Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

Desigualdade na França afeta férias de quase metade da população

Férias são sagradas, em parte, porque são consideradas parte intrínseca da democracia do país

Norimitsu Onishi, The New York Times

05 de setembro de 2019 | 06h00

AUMETZ, FRANÇA - Enquanto boa parte do restante da França passava o mês de agosto na praia, manifestantes dos Coletes Amarelos se reuniam no lugar de sempre, uma rotatória, em uma noite de sexta feira. Compartilharam alguns drinques, sentados em cadeiras improvisadas e sofás descartados dentro do seu barracão de madeira.

“Na televisão, tudo que eles mostram é um imenso engarrafamento", disse Rolland Gambioli, referindo-se ao tráfego intenso e lento que toma as estradas nacionais no auge das férias de verão. “Seria de se pensar que todo mundo sai de férias, mas muitos de nós não saímos. A realidade é diferente.”

A França é famosa pelas longas férias de verão. Em Paris, bilhetes escritos à mão surgem nas portas das padarias anunciando que os donos foram viajar, e você deveria fazer o mesmo. As férias são sagradas, em parte porque são consideradas uma parte intrínseca da democracia do país. “Na França, se você não tira férias no verão como todo mundo, isso significa que você está fora do jogo", disse Jérôme Fourquet, importante pesquisador da opinião pública que lançou recentemente um estudo das férias e da crescente desigualdade na França.

Embora as férias de verão ainda façam parte dos hábitos de 60% da população, um número cada vez maior de franceses as considera inacessíveis, de acordo com Fourquet. E, acompanhando mudanças mais amplas na economia do consumo, destinos tradicionais de veraneio, como os campings, agora atendem a clientes de renda mais generosa.

A erosão de uma tradição querida reflete uma sociedade cada vez mais desigual, uma das muitas mudanças que vêm rasgando o contrato social na França. Foi o que ajudou a criar o movimento dos Coletes Amarelos, que não representam mais uma ameaça tão grande quanto há alguns meses. Mas sobrevivem enquanto organização social em áreas como Aumetz, pequena cidade antes dedicada à mineração no norte do país, desindustrializado. 

Entre as participantes habituais estava Aurélie Mery, uma das primeiras a ocupar a rotatória. Havia também Casse-cou, o ousado manifestante que se orgulhava de ter sido abusado durante os protestos em Paris; e um casal inseparável, Danièle e Clément. E também Gambioli, chamado carinhosamente de Papi por ser o mais velho da turma, responsável por manter o fogo aceso no local - uma tarefa que ele levava a sério.

“Os Coletes Amarelos são como o fogo", disse ele. “Às vezes, vemos apenas brasas, mas bastam alguns segundos para as chamas recomeçarem.” A maioria dos frequentadores habituais não iria a parte nenhuma neste verão. “A maioria não tem dinheiro para as férias", disse Aurélie.

Era quase meia-noite. Papi garantiu o fogo aceso. Os carros passavam por eles, muitos trazendo pessoas voltando de Luxemburgo. Alguns buzinavam em apoio. Outros gritavam de seus carros. “Sua avó!” gritou um motorista. Casse-cou - um soldador cujo nome verdadeiro é Christophe Prod’homme - apanhou o celular para mostrar novamente um vídeo no qual é chutado por um policial da tropa de choque em Paris. “É por isso que me chamam de Casse-cou” - literalmente, pescoço quebrado.

Antes de aderir ao movimento dos Coletes Amarelos, ele tinha passado os nove anos anteriores - depois de se divorciar - jogando World of Warcraft depois do trabalho. Agora, tinha uma vida social ativa. “Conheci minha namorada em uma rotatória", disse ele, fazendo um gesto com a cabeça e sorrindo para Dominique Bary.

No crescente número de franceses que não conseguem arcar com o custo das férias de verão, Dominique enxergava o desaparecimento de algo especial. “Aprendemos na escola que as gerações anteriores lutaram pelo nosso direito de sair e relaxar ao sol todos os anos".

Em 1936, trabalhadores em greve obtiveram concessões fundamentais do governo, incluindo a redução da semana de trabalho para 40 horas e a criação de férias pagas de duas semanas por ano - agora são 25 dias de folga. O governo cortou as tarifas ferroviárias para os veranistas. O número destes aumentou imediatamente, de 600 mil em 1936 para 1,8 milhão no ano seguinte, e continuou a aumentar durante o boom econômico do pós-guerra.

Danièle Blel-Canon disse que costumava viajar pela estrada conhecida como “Autopista do Sol” para ir ao sul todos os anos - “a praia, o mar, o Mediterrâneo". “As férias são sagradas na França", disse ela. “As pessoas adoram tirar férias com os filhos para se recompor e descansar. Mas não podem fazê-lo. É difícil.” “Assim, vamos passar as férias na rotatória", acrescentou ela, “porque fizemos amigos aqui". Constant Méheut contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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