Mary Inhea / The New York Times
Mary Inhea / The New York Times

'Desenhar se tornou um instrumento de sobrevivência', diz ex-detento

Valentino Dixon passou 26 anos na prisão, embora outro homem tenha confessado o crime; detentos apostam na arte e na jardinagem como refúgio do cárcere

Matt Wasielewski, The New York Times

20 de outubro de 2019 | 06h00

Desenhar deu esperança a Valentino Dixon. Ele  foi para a prisão por assassinato, e lá ficou por 26 anos, embora outro homem tenha confessado o crime. Seu tio o encorajou a produção artística para amenizar a dor. Ele começou desenhando até 10 horas por dia campos de golfe coloridos, inspirando-se em revistas, durante 20 anos. “A paz e a tranquilidade do golfe levaram a minha mente para outro lugar”, afirma Dixon, que foi solto em 2018. “A prisão é um lugar sombrio, e desenhar  se tornou um instrumento de sobrevivência”.

Ele saiu da prisão com cerca de 900 desenhos, um dos quais está exposto na exposição 'The Pencil Is a Key', no Drawing Center de Nova York até 5 de janeiro, que acompanha a prática secular de permitir que presos usem as artes para suportar o aprisionamento. As caricaturas de Honoré Daumier, preso em 1882 por fazer um desenho do rei Luis Felipe, estão ao lado dos retratos de Azza Abo Rebieh, uma artista síria presa pelo regime de Assad em 2015.

“Havia 70 dias na divisão de segurança, não existia nada que me fizesse sentir como um ser humano”, lembra Abo Rebieh, que atualmente vive no Líbano. “Quando comecei a desenhar na prisão, passei a acreditar que ainda estava viva”.

Na Correctional Facility de Sterling, no Colorado, os detentos se expressam em outra tradição centenária: o teatro. Arquivos mostram que prisioneiros australianos encenaram Shakespeare no século 18. Recentemente, como parte da Prison Arts Initiative da Universidade de Denver, 30 presos apresentaram uma produção de Um estranho no ninho, o romance de Ken Kesey que conta a história dos homens de uma ala de doentes mentais na década de 1960.

Humanidade

Enquanto os Estados Unidos estão às voltas com o legado de penas mínimas obrigatórias e avalia a soltura de usuários de drogas não violentos, os defensores dos programas de artes afirmam que estas iniciativas introduzem humanidade e objetivo nas vidas desoladas atrás das grades.

Para Dean Williams, diretor executivo do Departamento de Instituições Prisionais do Colorado, encenar a peça faz parte de uma estratégia mais ampla que visa tornar a vida nas cadeias algo o mais semelhante possível à vida do lado de fora, filosofia conhecida como normalização.

Williams disse a que se inspirou nos países escandinavos, onde os detentos preparam a própria refeição, interagem com pessoas de fora e têm um relacionamento menos antagônico com os guardas da prisão. “Nós tornamos a prisão um lugar de sombras, de ociosidade, um lugar sem objetivo”, lamenta . “Depois,  ficamos confusos quando estas pessoas saem e não se adaptam. Acho que cabe a nós”.

Na prisão de Rikers Island em Nova York, a normalização faz parte do objetivo de GreenHouse, a mais antiga e maior prisão jardim dos Estados Unidos. “Este é meu filho”, apresenta Mike Cruz, um detento, apontando para um girassol mexicano na área de um hectare. “Eu mesmo plantei as sementes, e olhe agora, tem um metro e meio de altura. A gente precisa ficar olhando enquanto crescem, isto faz bem. É como ter um filho”.

Ajudados por uma equipe de especialistas da Horticultural Society desde o fim dos anos 80, os detentos planejam a paisagem, constroem galpões e durante o inverno escolhem as sementes em um catálogo.

Hilda Krus, diretora da GreenHouse, defende que o jardim ajuda os presos a adquirir responsabilidade pessoal por suas ações, além das habilidades para a vida, como os cuidados com a sua pessoa, nutrição e trabalho em equipe. E  há dados que mostram que a estratégia está funcionando. Um estudo de 2008 constatou que os participantes do programa da GreenHouse apresentaram uma taxa 40% menor de novas condenações por reincidência do que os presos da população das prisões comuns. “É um trabalho com o cérebro, é como um quebra-cabeça”, compara Cruz. “É preciso imaginar qual é o conteúdo ruim que devemos eliminar para permitir que o conteúdo bom cresça”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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