Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Desigualdade e fome no Iêmen trazem dilema para jornalistas

Os contrastes no país são gritantes. Um jornalista deveria ajudar os necessitados?

Declan Walsh, The New York Times

14 Dezembro 2018 | 06h00

SANAA, IÊMEN - Num restaurante da capital iemenita, um garçom trouxe travessas de cordeiro servidas com porções de arroz. A sobremesa era kunafa, um doce dourado recheado de queijo. Uma hora mais tarde eu estava de volta ao trabalho, numa ala hospitalar cheia de crianças desnutridas, presas entre a vida e a morte. Se esse contraste parece vergonhoso ao leitor, saiba que tive a mesma sensação.

As zonas de crise costumam abrigar contrastes, mas, no Iêmen, essa diferença é particularmente desconcertante. O problema não é a falta de comida, e sim o fato de poucos poderem pagar por ela. Anos de embargos, bombas e uma inflação galopante destruíram a economia.

Como resultado, mendigos se reúnem do lado de fora de supermercados com prateleiras cheias; os mercados estão repletos de alimentos em cidades onde os famintos comem folhas fervidas; e restaurantes oferecendo pratos saborosos ficam a centenas de metros de alas hospitalares dedicadas aos famélicos.

Os jornalistas viajam com dinheiro para hotéis, transporte e tradução. Será que devo ajudar? É a pergunta que alguns leitores fizeram depois que publicamos um artigo recente a respeito da fome que toma conta do Iêmen. Muitos ficaram comovidos com a foto tirada por Tyler Hicks da menina Amal Hussain, 7 anos, cujo olhar vazio no rosto emaciado deixou claro o custo humano da guerra. E muitos ficaram devastados ao saber que a garota morreu dias depois de termos partido. Queriam saber por que não fizemos nada para salvá-la.

Os repórteres são treinados para serem testemunhas; os funcionários das agências humanitárias e os médicos têm a responsabilidade de salvá-las. A doação de dinheiro pode ser repleta de complicações éticas, morais e práticas. Mas, a cada dia passado no Iêmen, alguém me contava um novo detalhe que só fazia aumentar o nó em minha garganta. Normalmente era alguma informação mundana, como a falta de alguns dólares para levar uma criança moribunda a um hospital. Percebemos que, no Iêmen, as pessoas morrem por falta de dinheiro para o táxi.

Os iemenitas também precisam encarar essa realidade. Enquanto alguns morrem, outros estão ocupados vivendo. Certa noite, voltamos para o hotel em Hajjah. Deitado na cama, fiquei assustado ao ouvir uma explosão seguida por luzes no céu - não era uma bomba, e sim um rojão. Desde o início da guerra, o número de casamentos aumentou. Assim, nessa cidade onde bebês desnutridos estavam morrendo, outros dançavam e celebravam a noite toda.

Mas a alta nos casamentos é um mecanismo de sobrevivência. A mão de uma filha em casamento tem seu preço, o que faz dos casamentos uma possível fonte de renda. Mas é perturbador ver que muitas dessas noivas são crianças. Ao cruzar o Iêmen - do porto de Hudaydah, arrasado pelas batalhas, até as montanhas controladas pelos Houthis - uma jornada de 1.450 quilômetros ­- vimos cenas de um sofrimento comovente e costumes que perduram.

Os centros urbanos estavam movimentados com homens comprando khat, uma folha narcótica que os iemenitas adoram. Os mercados de khat são um evento social. Ainda assim, a sociedade iemenita está sendo destruída pela guerra. Ataques aéreos da coalizão liderada pelos sauditas, usando bombas americanas, mataram milhares de civis, deixando um número ainda maior de desabrigados. Mas os piores efeitos da guerra são silenciosos. As bombas explodem fábricas, acabando com empregos, fazendo a moeda ruir e os preços aumentarem.

Enquanto o carro nos levava do pequeno hospital de Aslam, onde Amal recebia tratamento, passamos por um jovem casal que estava no acostamento. Tinham no colo um bebê. Paramos. Eles entraram no banco de passageiros - o pai, Khalil Hadi, envolto no manto preto da mulher, Hanna, que tinha nos braços o frágil filho de 9 meses, Wejdan, que tinha acabado de receber alta da ala hospitalar dos desnutridos.

A história deles era típica. Seu lar, perto da fronteira saudita, tinha sido bombardeado, o que os obrigava a alugar um quarto perto de Aslam. Hadi tentava ganhar dinheiro com mototáxi, e recolhendo madeira para vender no mercado. Mas não era o bastante. A dieta tinha sido reduzida a pão, chá e halas, uma videira local. A mulher estava no quarto mês de gravidez do segundo filho. Hadi não precisava da pena de ninguém; muitos estão em situação parecida, disse ele. “Faria qualquer coisa pelo dinheiro. A situação é muito difícil.”

O casal desceu num cruzamento na estrada, agradeceu e se afastou. Chamei-os de volta. Saquei um maço de notas iemenitas - o equivalente a cerca de 15 dólares - e coloquei-as na mão dele. Pareceu um gesto fútil. De que aquilo lhes valeria? Alguns dias de alívio, se tanto?

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