Gracia Lam/The New York Times
Gracia Lam/The New York Times

Deveríamos comer como os homens das cavernas?

Dieta inspirada no período Paleolítico está famosa, mas os seres humanos e a comida evoluíram nesses 2,5 milhões de anos

Jane E. Brody, The New York Times

29 Agosto 2018 | 10h15

Nos dias de hoje, parece que cada três pessoas que conheço já estão fazendo a dieta do “Paleolítico” ou planejam experimentá-la. O objetivo é perder peso ou ter uma saúde melhor.

A principal premissa da dieta paleolítica é: se os homens das cavernas não comiam, nós também não deveríamos. Mas será este o conselho de um nutricionista?

Aqui estão três fatos básicos:

1. Não existe “uma” dieta paleolítica. O período Paleolítico durou 2,5 milhões de anos e envolveu populações com uma ampla variedade de dietas determinadas pelo clima, geografia, estação do ano e dos alimentos disponíveis.

2. Os seres humanos de hoje e os alimentos que eles consomem não são os mesmos da época do Paleolítico. Mudanças genéticas e os cruzamentos produziram organismos muito diferentes por ambos os motivos.

3. Não existem estudos sobre grandes grupos de pessoas que seguiram a dieta paleolítica ao longo de dezenas de anos para avaliar seus efeitos para a saúde a longo prazo.

É preciso lembrar que a expectativa de vida dos seres humanos, antes do advento da agricultura, há 15 mil anos, raramente chegava ou ultrapassava os 40 anos, de modo que o risco de eles sofrerem das chamadas doenças da civilização é desconhecido.

Há uma única premissa básica na dieta paleolítica que poderia beneficiar a saúde de um indivíduo: evite todos os alimentos industrializados. Por outro lado, a dieta enfatiza o consumo de carnes magras, peixe, frutas, legumes, sementes e nozes, e desencoraja alimentos que se tornaram comuns com a agricultura, como grãos e derivados do leite.

Mas será uma dieta prática? Quantas pessoas que precisam levar os filhos para a escola e se preparam para ir ao trabalho terão tempo para grelhar o salmão? E poderão viver felizes sem um pedaço de pão, uma bolacha salgada ou um sorvete?

Uma dieta do Mediterrâneo, atualmente promovida pela maioria dos nutricionistas e dos pesquisadores que estudam a alimentação, é muito mais fácil de incorporar à vida moderna. Além disso, é melhor balanceada em ternos nutricionais e muito mais saborosa.

A dieta do Mediterrâneo tem apenas pequenas porções de alimentos de origem animal, e se baseia mais em proteínas vegetais como feijão e ervilhas. Inclui azeite de oliva e outras gorduras monoinsaturadas. É mais variada, menos pesada para o meio ambiente, e mais fácil de se encaixar nas exigências da vida.

Mas vários estudos de curto prazo sugerem que a dieta paleolítica é mais eficiente do que a do Mediterrâneo no que se refere à perda de peso e à redução de fatores de risco para o diabetes Tipo 2 e as cardiopatias.

Uma afirmação comum dos que seguem a dieta paleolítica é que nós somos os únicos mamíferos que tomam leite depois de sermos desmamados. Muitas pessoas perdem a capacidade de digerir a lactose do leite já na infância. Mas Marlene Zuk, uma bióloga evolucionista da Universidade de Minnesota, disse que muitos outros desenvolveram a capacidade de produzir a enzima lactase que transforma a lactose. 

Esta mudança ocorreu durante os últimos 5 mil a 7 mil anos e é apenas um exemplo de como os seres humanos podem mudar e de fato mudaram, e relativamente depressa. E embora seja aconselhável comer muito menos massas, principalmente farinha de trigo e grãos refinados, que os nossos organismos transformam rapidamente em açúcar, Zuk observa que as pessoas continuaram desenvolvendo genes para a amilase, a enzima que quebra os amidos no intestino delgado.

Também é verdade que o nosso microbioma - os bilhões de organismos que residem no nosso organismo - hoje é muito diferente do que era no Paleolítico.

Os homens do Paleolítico eram caçadores-coletores e passavam a maior parte de suas horas de vigília andando e correndo em busca de alimentos, e ainda gastavam muito mais tempo no preparo para consumi-los.

Se você está disposto a fazer tudo isso, vá em frente.

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