Martin Selsoe Sorensen para The New York Times
Martin Selsoe Sorensen para The New York Times

Dinamarca planeja cerca para evitar uma doença de porco. Será que vai dar certo?

Vírus da febre suína africana representa grave ameaça à produção de suínos

Martin Selsoe Sorensen, The New York Times

03 Novembro 2018 | 06h00

TONDER, DINAMARCA - Na tentativa de deter a disseminação de uma doença que pode acabar com as populações nacionais de suínos, a Dinamarca pretende construir uma cerca ao longo da fronteira com a Alemanha para afastar os primos selvagens dos suínos dinamarqueses. Mas o plano esbarra em alguns problemas.

Para frustração do governo, muitos no país consideram que a cerca visa deter muito mais do que apenas porcos. As pessoas a consideram uma medida possível para bloquear a entrada de refugiados, um prejuízo para a vida selvagem, um remanescente de uma história dolorosa, ou uma violação da ética que impera na da União Europeia a respeito de fronteiras invisíveis e da livre movimentação.

Contudo, há escassas evidências científicas de que a medida irá funcionar. “Precisamos entrar na imaginação de um porco”, disse Bent Rasmussen, que é o encarregado pelo projeto. “Não é fácil”.

O vírus da febre suína africana representa uma grave ameaça à produção de suínos, um dos principais 

produtos de exportação da Dinamarca. Ele se espalha de maneira rápida e é extremamente resistente, capaz de sobreviver durante meses nos derivados e nas fezes. Não existe uma vacina ou um tratamento contra o vírus, e a única maneira de  conter uma epidemia é abatendo a população, como a Romênia fez recentemente, matando 230 mil porcos.

O vírus em geral é inofensivo para os seus hospedeiros tradicionais, animais como os javalis africanos e os porcos do mato africanos, assim como para as pessoas. Mas nos porcos domésticos e nos javardos (javalis) causa febre hemorrágica frequentemente letal. Nos últimos anos, espalhou-se na Rússia. Epidemias foram relatadas na Romênia, Bélgica, Bulgária e em sete províncias da China.

A Dinamarca investiu 20 milhões de dólares para combater a epidemia, o que inclui uma campanha de conscientização pública, ampla permissão para matar javalis, e uma cerca de cerca de 1,5 metros de altura ao longo de aproximadamente 70 quilômetros de fronteira, atravessando o pescoço da península do Jutland, do Mar do Norte ao Báltico.

Na Dinamarca, a construção da cerca deverá começar no início do próximo ano, embora os ambientalistas tenham apelado para a União Europeia para impedi-la. A cerca terá aberturas coincidindo com 15 cruzamentos oficiais na fronteira, cinco cursos de água e passagens para produtores agrícolas locais com o objetivo de permitir a movimentação de pessoas e mercadorias.

A esperança é que cervos e lontras consigam atravessar a fronteira, mas os javalis sejam barrados. 

Os críticos perguntam por que isto deveria funcionar, dado que os javalis são inteligentes e curiosos, e percorrem grandes distâncias em busca do seu alimento. Em um relatório  divulgado no verão, a Agência Europeia de Segurança dos Alimentos concluiu que “não há provas de que grandes cercas sejam eficientes para a contenção de suídeos selvagens”, o termo técnico para definir a família dos porcos.

“É como criar o próprio fundo de pensão comprando um bilhete de loteria”, disse Hans Kristensen, um caçador e fundador de um grupo de Facebook que se opõe à cerca.

Especialistas observam que o surto belga de febre suína africana ocorreu longe de outros animais, indicando que foram as pessoas, e não os porcos, que transportaram o vírus. “A difusão da ASF a grandes distâncias pode acontecer a qualquer momento em toda a Europa,” afirmou o dr. Klaus Depner do Instituto Federal de Pesquisa da Saúde Animal na Alemanha. “As cercas não podem impedir estes eventos”.

O plano inclui a instalação de câmeras nos pontos em que as estradas atravessam a cerca, para gravar com que frequência os javalis conseguem burlá-las. O Partido Popular Dinamarquês, de direita, indagou ao ministro da Justiça a respeito do uso de câmeras para procurar as pessoas que atravessam a fronteira ilegalmente.

Este tipo de conversa irrita Henrik Refslund Hansen, um produtor agrícola. “Não é uma cerca de fronteira”, ele disse. “Não quero ouvir falar disso. É uma cerca veterinária para proteger os nossos animais”.

A cerca é um motivo de mal-estar para a minoria étnica dos alemães da Dinamarca, composta de cerca de 15 mil pessoas. Jorgen Popp Petersen, um criador de porcos e representante do partido político da minoria, lembra de “fanáticos” na sua infância que resistiam aos casamentos intercomunitários e pediam um novo traçado da fronteira. Os fanáticos e os seus pontos de vista já vão longe, ele disse, mas as sensibilidades a respeito das divisões étnicas e das fronteiras nacionais persistem.

O ministro do Meio Ambiente e da Alimentação da Dinamarca, Jakob Ellemann-Jensen, disse que compreendia esta sensibilidade.

“É extremamente anti-europeu construir cercas e fronteiras entre países”, afirmou. “Eu luto pela livre movimentação em todos os outros contextos. Se está correta neste contexto é porque o que está em risco é uma grande parcela das exportações”.

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