Dirwang Valdez para The New York Times
Dirwang Valdez para The New York Times

Detido pela imigração, rapper indicado ao Grammy avalia futuro

'Quando você está na cadeia, o Grammy não significa nada', diz o britânico 21 Savage, que foi preso nos EUA sob acusação de ser um cidadão ilegal

Jon Caramanica, The New York Times

01 de março de 2019 | 06h00

ALPHARETTA, GEÓRGIA - Por quatro anos, 21 Savage foi um forte representante do rap de Atlanta, uma estrela em ascensão, que colaborou com Drake e Cardi B. O seu álbum I Am > I Was, lançado em dezembro, ficou duas semanas no topo da Billboard Chart, e a sua colaboração com Post Malone, “Rockstar”, foi indicada para dois Grammys. Em janeiro, ele apresentou  seu single A Lot no Tonight Show Starring Jimmy Fallon, acrescentando um verso sobre as crianças separadas dos pais na fronteira.

Dias mais tarde, 3 de fevereiro, 21 Savage (She’yaa Bin Abraham-Joseph) foi preso pela polícia de fronteira dos Estados Unidos, que o acusou de ser “um cidadão do Reino Unido ilegal” no país, com o visto de ingresso vencido. Ficou preso até 13 de fevereiro. No dia seguinte, ele contou que sua situação com a imigração nunca foi definida. Abaixo, alguns trechos de sua entrevista.

Você lembra de quando chegou aqui, menino ainda?

Claro, aqui tudo era muito grande. Eu venho do lado pobre de Londres. A casa da minha avó era mínima. Então, quando chegamos, fomos morar em um bairro, mas tudo era muito maior. O tamanho do banheiro, era diferente. Eu adorei.  

Você tinha sotaque britânico?

 Sei que tinha um sotaque, mas faz 20 nos que vivo aqui - não sei o que aconteceu com ele.

Lembra de quando soube de que a sua situação não estava definida?

Provavelmente na idade em que as pessoas tiram carteira de motorista. Nunca pude tirar, nunca podia conseguir um emprego. Mais ou menos nessa idade.

Você queria resolver tudo isso?

Parecia uma coisa impossível. Porque ainda não consegui, tenho 26 anos, e sou um cara rico. Então, aprendi a viver sem isso. Como um monte de outros imigrantes. Nós lutamos, mas não conseguimos os cartões de alimentação, não conseguimos assistência do governo. Eu aprendi a viver sem.

A situação ensinou a você a agir de determinada maneira?

Eu me tornei o que sou. Eu não faria de nenhuma outra maneira se tivesse a chance. Ainda quero fazer as coisas direito porque esta situação me tornou o que sou.

Você sabia que não poderia permanecer neste país?

Claro. Era o meu maior pesadelo. É por isso que sempre tentam corrigir isto. Mesmo que você tenha dinheiro, não é fácil. Não é nenhum favoritismo, e eu respeito isto. Seria uma bagunça se tratassem os imigrantes ricos melhor do que os imigrantes pobres.

O que você acha que aconteceu na sua vida que lhe deu uma perspectiva diferente?

Foi o que estava em jogo. O negócio é que tenho três filhos, minha mãe, tudo o que sei está aqui em Atlanta. Não vou sair de Atlanta sem lutar.

Ficou aborrecido por perder o Grammy?

Quando você está na cadeia, o Grammy não significa nada.

Você sente a responsabilidade de falar das circunstâncias da sua vida?

Claro, sinto esta responsabilidade. A minha situação é importante porque eu represento os americanos pretos pobres e represento os americanos imigrantes.

Você sente a urgência de colocar alguma parte desta experiência na música?

Não imediatamente, porque acho que ter colocado isto na música me deixou nesta situação.

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