Andrew Testa The New York Times
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Despejo de mercearia provoca briga de gentrificação em Londres

Ativistas contra a saída da loja encontraram um alvo aparentemente perfeito em Taylor McWilliams, diretor executivo da Hondo

Adam Satariano, The New York Times - Life/Style

06 de agosto de 2020 | 05h00

LONDRES – Saja Shaheen anda pelos corredores da Nour Cash & Carry e vai apresentando o estoque de produtos ecléticos da popular mercearia, que pertence à sua família há mais de 20 anos, localizada no Brixton Market. Ela disse que, à medida que novas comunidades de imigrantes chegam à área tão diversificada do sul de Londres, são adicionados novos tipos de alimentos para corresponder ao gosto delas.

Os sacos de arroz são empilhados a dois metros de altura perto da entrada, ao lado de garrafões de 15 litros de óleo de cozinha de marcas variadas. Os chips picantes de banana, além de oito variedades de "jerk sauce" (molho apimentado típico da culinária jamaicana), são importados do Caribe. Há sacos de egusi (sementes de abóbora e de outras cucurbitáceas da África Ocidental), de camarão moído e de lagostins secos usados em pratos africanos. Xarope de tâmaras, tahine e quiabo satisfazem os clientes do Oriente Médio.

A Nour tem o charme de uma bodega clássica de Nova York, mas com uma seleção destacada de alimentos que a tornou popular entre os chefs de restaurantes locais. ("Trata-se de um empório de produtos orgânicos sem preços salgados, para pessoas reais", definiu um blog da região.) A loja não foi projetada para oferecer conforto – ou distanciamento social. Abrir espaço com os cotovelos para alcançar um saco de feijão ou de fubá é algo aceitável. As filas do caixa não são definidas. E a equipe é especialista em evitar discussões.

"Algumas pessoas dizem que vêm aqui para uma espécie de luta", disse Shaheen, caminhando em um corredor de especiarias que se estende em direção ao teto, cheio de sacos de curry em pó, cardamomo, noz-moscada, páprica e pimenta em grãos (verde, vermelha, preta, branca e rosa). "É uma loja autêntica. Não parece chique. Foi construída organicamente."

Como a Nour é muito estimada em Brixton, um centro multicultural de compras, ocasionalmente caótico e vibrante, a família Shaheen ficou surpresa ao receber uma notificação de despejo em janeiro. A Hondo Enterprises, nova proprietária do local, administrada por um multimilionário de 39 anos, do Texas, que trabalha como DJ de música eletrônica, informou que os inquilinos precisavam se mudar até 22 de julho. Uma nova subestação de energia estava sendo construída nas instalações para fornecer eletricidade a outras lojas da área comercial cada vez mais sofisticada.

Quando a família Shaheen se recusou a fazer um acordo, começou uma batalha de gentrificação. Um grupo de clientes se organizou para salvar a mercearia, argumentando que o destino da Nour seria um reflexo de mudanças mais amplas em Brixton. E, como em muitas batalhas – seja em São Francisco, Nova York ou Paris –, as que ocorrem no Brixton têm grupos com uma renda desproporcionalmente mais baixa e são de minorias, levantando questões de raça em um país que há muito luta para abordar de frente o assunto. "A loja se tornou o símbolo de uma causa maior. Todo mundo já viu essa história várias vezes", definiu Hiba Ahmad, que ajudou a organizar a campanha intitulada Save Nour (Salve a Nour).

Muitos elogiaram o desenvolvimento de Brixton quando investidores aplicaram dinheiro na área. A comunidade havia sido negligenciada por muito tempo e desenvolveu uma má reputação, sobretudo depois das revoltas de 1981, que foram, em parte, resultado de tensões raciais e táticas agressivas da polícia.

As duas galerias com tetos de vidro no centro de Brixton, datadas das décadas de 1920 e 1930, se degradaram e quase se transformaram em apartamentos em 2008. Agora, um patrimônio histórico, o Brixton Market, incluindo as galerias, é uma área comercial que oferece vida noturna, lojas independentes, restaurantes e bares que funcionam ao lado de estabelecimentos mais antigos como a Nour, peixarias e açougues.

