Atul Loke/The New York Times
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Divya Thakur celebra o espírito inovador do design indiano

A contribuição da Índia para o design é tão ignorada que muitos indianos modernos continuam a buscar inspiração em referências ocidentais, diz a artista

Perry Garfinkel, The New York Times - Life/Style

23 de julho de 2020 | 11h53

Divya Thakur tinha seis anos quando ganhou seu primeiro prêmio de design como estudante na Escola Pública St. Kabir, em Chandigarh, na Índia, cidade onde seu pai, major do exército indiano, estava trabalhando. Ela ganhou um jogo de toalhas bordadas a mão do patrocinador do concurso, a fabricante de giz de cera Camlin. "Mesmo naquela época, eu já sabia que faria alguma coisa criativa na vida", disse durante uma entrevista em maio deste ano.

Aos 49 anos, Thakur é fundadora da Design Temple, uma loja multifacetada de objetos de design criada há 21 anos em Mumbai, na Índia. Desde aquele primeiro prêmio, ela colecionou dezenas de outros, incluindo o Devi Award, em 2017, ao longo de uma verdadeira cruzada para ganhar respeito e reconhecimento dentro da tradição indiana do design visual.

"Ao longo de séculos, a capital intelectual, artística e espiritual da Índia tem sido explorada e saqueada, sem receber nada em troca. A contribuição da Índia para o design é tão ignorada que muitos indianos modernos continuam a buscar inspiração em referências ocidentais e raramente percebem que, em tempos de crise emocional e espiritual, o Ocidente procura a Índia", afirmou ela.

Thakur fundou o Museu da Excelência em Design em outubro do ano passado, uma instituição sem fins lucrativos que, segundo ela, "vai corrigir esses desvios".

Sua obra se estende por diversas áreas: a abertura de dois filmes dirigidos por Mira Nair (O Xará e O Relutante Fundamentalista); design espacial de grandes marcas (incluindo Asian Paints e Taj Hotels); design de livros (Lights, Camera, Masala, de Naman Ramachandran, vencedor da Medalha de Ouro do Festival de Nova York, em 2007); acessórios para casa; e até cardápios de restaurante (do Indigo, em Mumbai, em 1999).

"O que mais me impressiona em Divya é que ela atua em muitas frentes", disse Paola Antonelli, curadora sênior e diretora de pesquisa e desenvolvimento do Museu de Arte Moderna de Nova York. As duas se conheceram em um dos muitos jantares que Thakur costuma organizar.

A principal característica de seu trabalho em design está na forma como reduz os complexos e intricados padrões clássicos e as imagens indianas, muitas com referências esotéricas, a linhas limpas e simples que evocam sua origem.

Em 2004, ela fez a curadoria de sua primeira exposição, India Indigenous (Índia Indígena), na Loggia dei Mercanti, um antigo mercado em Milão, celebrando as inovações de seu país no campo do design gráfico e de produtos, e no da moda. Desde então, produziu exposições no Victoria and Albert Museum, em Londres, no Millesgarden, em Estocolmo, e em toda a Índia.

Sua instalação Design: The India Story (Design: A História da Índia), de 2016, no Chhatrapati Shivaji Maharaj Vastu Sangrahalaya (conhecido antigamente como Museu Príncipe de Gales), em Mumbai, contou a história do design indiano por meio de objetos do dia a dia - utilidades domésticas, utensílios de cozinha, cadeiras etc. A exposição atraiu 250 mil visitantes.

Agora - em uma ideia apropriada ao momento, com tantos museus fechados devido à pandemia - Thakur fez uma parceria entre o Museu de Excelência em Design e o Google Arts & Culture, uma plataforma que permite que os visitantes vejam imagens de alta resolução em 360 graus de obras de arte e artefatos de culturas do mundo todo.

O conteúdo indiano selecionado por Thakur inclui uma história dos assentos, que dá o contexto espiritual e cultural das cadeiras; um relato da influência do movimento alemão Bauhaus na Índia; e também um apanhado da contribuição da filosofia espiritual indiana para as ideias de grandes nomes do movimento Bauhaus, como Johannes Itten, Wassily Kandinsky e Paul Klee.

De acordo com Amit Sood, diretor global sênior do Google Arts & Culture, as páginas on-line da Bauhaus ganharam apelo popular por conta da importância que o movimento ainda tem no design contemporâneo. "É fácil falar da Bauhaus durante uma festa ou um coquetel, mas Divya ajuda os visitantes a aprofundar sua compreensão da filosofia do multiculturalismo, da simplicidade e do prazer", comentou.

A carreira da designer começou de maneira pouco promissora. Logo depois de se formar no Instituto Sir JJ de Artes Aplicadas, em Mumbai, em 1992, Thakur começou a trabalhar na Trikaya Grey, "uma agência de publicidade capenga".

Na época, o design indiano ainda estava encontrando seus caminhos. A criação do Instituto Nacional do Design, em 1961, marcou o início do design como disciplina séria na Índia, segundo Pheroza J. Godrej, historiadora da arte, curadora e diretora do Godrej Archives Council. "Foi quando a Índia começou a desenvolver certa sensibilidade para o design, buscando inspiração no Ocidente. Até então, o design se baseava nas práticas artesanais dos produtores locais", disse ela.

Thakur logo se tornou diretora de arte na Trikaya Grey e, em seguida, em outra agência, mas depois de sete anos começou a achar limitador o setor publicitário.

Criado em 1999, o Design Temple logo angariou uma lista privilegiada de clientes e passou a produzir acessórios domésticos, móveis e outras empreitadas criativas. Thakur teve uma galeria de arte entre 2010 e 2017, como um núcleo experimental e colaborativo de varejo e um espaço educativo para designers e outras pessoas.

Ela fez um vídeo promocional para a rede Marriott International Hotels, no Forte Jaisalmer, no Rajastão. Sua sensibilidade à moda lhe valeu o prêmio de Pessoa Mais Bem Vestida da Verve, em 2016. No prêmio, ela resume sua definição de estilo como "uma integração bem pensada entre o eu interior e o exterior".

Sua casa, um duplex a poucos metros do Taj Mahal Palace Hotel, no sul de Mumbai, é, por si só, uma exposição de museu. Obras de arte e esculturas que representam diversos países e eras enchem as paredes e prateleiras. (E Trooper, seu mastim francês de 50 quilos, a acompanha por toda a casa e salta sobre qualquer um que invada o espaço.)

O autorretrato de Thakur, um tríptico modernista intitulado Head Study (Estudo de Cabeça), sugere que há muito mais por trás de seu aparente otimismo de sempre.

"Minha casa é uma expressão muito minha", disse em um recente tour virtual, durante o lockdown nacional causado pelo coronavírus. O apartamento - que também serve como escritório do Design Temple e foi mostrado pelo The New York Times há 11 anos - é o pano de fundo perfeito para os jantares que ela realiza, quando gosta de se cercar de pessoas interessantes.

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