilos de alimentos ao ano e eu, sentado no aeroporto, pensei: Ela está certa”.

Depois que os dois se encontraram em Copenhague, a REMA 1000 eliminou os descontos dados para a compra de quantidades maiores. Em 2008, já não se vendiam três presuntos pelo preço de dois. “A novidade explodiu na mídia porque era a primeira vez que um lojista dizia: Tudo bem se a gente vender menos’ ”, falou Jensen. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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