Jasper Juinen para The New York Times
Jasper Juinen para The New York Times

Direita e esquerda disputam a propriedade da cultura viking

Símbolos são cooptados pelo neonazismo, movimentos pagãos e orgulho gay

Richard Martyn-Hemphill e Henrik Preyser Libell, The New York Times

21 Março 2018 | 15h00

RUNTUNA, SUÉCIA - Os gritos de “Hell!” “Hell” (Inferno! Inferno!) ecoavam na paisagem coberta de neve e atraíam uma multidão curiosa. No pé de um antigo túmulo viking, um grupo de adoradores pagãos concluía uma cerimônia de sacrifício.

Não se tratava de satanistas. Suas invocações eram uma saudação na antiga língua nórdica.

“Hell” também  lembra a palavra alemã “Heil!” e suas associações às saudações nazistas. Esta ligação linguística obriga estes adoradores pagãos, cujas crenças têm um forte conteúdo nacionalista, a repudiar qualquer relação com as facções neonazistas.

No atual boom de programas de TV e de filmes  relacionados aos vikings, há uma crescente tensão por causa do uso de várias runas, deuses e rituais daquela era.

Os símbolos viking são usados frequentemente em iniciativas de marketing de barbearias a barras de chocolate, à equipe de esqui alpino da Noruega. Um grupo pagão, Forn Sed, encorajou o uso dos símbolos viking, como o martelo de madeira de Thor, como um ícone do orgulho gay.

Mas certos usos destes símbolos refletem um caráter extremista do renascimento cultural viking.

Grupos que se declaram neonazistas, como o Movimento de Resistência Nórdica, dizem que se inspiraram na era viking.

Os vikings “simbolizam tudo que diz respeito aos europeus do norte”, afirmou Haakon Forwald, um porta-voz do capítulo norueguês do grupo. “Nós adoramos a aventura, gostamos do risco e nos estabelecemos onde homem nenhum ousaria estabelecer-se”.

Esta associação preocupa as operadoras de turismo que exploram o tema viking, assim como arqueólogos, runólogos e historiadores estudiosos da era dos vikings, que temem que a adoção dos símbolos viking por estes grupos marginais imprima um significado negativo em uma marca, uma mostra de museu ou um ato de adoração.

Tudo isto provocou uma forte reação negativa nos países nórdicos, tanto por parte dos torcedores  esportivos quanto de organizações de base como “Vikings Contra o Racismo”.

O amplo uso destes símbolos é um sinal do escasso conhecimento da era viking, afirmou Frederik  Gregorius, professor da Universidade Linkoping.

Per Lundberg, um porta-voz da Forn Sed, destacou que os símbolos são sempre abertos à interpretação. “Os símbolos são vazios em si”, ele disse. “Somos nós que atribuímos um significado a eles”.

Um ponto em que os grupos apolíticos que abraçam a mitologia nórdica podem encontrar um terreno surpreendentemente comum com os que aderem ao neonazismo é o amor pela natureza e pela comida produzida no país.

Segundo Helene Loow, uma das principais especialistas suecas em fascismo, os extremistas nórdicos relacionam a comida saudável à pureza da terra, do corpo e da raça.

Consequentemente, os grupos neonazistas são ocasionalmente representados nos mercados dos produtores agrícolas locais. “As pessoas se surpreendem. Eles são bonzinhos, são conversadores, oferecem boa comida às pessoas”, ela disse.

E acrescentou: “É o mesmo truque utilizado pelos extremistas em toda parte. Crescer estimulando a confiança local”.

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