Andrea Di Cenzo para The New York Times
Andrea Di Cenzo para The New York Times

Discriminação de gênero limita ingresso de japonesas em universidade de elite

No Japão, o “sexismo disfarçado” começa cedo, impedindo o acesso ao ensino superior de qualidade às jovens

Motoko Rich, The New York Times

20 de dezembro de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Desde muito jovem, Satomi Hayashi mostrou intensa dedicação aos estudos e se destacou nas escolas. Seria natural que ela seguisse os passos do pai e cursasse a Universidade de Tóquio, a instituição de ensino de maior prestígio no Japão. Assim que foi admitida, suas amigas a alertaram de que estava prejudicando suas perspectivas de casamento. Os homens, afirmaram, se sentiriam intimidados por um diploma da Todai, como a universidade é conhecida no Japão.

Quando ela ingressou, há três anos, a proporção era menos de uma mulher para cada cinco estudantes na instituição. O número limitado de mulheres na Todai é uma das consequências da desigualdade de gênero profundamente arraigada no Japão, onde o sexo feminino ainda não consegue equiparar-se ao masculino, e às vezes tem de desistir de oportunidades no campo da educação.

O primeiro-ministro Shinzo Abe promoveu um programa de emancipação da mulher, destacando o fato de que a taxa de participação feminina na força de trabalho do Japão ultrapassa nada menos que a dos Estados Unidos. Entretanto, são poucas as que chegam a níveis executivos ou aos mais altos postos no governo.

A discrepância começa na escola. Embora as mulheres constituam cerca da metade da população universitária da nação, as instituições mais antigas e de maior prestígio refletem - e ampliam - um recorde pouco elogiável na promoção de representantes do sexo feminino aos postos de maior poder na sociedade.

Há quase vinte anos, o número de mulheres matriculadas na Universidade de Tóquio é de aproximadamente 20%, uma disparidade que se estende à maioria das principais universidades japonesas, que ficam atrás de outras instituições de prestígio em toda Ásia. As mulheres constituem perto da metade do corpo discente na Universidade de Pequim na China, 40% na Seul National da Coreia do Sul e 51% na Universidade Nacional de Cingapura.

Na Todai, “percebe-se de imediato a existência de uma grande desproporção”, afirmou Hayashi, que se formou em literatura. “Como as mulheres constituem 50% da sociedade, é algo estranho uma universidade ter apenas 20% de mulheres”. Falando este ano aos calouros da Todai, Chizuko Ueno, professora aposentada de estudos de gênero, sugeriu que o desequilíbrio é um sintoma da desigualdade que vai além do campo da educação superior. “Um sexismo disfarçado já existe antes mesmo do ingresso dos estudantes na universidade,” ela afirmou.

“Infelizmente”, acrescentou, “a Universidade de Tóquio é apenas um exemplo disto”. A sua constatação toca um ponto particularmente sensível. No Twitter, os homens queixaram-se de se sentirem atacados. “Por que ela não comemora a presença de estudantes do sexo masculino?” um deles escreveu. Outro tachou o seu discurso de “propaganda feminista”.

A professora Ueno mencionou um escândalo que expôs a discriminação deliberada na Universidade de Medicina de Tóquio, onde os superiores reconheceram que vinham eliminando há anos nos exames de admissão a inúmeras mulheres. O seu objetivo seria limitar a proporção de mulheres a 30%, alegando que, muito provavelmente, as médicas deixariam de trabalhar depois de casar ou de dar à luz. Um ano depois que o escândalo foi revelado, o número de mulheres aprovadas superou o dos homens.

Não há provas de manipulação dos resultados dos exames na  Universidade de Tóquio. Ao contrário, afirmam os seus diretores, o número de alunas admitidas é coerente com o número de candidatas. “Somos como lojas em que a quantidade de clientes é insuficiente”, afirmou Akiko Kumada, uma das poucas professoras de engenharia da Todai. “Neste exato momento”, acrescentou, “o número de clientes do sexo feminino é insuficiente”.

Kumada tem algumas teorias. As jovens, afirmou, são educadas na ideia de que as realizações no campo acadêmico não são apropriadas para o sexo feminino. Algumas mulheres, afirmou, temem talvez que um diploma da Todai as leve inevitavelmente a uma carreira de grande prestígio em uma cultura de trabalho brutal. Uma jovem que havia se formado na universidade suicidou-se depois de contar às amigas que havia suportado uma verdadeira perseguição e horas de trabalho massacrante em uma agência de publicidade.

Ferrenhamente tradicional, a Todai aceita, ano após ano, os candidatos provenientes das mesmas escolas. Mais de 25% dos estudantes matriculados em 2019 vinham de apenas 10 escolas, sete das quais exclusivamente masculinas. “Pais com filhos homens têm grandes expectativas, querem que eles atinjam o grau máximo e aspirem ao posto mais alto possível”, afirmou Hiroshi Ono, diretor da Tokyo Gakugei University High School, que este ano enviou 45 estudantes para a Todai, entre eles 11 mulheres.

Segundo Ono, os pais “não se sentem confortáveis pressionando as meninas a um trabalho tão árduo - e acreditam que o melhor para elas é casar e serem donas de casa”. Frequentemente, as mulheres se sentem isoladas na Todai. Em uma foto de formatura, Kiri Sugimoto, 24, estudante de Direito, era a única mulher entre os recém-diplomados.

“O que me irritou foi que os homens faziam observações como o fato de que a minha presença ficaria ótima porque não pareceria a fotografia de uma escola preparatória para rapazes”, afirmou. “Eu era tratada como a rosa decorativa entre pedras. Este tipo de tratamento me irritava”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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