Andrew Urwin para The New York Times
Andrew Urwin para The New York Times

Diamantes ‘de brincadeira’ feitos por máquinas

A De Beers está entrando no negócio de joias sintéticas

Elizabeth Paton e Vanessa Friedman, The New York Times

08 Junho 2018 | 15h00

OXFORDSHIRE, INGLATERRA - Em um edifício branco nas colinas do interior da Inglaterra, a 25 quilômetros de Oxford, ouve-se o zumbido de máquinas prateadas como naves espaciais em laboratórios enormes.

É o Element Six Innovation Center, o braço industrial da De Beers, companhia proprietária de minas do Ártico à África do Sul, que criou o mercado global de diamantes (e o controlou na maior parte do século 20), e convenceu o mundo de que “um diamante é para sempre”, tornando os diamantes inseparáveis dos anéis de noivado.

No Oxfordshire, as máquinas replicam a pressão extrema e as temperaturas registradas muito abaixo da crosta terrestre, e produzem, em poucas semanas, o que historicamente a natureza só conseguiu ao longo de bilhões de anos: diamantes perfeitos.

Entrando no lucrativo mercado que tradicionalmente evitava, a De Beers criou a Lightbox, uma marca de joias da moda para vender gemas de baixo custo com o apelo do mercado de massa. Pedras e pingentes vermelhos, brancos e azul bebê fabricados em laboratórios que custam de US$ 200, com um quarto de quilate, a US$ 800, de um quilate, serão oferecidos em caixas de presente de papelão nas cores pastel e, de início, vendidos diretamente aos consumidores no comércio eletrônico.

Embora os diamantes produzidos por companhias como a Diamond Foundry, nos Estados Unidos, e a New Diamond Technology da Rússia, em geral, custem 30% a 40%  menos do que seus equivalentes naturais, o seu preço não chega nem perto dos da Lightbox, que acabarão sendo aproximadamente 75% inferiores aos das suas concorrentes.

A ideia seria impensável até mesmo há dois anos, quando a De Beers participava da campanha “O real é raro”, que combatia a promoção das pedras sintéticas como alternativa aos diamantes extraídos do solo. Embora as pedras fabricadas representem apenas cerca de 2% da oferta da indústria de diamantes, os analistas do Citibank previram um possível aumento para 10%, até 2030.

Quimicamente idênticos aos diamantes extraídos do solo, os sintéticos são usados há muito tempo para fins industriais. A própria De Beers produz diamantes na Element Six há 50 anos, fabricando gradativamente pedras de uma mistura de gás hidrocarboneto em um reator de alta pressão e temperatura elevada.

Mas quando os concorrentes no Vale do Silício começaram a comercializar seus produtos sintéticos como alternativas mais verdes, aceitáveis, a De Beers decidiu levar a luta pela fatia de mercado ao terreno do laboratório. Juntamente com as operações de alta pressão e temperatura elevada, a Element Six utiliza um processo mais novo conhecido como C.V.D., ou deposição de vapor químico, que emprega baixas pressões em um vácuo repleto de gases que reagem criando camadas de carbono, as quais gradativamente se consolidam em uma única pedra. O novo método é mais barato e mais fácil de monitorar.

“Os produtos sintéticos jamais chegarão a ser um negócio tão grande quanto o das nossas pedras naturais, e os nossos investimentos no espaço diminuíram consideravelmente em relação aos de outros lugares”, afirmou Bruce Cleaver, diretor executivo. “Mas nós desfrutamos de uma enorme vantagem comparativamente a todos os outros, considerando o know-how e a infraestrutura fornecida pela Element Six. Por isso, decidimos levar isto muito a sério”.

O que está em discussão é quase uma questão metafísica a respeito do que define um diamante.

Será sua estrutura química, que é o argumento dos produtores sintéticos? Ou a sua procedência: uma pedra criada nas profundezas da Mãe Terra, e não produzida por uma máquina?

Os consumidores estão confusos. Uma pesquisa mostrou que 68% não consideram os sintéticos, diamantes autênticos; 16% acham que são, e 16% não têm certeza. Mas existem novos produtos que poderão transformar o mercado de diamantes, porque os de laboratórios têm a possibilidade de ser reproduzidos indefinidamente.

Para Sally Morrison, diretora de marketing da Lightbox, os produtos da marca se destinavam a ser considerados acessórios lúdicos pelos consumidores.

Cleaver afirmou: “Os sintéticos são divertidos e da moda, mas não são diamantes reais de acordo com o meu manual. Não são raros nem são presenteados em grandes momentos da vida. E nem deveriam ser”.

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