Martin Divisek/EPA, via Shutterstock
Martin Divisek/EPA, via Shutterstock

Destino de site de notícias da Hungria mostra como uma imprensa livre morre

Origo deixou de ser crítico e virou porta-voz do governo de Viktor Orban

Patrick Kingsley e Benjamin Novak, The New York Times

12 de dezembro de 2018 | 06h00

BUDAPESTE - O principal site de notícias da Hungria, o Origo, publicou um furo de reportagem: um dos principais assessores do primeiro-ministro de extrema direita, Viktor Orban, havia usado dinheiro público para pagar despesas consideráveis - e não explicadas - durante viagens secretas ao exterior. A história causou constrangimentos a Orban e serviu como um lembrete de que seu país contava com uma imprensa livre.

Mas isso foi em 2014. Hoje, o Origo é um dos veículos de mídia que mais respeita e apoia o primeiro-ministro, ecoando seus ataques a migrantes e criticando seus oponentes políticos. O Origo agora serve de alerta para uma época em que as normas democráticas e a liberdade de expressão estão sendo desafiadas em todo o mundo. Desde que conquistou o poder em 2010, Orban vem corroendo progressivamente os controles e contrapesos institucionais, sobretudo a mídia independente. Seu governo supervisiona agências de notícias estatais, e seus aliados controlam a maioria dos veículos de mídia privados do país.

“Quando Orban chegou ao poder, em 2010, seu objetivo era eliminar o papel da mídia na fiscalização do governo”, disse Attila Mong, ex-âncora de uma rádio pública e crítico de Orban. “Ele queria introduzir um regime que mantém a fachada das instituições democráticas, mas não é operado de maneira democrática - e uma imprensa livre não se encaixa nesse esquema”.

Na superfície, as instituições democráticas da Hungria parecem estar funcionando normalmente. No papel, o Judiciário tem independência. As eleições são realizadas. As bancas de jornal estão cheias de dezenas de publicações de veículos privados. “Jamais iríamos nos rebaixar”, disse Orban em um discurso em setembro, “para silenciar aqueles de quem discordamos”.

Mas, sob a superfície, o sistema se degradou. O Tribunal Constitucional está cheio de juízes nomeados pelo partido de Orban, o Fidesz. O Judiciário e o Ministério Público são chefiados por apoiadores de Orban. O sistema eleitoral foi alterado para favorecer o partido do governo. À exceção de alguns poucos veículos online, a mídia húngara vem guardando silêncio diante desses movimentos, ou mesmo demonstrando apoio.

De acordo com o índice de liberdade de imprensa da Freedom House, a mídia húngara foi considerada a 87ª mais livre do mundo em 2017, uma queda em relação a 2010, quando ocupou a 40ª colocação. O Origo foi criado no final dos anos 1990 pela Magyar Telekom, a maior empresa de telecomunicações do país. A gigante alemã Deutsche Telekom comprou uma participação majoritária em 2005.

Depois da eleição de Orban, em 2010, ele aplicou um imposto de “emergência” sobre o setor de telecomunicações, em uma tentativa de reduzir a dívida do governo após a crise financeira global. O imposto também foi visto como parte de uma reação contra empresas estrangeiras que haviam comprado setores da economia húngara após a queda do comunismo.

Para a Magyar Telekom, o imposto significou uma conta adicional de 100 milhões de dólares. Executivos da 

empresa temiam outras notícias ruins em 2013, quando o governo de Orban deveria renovar sua licença. Antes do fim do prazo, em setembro daquele ano, as negociações determinariam quanto do mercado seria atribuído à Telekom e a que preço.

Ao longo do ano, os executivos da Magyar Telekom se encontraram com Janos Lazar, braço-direito de Orban. No outono, o Origo assinou um contrato com uma consultoria de mídia dirigida por Attila Varhegyi, ex-diretor do partido de Orban. Agora, a empresa contratada poderia sugerir direcionamentos para a cobertura jornalística. O governo, então, estendeu a licença da Magyar Telekom.

Em um comunicado, a Magyar Telekom disse que seu objetivo “nunca foi limitar a publicidade ou a liberdade de imprensa”. Varhegyi e Lazar não quiseram comentar o caso. Indignado, o editor-chefe do Origo pediu demissão. Mas seu substituto, Gergo Saling, parecia não ter medo. Em janeiro de 2014, um membro da equipe de Saling iniciou uma investigação sobre as despesas de viagem de Lazar. Os pedidos da empresa de Varhegyi para retardar o projeto foram ignorados. Saling foi demitido em junho. A decisão partiu de Miklos Vaszily, diretor-executivo do Origo. Mas veio depois de meses de pressão da cúpula da Magyar Telekom e da empresa de Varhegyi, de acordo com três pessoas da empresa.

Em protesto, vários dos melhores repórteres do Origo se demitiram. Os executivos da Magyar Telekom optaram por vender o site e anunciaram um processo de licitação, aberto em junho de 2015. O vencedor foi uma empresa chamada New Wave Media. 

Sua oferta foi financiada por fundos controlados por dois bancos, um pertencente ao governo de Orban, outro ao primo de um de seus ex-ministros. O Origo virou uma espécie de porta-voz do governo. A venda poderia ter sido uma exceção. Na época, o Origo era um dos 31 veículos de mídia sob propriedade dos aliados de Orban, de acordo com o Atlatszo, um site de notícias. Hoje são mais de 500.

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