Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

A jornada do dicionário do latim: de A a Zythum em 125 anos (e contando)

Pesquisadores na Alemanha trabalham no Thesaurus Linguae Latinae desde a década de 1890. Eles esperam terminar em 2050, mas isso pode ser otimista

Annalisa Quinn, The New York Times

11 de dezembro de 2019 | 06h00

MUNIQUE - Quando pesquisadores alemães começaram a trabalhar em um novo dicionário de latim em 1890, pensaram que poderiam terminar a obra em 15 ou 20 anos. Nos mais 125 anos desde então, o Thesaurus Linguae Latinae (T.L.L.) viu a queda de um império, duas guerras mundiais e a divisão e reunificação da Alemanha. Enquanto isso, eles chegaram na letra R.

Este dicionário tem como objetivo mostrar de que maneira alguém já usou uma palavra, desde as primeiras inscrições em latim no século VI a.C. até por volta de 600 d.C. O fundador, Eduard Wölfflin, que morreu em 1908, descreveu as entradas no T.L.L. não como definições, mas como "biografias" de palavras.

A primeira entrada, para a letra A, foi publicada em 1900. O T.L.L. espera escrever sobre sua palavra final - “zythum”, uma cerveja egípcia - até 2050. A obra produziu, até agora, 18 volumes de páginas enormes com texto minúsculo, a partir do trabalho coletivo de quase 400 pesquisadores, muitos deles mortos há muito tempo. As letras Q e N foram deixadas de lado, porque elas iniciam muitas palavras difíceis, então os pesquisadores terão que voltar atrás no trabalho para escrever sobre elas também.

"Sua escala é prodigiosa", disse David Butterfield, professor sênior do departamento de Letras Clássicas da Universidade de Cambridge, acrescentando que, quando a primeira publicação apareceu em 1900, "não passou despercebido que a palavra que finalizava o fascículo era 'absurdus?'."

Outrora a língua de um vasto império físico, e, depois, de um vasto império espiritual, o latim agora é falado principalmente no Vaticano e entre alguns entusiastas. Mas, por ter sido a principal língua literária da Europa há mais de mil anos, o latim é "a chave para uma parte considerável da história da humanidade", disse Michael Hillen, diretor do projeto.

O T.L.L. está alojado em um antigo palácio. Dezesseis funcionários em período integral e alguns lexicógrafos visitantes trabalham em escritórios e em uma biblioteca, que contém edições de todos os textos latinos sobreviventes anteriores a 600 d.C. e cerca de 10 milhões de tiras de papel amareladas, dispostas em pilhas de caixas até o teto.

Há um pedaço de papel para cada trecho de escrita sobrevivente do período clássico. As palavras, organizadas cronologicamente, são apresentadas em contexto: elas provêm de poemas, prosa, receitas, textos médicos, recibos, piadas sujas, grafites, inscrições e tudo mais que sobreviveu às vicissitudes dos últimos dois mil anos.

A maioria dos estudantes de latim lê do mesmo cânone rarefeito sem muito contato com a forma como o idioma era usado na vida cotidiana. Mas o T.L.L. insiste que a pessoa anônima que insultou um inimigo com pichações na parede de Pompéia é uma testemunha tão valiosa do significado de uma palavra latina quanto um poeta ou imperador. (“Phileros spado”, lê-se em uma, ou “Phileros é um eunuco.”)

Cerca de 90 mil notas representam o uso da palavra "et", que geralmente significa "e", mas também pode significar uma variedade de coisas ligeiramente diferentes, incluindo "par", "e também", "e depois", "além do mais", et cetera. O livro de visitas fora da biblioteca contém, em letras fracas, o nome de Joseph Ratzinger, mais conhecido como Papa Bento XVI. Ele veio consultar as caixas para "populus", que significa "massas" ou "pessoas".

Vários funcionários do T.L.L. morreram na Primeira Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra, o material foi transferido para um mosteiro a fim de escapar do bombardeio de Munique. Em resposta aos temores nucleares, tudo foi copiado para microfilmes, que foram colocados em um bunker abaixo da Floresta Negra, onde permanece até hoje.

Originalmente era um projeto de uma empresa estatal alemã, mas agora o T.L.L. tornou-se internacional. Christian Flow, um estudioso americano visitante, disse que a duração do projeto também é sinônimo de sua força. "A ironia é que a atemporalidade do dicionário de sinônimos", disse Flow, está "em sua incapacidade de se terminar". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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