Sean Gallup/Getty Images
Sean Gallup/Getty Images

Discurso de ódio e assassinatos na Alemanha abrem uma ferida antiga

A militância da extrema direita está renascendo no país, horrorizando uma nação que se orgulha de lidar de maneira honesta com o seu passado

Katrin Bennhold, The New York Times

13 de julho de 2019 | 06h00

BERLIM - As ameaças de morte começaram em 2015, quando Walter Lübcke defendeu a política da chanceler Angela Merkel na questão dos refugiados. Lübcke, um político regional do seu partido conservador, percorreu cidades de seu distrito para explicar que receber pessoas necessitadas fazia parte dos valores alemães e cristãos. Então começou a receber e-mails carregados de ódio. O seu nome apareceu na lista negra neo-nazista; o seu endereço foi publicado online. Um vídeo dele foi compartilhado milhares de vezes, juntamente com emojis de armas e apelos explícitos para que fosse eliminado. “Deem um tiro agora mesmo neste bastardo”. E então alguém se encarregou de fazê-lo.

No dia 2 de junho, Lübcke, então com 65 anos, foi morto com um disparo na cabeça na varanda da sua casa, ao que tudo indica, no primeiro assassinato  político da extrema direita da Alemanha desde a era nazista. O suspeito - que confessou no mês passado, e posteriormente se retratou - tinha um histórico neonazistas e de outros crimes.

A militância da extrema direita está renascendo na Alemanha, horrorizando um país que se orgulha de lidar de maneira honesta com o seu passado. A linguagem de ódio tornou-se comum, e os políticos estão sofrendo ameaças cada vez mais frequentes. “O que está acontecendo com o nosso país?”, questionou Heiko Maas, ministro das Relações Exteriores da Alemanha. “Observando o ódio e o assédio que estão na internet - em grande parte dirigidos contra políticos locais, burocratas, clubes esportivos e culturais - concluo que precisamos tomar posição e afirmar que é uma coisa inaceitável”.

O discurso de ódio cresceu em todos os cantos da Europa. Na Grã-Bretanha, a legisladora Jo Cox morreu atingida por disparos e esfaqueada por um simpatizante da extrema direita, uma semana antes do referendo do Brexit, em 2016. Na Polônia, o prefeito liberal de Gdansk, Pawel Adamowicz, foi morto em janeiro depois de ter sido alvo de uma campanha incansável de ódio pela emissora estatal.

Depois da Segunda Guerra Mundial, foi criada a agência alemã de inteligência, conhecida como Departamento Federal de Proteção  da Constituição, com a finalidade de prevenir a ascensão de forças antidemocráticas - como outro partido nazista. Mas com a chegada de mais de um milhão de migrantes desde 2015, muitos deles procedentes de países muçulmanos, a agência concentrou os seus recursos nas ameaças do terrorismo islâmico.

Hoje, estima que existam 24.100 extremistas de extrema direita na Alemanha, 12.700 destes potencialmente violentos. E há cerca de 500 mandados de prisão contra radicais de extrema direita. O suspeito da morte de Lïbcke, Stephan Ernst, de 45 anos, era uma figura muito conhecida pelas autoridades. Ele circulava na órbita de um partido neonazista e em 1992 esfaqueou um imigrante quase até a morte. Passou um tempo na prisão após uma tentativa de ataque a bomba, e foram encontradas com ele pelo menos cinco armas de fogo, inclusive uma metralhadora e o revólver calibre .38 usado no assassinato de Lübcke.

Politicamente, a Alemanha passou a registrar um significativo aumento da fúria da direita depois da crise dos migrantes de 2015. O Partido Alternativa para a Alemanha, de extrema direita, também conhecido como AfD, chocou o país ao receber um número de votos suficiente para obter cadeiras no Parlamento.

Analistas afirmam que, embora a Alternativa para a Alemanha não esteja diretamente ligada à violência política, a ruidosa presença do partido contribuiu para a normalização da linguagem violenta que ameaça legitimar a violência em si. “Pessoas da linha de frente das defesas da nossa sociedade aberta tornaram-se os alvos”, afirmou Henriette Reker, prefeita de Colônia. 

Em 2015, Henriette foi esfaqueada na garganta por um homem que definiu o seu ato como uma mensagem sobre a política dos refugiados do país. Agora, ela tem policiais de guarda à porta do seu gabinete. Pouco depois do assassinato de Lübcke, ela recebeu um e-mail assustador. "Sieg Heil e Heil Hitler!”, estava escrito. “A fase de limpeza começou com Walter Lübcke. Muitos outros o seguirão. Inclusive você. A sua vida acabará em 2020”, seguia o texto.

Desde 1990, integrantes da extrema direita alemã cometeram 169 assassinatos, segundo uma investigação realizada por dois jornais alemães, Die Zeit e Der Tagesspiegel. Tanjev Schultz, especializado na atuação comportamento da extrema-direita, disse que as novas ameaças contra políticos ecoam a República de Weimar, período entre as duas guerras mundiais em que terroristas da extrema direita mataram personalidades políticas a fim de desestabilizar a jovem democracia da Alemanha.

“Desestabilizar o Estado sempre foi o objetivo estratégico dos neonazistas, mas as autoridades alemãs nunca o consideraram realmente como tal”, explicou Schultz. “Elas tendem a tratar a violência da extrema direita como episódios aleatórios”. Existe uma falta de conexão entre a forte consciência coletiva da Alemanha em relação ao seu passado nazista e sua consciência coletiva, muito mais fraca, em relação ao terrorismo neonazistas das últimas décadas, ele comparou. Henriette Reker afirmou que os alemães gostam de pensar que resolveram de maneira definitiva a questão da sua história, o que resultou em uma atitude de autoengano do tipo “O que não deve ser, não pode ser”.

No início dos anos 2000, terroristas neonazistas mataram nove imigrantes em sete anos, enquanto informantes pagos da inteligência alemã ajudavam a esconder os líderes do grupo e a construir a sua rede. O caso ficou conhecido como o escândalo do NSU. Stephan Kramer, chefe do serviço de informações da agência de inteligência do estado oriental da Turíngia, nomeado na esteira do escândalo, afirmou que uma mudança de atitude seria muito difícil.

Quando a sua agência informou a respeito da escalada das ameaças da extrema direita a funcionários da inteligência do plano federal, ele disse: “Falaram que o terrorismo de extrema direita não existe e nos acusaram de exagerar os fatos”. Armin Laschet, um destacado político conservador, declarou: “Nunca, desde a sua criação, a nossa república sofreu  como agora tanta pressão da extrema direita”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.