Alexander Coggin / The New York Times
Alexander Coggin / The New York Times

O caso 'Nimmo' e o aumento de denúncias de fraudes na internet

Alvo de desinformação, em que foi declarado morto nas redes sociais, Ben Nimmo avançou em pesquisa que levou empresas a banirem milhares de contas associadas à difusão de informações falsas

Adam Satariano, The New York Times

19 de fevereiro de 2020 | 06h00

HADDINGTON, ESCÓCIA — Em agosto de 2017, Ben Nimmo foi declarado morto por 13 mil robôs russos no Twitter. “Nosso amado amigo e colega Ben Nimmo nos deixou esta manhã", dizia o epitáfio, que parecia tirado da conta da rede social de um colega de trabalho.

A mensagem foi compartilhada milhares de vezes por contas automatizadas, ainda que Nimmo estivesse vivo e bem. Ele foi escolhido como alvo depois de publicar que grupos da extrema-direita americana tinham adotado mensagens pró-Kremlin em relação à Ucrânia nas redes sociais. A notificação de sua morte foi uma tentativa de disseminar desinformação. “Isso tornou a coisa pessoal", avaliou Nimmo, de 47 anos, que teve publicados na internet o endereço doméstico e outras informações pessoais, como informações bancárias.

Nos cinco anos mais recentes, ele foi o líder de uma comunidade pequena - mas cada vez maior - de investigadores da internet que combatem as tentativas maliciosas de usar informações falsas para conduzir a opinião pública, disseminar a discórdia na política e minar a confiança nas instituições.

O trabalho de Nimmo ganhou destaque após a eleição presidencial americana de 2016, quando agências de espionagem concluíram que a Rússia usou plataformas da internet para influenciar o eleitorado. A pesquisa dele levou empresas a banirem milhares de contas associadas à difusão de informações falsas. Mas as habilidades dele são mais necessárias do que nunca, agora que os truques na internet foram adotados por governos, grupos de ativistas e usinas de cliques em pelo menos 70 países. 

A meta de Nimmo é identificar as informações falsas o quanto antes, impedindo sua difusão. Como Facebook, Twitter e YouTube passaram a policiar suas plataformas mais ostensivamente, ele encontra menos pistas óbvias para iniciar a investigação, como as publicações automatizadas em massa. Assim, ele vasculha regiões obscuras da internet, como sites de notícias da Alemanha que aceitam conteúdo dos usuários sem fazer a checagem e serviços iranianos de compartilhamento de vídeos. “Sempre que apanhamos um desenvolvedor desse tipo de conteúdo, pode apostar que os demais mudam de tática para se manter um passo à nossa frente", disse Nimmo. 

Em 2011, ele começou a trabalhar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) como assessor de imprensa. Nesse emprego, em 2014, ele viu como a Rússia agiu para nublar a opinião pública em relação à sua invasão da Crimeia, incluindo a falsa representação dos soldados russos como “forças locais de autodefesa". Tornou-se pesquisador independente e começou a oferecer seus serviços a centros de estudos estratégicos que defendem a democracia na Rússia.

No ano passado, Nimmo se tornou diretor de investigações da empresa de monitoramento de redes sociais Graphika, que recebeu financiamento do Facebook. “Ele já fazia isso muito antes de se tornar algo da moda", disse Alex Stamos, que realiza pesquisas semelhantes e já foi diretor de segurança do Facebook. 

Nimmo trabalha com ferramentas digitais de código aberto: Wayback Machine, que localiza páginas que já foram apagadas, e Sysomos, que detecta tendências nas redes sociais. Ele disse que o difícil é determinar se o material vem de usuários comuns manifestando um ponto de vista ou de um sistema coordenado ligado a um governo. Ele domina o russo, francês, alemão e letão — e fala muitos outros idiomas. “Ele é muito cuidadoso", afirmou Camille François, diretora de inovação da Graphika e responsável por contratar Nimmo. “É importante detectar e estudar as informações falsas, mas é importante que nossa reação a elas não seja exagerada". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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