Os moradores da região assistiram com cautela à aceleração dessas mudanças, alimentadas pela alta do custo de vida em Brixton, que antes era relativamente acessível, por conta dos transportes públicos, da vida noturna agitada e de um cenário invejável de música, arte e gastronomia. Um mural de David Bowie, nascido em Brixton, é uma atração popular entre os turistas que tiram fotos para o Instagram.

"Os habitantes locais, pertencentes a grupos minoritários, estão sendo expulsos. Vou tentar ficar o máximo que puder", afirmou Folashade Akande, proprietária da Iya-Ibadan, uma loja que vende comida e artesanato africanos no mercado há mais de 20 anos. À medida que novos estabelecimentos, como a loja de queijos de origem vegetal, abriam nas proximidades, os aluguéis ficavam mais caros.

Na campanha da Nour, ativistas contra a gentrificação encontraram um alvo aparentemente perfeito em Taylor McWilliams, diretor executivo da Hondo. Com o apoio financeiro do fundo de investimento americano Angelo Gordon, McWilliams comprou os mercados cobertos em 2018 por mais de 37 milhões de libras, cerca de US$ 46 milhões atuais, além de uma casa noturna e outra propriedade que se tornará um prédio de escritórios de 20 andares, o mais alto de Brixton.

"Ele está comprando Brixton", disse Anees Matooq, um cliente da Nour ativo no grupo Save Nour. Segundo Matooq, uma opinião predominante é que McWilliams, que se relacionou com uma ex-namorada do príncipe Harry e é uma presença habitual nos clubes de Ibiza como DJ do grupo de música eletrônica Housekeeping, queria transformar Brixton em uma área que ele e seus amigos pudessem frequentar nos fins de semana. Para muitos, McWilliams representa o que Brixton não é.

McWilliams, por sua vez, declarou que não estava interessado em modificar Brixton. Ele se questiona por que virou o vilão da história, visto que já gastou mais de 2 milhões de libras (US$ 2,5 milhões) para consertar os encanamentos, reformar os banheiros e instalar um sistema de aquecimento que manterá o centro comercial cheio durante o inverno. McWilliams suspendeu o aluguel de todos os inquilinos por três meses após o início da pandemia do novo coronavírus.

Em abril, enquanto ficavam em casa e obedeciam ao bloqueio imposto pela Grã-Bretanha, os ativistas do Save Nour se infiltraram em um concerto beneficente online em que McWilliams estava tocando. Eles se vestiram como frequentadores de casas noturnas até o começo do show de McWilliams, quando então se revelaram e começaram a importuná-lo e a criticá-lo com placas diante de mais de mil espectadores da internet. De repente, sites de música estavam escrevendo sobre o esforço para salvar a Nour.

Em junho, enfrentando uma queda nas vendas devido à pandemia, a família Shaheen estava preparando uma contestação judicial para proteger a Nour. Celebridades locais, como o chef Yotam Ottolenghi, manifestaram-se em nome da loja, e mais de 55 mil pessoas assinaram uma petição na internet.

Em 19 de junho, após uma série de negociações, um acordo foi firmado. A Nour se mudaria para um novo local no mercado, com um aluguel um pouco menor. "Parece um abraço gigante. Isso nos validou, uma família de imigrantes que vem para este país e não é britânica", comemorou Saja Shaheen na loja, na manhã seguinte, enquanto clientes paravam para parabenizar a família.

Alguns dias depois, sentado em um banco do parque próximo à Nour, McWilliams disse que a intenção nunca foi fechar o estabelecimento, mas mudá-lo de lugar para que fossem realizados os reparos. O espaço ocupado pela Nour era o único adequado para fazer as melhorias, há muito necessárias, na eletricidade do local.

De acordo com McWilliams, os protestos online causaram danos pessoais. Ativistas atingiram seus amigos, os colegas de banda e a namorada. Pessoas com quem ele não falava havia dez anos receberam mensagens de ódio. Seu empresário "efetivamente abandonou" a banda depois que outros artistas reclamaram de seu trabalho em Brixton. "Tudo faz parte dessa louca cultura de cancelamento. Isso é surpreendente para mim", concluiu ele.

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