Danial Shah para The New York Times
Danial Shah para The New York Times

Dez centavos que podem ajudar o Paquistão a construir represas

País enfrenta crise orçamentárias, com déficit recorde de 18 bilhões de dólares

Meher Ahmad, The New York Times

02 Novembro 2018 | 06h00

ISLAMABAD, PAQUISTÃO - Pav Akhtar não costuma se deixar seduzir por campanhas que pedem doações na TV. Ele e os irmãos repreendem a mãe por assisti-los nos canais paquistaneses de TV a cabo onde moram, na Inglaterra.

Mas, quando ele viu um apelo num noticiário paquistanês pedindo aos paquistaneses no exterior que doassem para uma nova iniciativa, ele enviou seu dinheiro sem hesitação.

“Não se trata de um apelo genérico por contribuições", disse Akhtar, 40 anos. “Temos uma demanda específica e desejamos um resultado específico, e isso me motiva.”

Akhtar não estava doando para uma campanha de caridade. Sua contribuição ia para o governo.

Com problemas financeiros, o Paquistão está promovendo uma campanha no estilo do financiamento coletivo na tentativa de conseguir os 14 bilhões de dólares previstos para a construção de duas represas, que, de acordo com as autoridades, solucionarão a falta crônica de água e eletricidade no país.

Os doadores são vistos com frequência nos noticiários da TV.

Anúncios veiculados pelo rádio em todo o país imploram aos cidadãos comuns que doem quantias de até 10 rúpias (menos de 10 centavos de dólar) pelo telefone. Celebridades paquistanesas anunciaram suas próprias doações substanciais nas redes sociais, fazendo apelos aos fãs para que doassem também.

O país enfrenta uma crise orçamentária envolvendo a folha de pagamentos, com um déficit recorde de 18 bilhões de dólares em conta corrente no mais recente ano fiscal.

Recentemente, o Paquistão anunciou que tinha obtido um pacote de ajuda de 6 bilhões de dólares oferecido pela Arábia Saudita para ajuda a combater a crise.

Com o Paquistão ainda debatendo um possível resgate multibilionário do Fundo Monetário Internacional, é provável que a assistência saudita seja inferior ao valor solicitado. E o Paquistão já recebeu vários bilhões de dólares da China, sua principal aliada regional, sob a forma de empréstimos de emergência.

Outras portas foram fechadas este ano quando os Estados Unidos congelaram a ajuda ao Paquistão, devolvendo o país a uma “lista cinzenta" internacional. Em ambos os casos, a decisão foi tomada porque o Paquistão não estaria fazendo o bastante para combater grupos terroristas que operam em seu território.

Com poucas alternativas restantes, o governo está apelando diretamente ao povo. O projeto da represa parece uma forma improvável de unir os paquistaneses, que, nos anos mais recentes, cansaram-se dos escândalos de corrupção e do mau estado dos serviços públicos. A construção das represas ainda não começou, e mesmo as estimativas mais otimistas dizem que elas só estarão funcionais daqui a pelo menos uma década.

No dia 8 de setembro, o novo primeiro-ministro, Imran Khan, fez um apelo na televisão endereçado aos nove milhões de paquistaneses que vivem no exterior, pedindo que doassem pelo menos US$ 1.000 cada. 

Até 8 de outubro, essas doações chegavam a aproximadamente 3 milhões de dólares.

Trata-se de uma pequena fração dos 48 milhões de dólares captados depois que o governo abriu uma conta bancária para as doações em julho. Uma emissora de TV paquistanesa destacou que, no ritmo atual, o financiamento para a empresa chegará ao total pedido em 120 anos.

Para os críticos, mesmo que as autoridades consigam captar o dinheiro, as represas não serão a solução mágica que o governo paquistanês quer vender aos doadores.

O hidrólogo Hassan Abbas disse que o governo espera se beneficiar politicamente com o projeto, mas a escassez de água do Paquistão decorre na verdade do ultrapassado sistema de irrigação herdado dos colonos britânicos, que tem mais de 100 anos em algumas regiões. A cara construção de uma represa não pode corrigir um problema que ocorre na ponta dessa cadeia, disse ele.

Akhtar, o doador que mora na Inglaterra, disse não se arrepender de sua decisão. Debater eternamente os méritos das represas só servirá para manter o Paquistão sem sair do lugar, disse ele: “É como discutir enquanto Roma arde".

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