Tasneem Alsultan / The New York Times
Tasneem Alsultan / The New York Times

Discretamente, empresas aceitam negociar com sauditas

O destino da Arábia Saudita está vinculado ao preço do petróleo, por isso o país deseja novos investimentos para sustentar a população em crescimento

Michael J. de la Merced, Stanley Reed e Daisuke Wakabayashi, The New York Times

06 de maio de 2019 | 06h00

LONDRES - Meses depois de agentes da Arábia Saudita terem assassinado e esquartejado o jornalista Jamal Khashoggi, as empresas não buscam mais se distanciar do reino árabe. A gigante das salas de cinema AMC vai levar adiante os planos para a inauguração de dúzias de salas de exibição no país. Recentemente, centenas de investidores fizeram encomendas no valor de US$ 100 bilhões na primeira venda internacional de obrigações ligadas à empresa do petróleo sustentada pelo governo da Arábia Saudita. O Google tem planos para a inauguração de uma central de dados.

Muitas empresas afirmam que estão ajudando na abertura dessa sociedade conservadora. Mas há dinheiro a ser ganho com um reino que vive à base da exploração da Aramco, a empresa mais lucrativa do mundo. Recentemente, a Aramco informou ter gerado US$ 111,1 bilhões em renda líquida no ano passado - superando o resultado de Apple, Royal Dutch Shell Exxon Mobil somadas.  “Não é nada pessoal”, disse J. Robinson West, diretor administrativo da consultoria BCG Center for Energy Impact, com sede em Washington, a respeito do grande interesse dos bancos e investidores na venda de obrigações. “São apenas negócios”, acrescentou. 

Para as empresas de todo o mundo, a morte de Khashoggi, colunista do Washington Post assassinado em outubro depois de entrar no consulado saudita em Istambul, era uma controvérsia a ser evitada. Lideranças empresariais desistiram de participar de uma conferência patrocinada pelo governo na capital, e agora se mantêm discretas em relação aos elos com o reino. Mas empresas globais e o governante de facto da Arábia Saudita, príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, admitem a necessidade de trabalhar juntos.

O destino da Arábia Saudita está vinculado ao preço do petróleo. O país deseja novos investimentos para sustentar a população em crescimento.

O príncipe herdeiro apresentou em 2016 uma campanha para atrair investidores, mas os resultados não foram satisfatórios. Em 2017,o investimento estrangeiro chegou ao ponto mais baixo em dez anos, em parte por causa da preocupação com a maneira escolhida pelo reino - cada vez mais sinônimo do príncipe Mohammed - para lidar com seus problemas.

Mas os lucros prometidos na Arábia Saudita se mostraram demasiadamente tentadores para as empresas. “Pensamos muito no assunto, e concluímos que o melhor rumo seria seguir adiante", afirmou Adam Aron, diretor executivo da AMC, descrevendo a decisão da empresa de abrir pelo menos 40 novas salas de cinema no país. “É a melhor decisão para o povo da Arábia Saudita”

Faz mais de um ano que o Google trabalha no desenvolvimento de uma central de dados saudita, sua primeira no Oriente Médio. O assassinato de Khashoggi não afetou os planos da empresa. E o SoftBank, cujo Vision Fund - um fundo de quase US$ 100 bilhões voltado para investimentos em tecnologia - tem como seu principal fiador o governo saudita, participou de 20 investimentos depois que a notícia da morte de Khashoggi foi revelada, de acordo com os dados.

“Por mais horrível que tenha sido esse episódio, não podemos dar as costas ao povo saudita enquanto trabalhamos para ajudá-lo no seu contínuo esforço de reforma e modernização da sociedade", ponderou Masayoshi Son, diretor executivo do SoftBank. Para alguns analistas, o anúncio da venda de obrigações da Aramco foi uma excelente jogada do príncipe herdeiro. A Aramco captou US$ 12 bilhões com sua oferta de títulos no mercado internacional.

Ainda assim, algumas empresas decidiram desistir. A Endeavor, uma agência de talentos de Hollywood, devolveu um investimento de US$ 400 milhões feito pelos sauditas e rompeu relações com eles. O empreendedor britânico Richard Branson suspendeu seus negócios sauditas de turismo e não dialoga mais com o Fundo Público de Investimento.

Caso mais empresas ocidentais sigam esse rumo, o reino tem um plano de contingência: trabalhar com aliados na Ásia. Países como China, Coreia do Sul e Tailândia se tornaram fregueses importantes dos sauditas conforme os Estados Unidos reduzem sua dependência em relação ao petróleo importado, graças à produção doméstica da fragmentação do xisto.

Por sua vez, a gigante chinesa do petróleo, Sinopec, tornou-se uma importante investidora no reino, mantendo uma refinaria em parceria com a Aramco e uma instalação de pesquisa e desenvolvimento em um parque cientifico no leste da Arábia Saudita. Outras empresas listadas entre as ocupantes do parque incluem Halliburton, Honeywell, Schlumberger, Emerson Electric, General Electric e Baker Hughes, pertencente à General Electric.

Em meados de abril, a Aramco disse que gastaria US$ 1,25 bilhão na participação em uma refinaria sul-coreana, criando o que chamou de “cliente exclusiva” para o petróleo saudita. A pergunta agora é se a Arábia Saudita conseguirá usar o impulso proporcionado pela venda de obrigações da Aramco.  “Para que as pessoas invistam na Arábia Saudita, é necessário acreditarem que o país está avançando no rumo certo",  garantiu Roger Diwan, vice-president da firma de pesquisa de mercado IHS Markit. “Os 12 meses mais recentes não foram os melhores”, lembrou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

 

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