Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

Devolvendo à Rússia crianças criadas pelo Estado Islâmico

A coalizão liderada pelos americanos encontrou, em meio às ruínas na Síria, centenas de crianças filhas de russos que se uniram ao EI

Andrew E. Kramer, The New York Times

04 Março 2018 | 10h00

GROZNY, Rússia - Todos os dias, Belant Zulgayeva fica preocupada ao ver os netos ocupados com brincadeiras violentas, algo que ela chama de “a guerrinha deles”. As crianças raramente falam, mas correm pela casa, se escondem e, às vezes, jogam umas às outras no chão com ferocidade.

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Belant Zulgayeva faz parte de um esforço do governo russo para trazer para casa e cuidar de crianças russas como os três netos dela, criados por militantes do Estado Islâmico (EI), também conhecido como ISIS.

 

Conforme as forças da coalizão liderada pelos americanos e do governo sírio capturaram cidades antes mantidas pelo EI, elas encontraram nas ruínas o sombrio saldo humano dos esforços de recrutamento dos radicais, antes bem-sucedidos: centenas e até milhares de crianças nascidas ou trazidas com os homens e mulheres que vieram à Síria para se juntar aos insurgentes.

Embora a Rússia, que desde agosto trouxe de volta 71 crianças e 26 mulheres, possa parecer leniente na aplicação dessa política, suas ações refletem um cálculo de segurança bastante lógico: é melhor trazer as crianças de volta para os avós agora do que permitir que cresçam em campos e, possivelmente, voltem como adultos radicalizados.

"O que deveríamos fazer, deixá-las lá para que alguém as recrutasse?", disse Ziyad Sabsabi, senador russo que administra o programa do governo. "É claro que essas crianças testemunharam coisas horríveis, mas, quando as colocamos num ambiente diferente, com os avós, elas mudam rapidamente".

Os governos europeus demonstraram pouca compaixão pelos rapazes que aderiram ao EI. Rory Stewart, ministro britânico do desenvolvimento internacional, disse à BBC que "a única maneira de lidar com eles será matá-los, quase invariavelmente".

Mas a maioria dos países europeus, incluindo a Grã-Bretanha, adotou uma abordagem mais branda no repatriamento da maioria das mulheres e dos cerca de mil filhos de militantes da União Europeia que combateram na Síria. A França colocou a maioria dos 66 menores que voltaram ao país em lares adotivos. Alguns foram morar com parentes. Outros (mais velhos, que foram combatentes) foram encarcerados.

Os analistas estimam que até 5 mil parentes de recrutas terroristas estrangeiros estão agora encalhados em campos e orfanatos do Iraque e da Síria. Rússia e Geórgia são os dois países que mais ajudam os parentes a voltar para casa, disse Liesbeth van der Heide, autora de um estudo publicado em meados do ano passado em Haia.

Como reconheceu Sabsabi, muitas, senão a maioria, das crianças que voltam foram expostas a atos indescritíveis de violência macabra, incluindo a participação em vídeos de execuções. Muitas crianças ficaram insensíveis à violência, em razão da incessante doutrinação, do treinamento paramilitar e do envolvimento uma série de outros crimes.

"Temos de levar em consideração a possibilidade de essas crianças serem bombas-relógio vivas", disse O diretor de espionagem doméstica da Alemanha, Hans-Georg Maassen.

Não é fácil projetar essa imagem em Bilal, 4 anos, um menino cabeludo que voltou à Rússia em meados do ano passado.

Ele imita o barulho dos carros e empurra um brinquedo em volta da mesa da cozinha no apartamento de sua avó em Grozny, capital da Chechênia. Ele não fala muito sobre o período em que esteve no Iraque, diz a avó, Rosa Murtazayeva, mas é óbvio que ele continua muito ligado ao pai, Hasan.

Com a aproximação das forças lideradas pelos EUA, pai e filho sobreviveram como animais acossados nos porões de Mossul. Bilal lembra de pouca coisa além das batatas cozidas com as quais eles sobreviviam. "Estava com o papai", disse Bilal. "Não havia outros meninos".

Depois de serem capturados, o pai desapareceu nas prisões iraquianas. Magro e sujo quando foi encontrado, Bilal aparenta agora estar bem. A avó, Rosa Murtazayeva, diz que o menino tem muitos amigos. 

Mas algumas das crianças permanecem mudas, apesar da terapia.

Hadizha, 8 anos, foi encontrada numa rua de Mossul. A avó a identificou a partir de uma foto publicada por um grupo humanitário. Estava deitada num esgoto, com ataduras no braço e no queixo por causa das queimaduras.

Não se sabe o que houve com a mãe, os dois irmãos e a irmã dela, disse a avó, Zura, que não informou seu sobrenome para proteger a privacidade da criança. Ela cuida de Hadizha num pequeno vilarejo da Chechênia.

"Perguntei a ela, 'O que aconteceu?', mas ela não quer responder", disse Zura. "Quero manter a esperança de encontrá-los com vida. Mas ela fala com certeza. Diz que foram todos mortos a tiros, mas que ela ergueu as mãos e disse em árabe, 'Não atirem', e assim conseguiu se salvar".

Hadizha passa os dias encolhida num sofá, com olhar distante e furioso, assistindo à TV. "Ela não precisa de mais nada", disse a avó. "Está em silêncio".

Outros tiveram uma recuperação melhor. Adlan, 9 anos, foi com a família para a Síria, mas voltou sozinho, trazido pelos russos que trabalham no programa de repatriamento.

Ele diz que, no Estado Islâmico, frequentava a escola, andava de bicicleta e brincava de pegador com outras crianças que falavam russo. Segundo ele, durante a batalha de Mossul, algo explodiu na sua casa, matando sua família. "Ele diz que viu a mãe, o irmão e as irmãs, e estavam todos dormindo", contou o avô checheno, Eli, que também preferiu ocultar o sobrenome.

Quando um psicólogo pediu a ele que fizesse um desenho, Adlan desenhou uma casa com flores, algo considerado um bom sinal. "Acho que vai passar. Ele ainda é pequeno e tem memória de criança", disse Eli, esperançoso.

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