Nikolaj Osorio
Nikolaj Osorio

Música questiona o conceito de identidade dinamarquesa

Uma das canções selecionadas para a 19ª edição do The High School Songbook, antologia de músicas matinais cantadas em conjunto, fala sobre imigração e gera debate

Lisa Abend, The New York Times

25 de agosto de 2019 | 06h00

COPENHAGUE - O número de pessoas reunidas no saguão da biblioteca central de Copenhague era reduzido. Mas o que elas não tinham em números compensavam em prazer. Acompanhadas ao piano e segurando livros de músicas, cerca de 90 pessoas,  com idades entre os 11 e acima dos 70 anos, cantavam a todos pulmões quatro músicas selecionadas para o dia. “O morgensang sempre faz com que eu me sinta muito melhor”, disse Christina Walldeskog, de 31 anos. “Quem não ficaria feliz cantando estas canções em conjunto?”.

Na Dinamarca, o morgensang - canções matinais cantadas em conjunto - é uma tradição cultural muito apreciada. No entanto, recentemente, uma controvérsia a respeito das seleções planejadas para a 19ª edição do The High School Songbook, a preciosa antologia de morgensang do país, ameaça comprometer a genialidade.

Entre as melodias que estão sendo cogitadas há uma apresentada pelo rapper Isam B., intitulada Ramadan in Copenhagen. Segundo alguns críticos, uma canção sobre um feriado islâmico não se enquadra na antologia.

O legado do livro de músicas

O livro de músicas foi usado desde o século 19 nas escolas populares de segundo grau da Dinamarca, nas instituições residenciais populares (espécies de internatos) que ofereciam cursos para pessoas acima dos 18 anos. Nelas, os morgensang eram um elemento cultural fundamental, e o livro, um poderoso símbolo de identidade nacional.

A imigração aqui é uma questão que divide a população, e a ansiedade que ela provoca gerou uma série de reações, como a proibição da burqa e um debate para decidir se as lanchonetes da escola deveriam servir bolinhos de carne de porco. Entretanto, estes conflitos em um país outrora homogêneo são uma guerra mais fundamental a respeito do que significa ser dinamarquês - e isto inclui as canções dinamarquesas.

Cada edição do High School Songbook manteve os clássicos, mas as canções fora de moda são retiradas para deixar espaço às mais novas. Para o próximo livro, uma comissão de seleção chefiada pelo acadêmico aposentado Jorgen Carlsen convidou autores de canções de grupos pouco representados para participar de uma oficina a fim de produzirem canções novas. “Quatro ou cinco por cento da população dinamarquesa é descendente de muçulmanos”, afirmou. “Achamos que seria bom se o High School Songbook dinamarquês contivesse uma canção sobre estas pessoas e refletisse a sua realidade”, sugeriu.

Isam B., cujo nome completo é Isam Bachiri, adorou a ideia. “Se eu for o primeiro muçulmano pardo que contribuirá para este livro, vou contar para vocês como é a minha Dinamarca”. Mas políticos  conservadores denunciaram a canção. “Não, não, não! Uma música do Ramadan não tem nada a ver com a antologia da Dinamarca”, tuitou o Partido Popular Dinamarquês. Em uma entrevista  com o jornal Berlingske, a Aliança Liberal acusou o comitê de “sinalizar em termos ideológicos visões multiculturais”.

Bachiri considera este tipo de crítica uma  falta de disposição  a reconhecer a realidade. “Eles querem manter a Dinamarca branca”, disse referindo-se aos que querem excluir a canção. “Mas a Dinamarca não é mais só branca. E se uma canção pode ameaçar toda a sua identidade nacional, eu diria que vocês estão às voltas com uma crise de identidade”.

As canções morgensang já causaram desentendimento antes. Em 2018, um professor da Copenhagen Business School, Mads Mordhorst, pediu desculpas depois que um professor filho de imigrantes fez objeções ao fato de que um clássico, The Danish Song Is a Young Blond Girl, fazia com que ela se sentisse excluída quando cantada em uma reunião da escola. “Depois que a professora Mordhorst anunciou que a canção deixaria de ser incluída em todas as cerimônias da escola, vários políticos reclamaram, até o primeiro-ministro da época".

O público evidentemente não sabe se Ramadan in Copenhagen chegará à final até a 19ª edição sair, em novembro de 2020. Mas Bachiri ama a ideia de os dinamarqueses do país inteiro cantando as suas letras.  “Isto faria história”, projetou.

Taus Christiansen, um participante assíduos do morgensang, concordou. “A Dinamarca mudou, e eu acho que uma canção sobre o Ramadan se enquadra perfeitamente na identidade da Dinamarca hoje”, indicou. “Mas a melodia é muito complexa, e a letra é muito pessoal. Portanto  para mim, a questão é saber se ela é adequada para ser cantada em coro”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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