Maxim Babenko / The New York Times
Maxim Babenko / The New York Times

Realidade após anos de promessas, 'Disneylândia russa' mira na classe média da capital

A Ilha dos Sonhos custou US$ 1,5 bilhão e foi inaugurada no início de março; promessa de um parque temático na Rússia data da época da Guerra Fria

Andrew E. Kramer, The New York Times

10 de março de 2020 | 06h00

MOSCOU – Uma menina encontra um colar mágico feito de cogumelos, mas ele é roubado por um gnomo mau. Segue-se uma série de aventuras. Segundo os seus criadores, Alfreya, a heroína de um novo livro infantil concebido para o primeiro parque temático da Rússia, a personagem é “uma menina comum de 10 ou 12 anos, com grandes olhos pensativos”.

Uma coisa ela não é: uma assinatura da Disney. Montar uma Disneylândia real em Moscou seria fora de cogitação no atual clima político. Mas a longa luta do país para construir um parque temático, iniciada durante a rivalidade com os Estados Unidos, na época da Guerra Fria, está chegando ao seu fim digno de um conto de fadas.

A Ilha dos Sonhos, que custou US$ 1,5 bilhão, inaugurada no dia 1º de março, talvez lembre a alguns visitantes da Disneylândia. No lugar de Elza, do filme Uma aventura congelante, haverá uma Rainha da Neve, e na versão russa do O Livro da Selva, a floresta é povoada por dinossauros falantes. O parque será habitado por personagens dos contos de fadas, todos produzidos na Rússia.

A atração só foi construída agora porque se beneficiará de algo mais essencial do que rainhas da neve e princesas das fábulas infantis: um grande público de consumidores de classe média da capital russa.

Cerca de 60 anos depois que o líder soviético Nikita Kruchev lançou a ideia de construir um análogo da Disney, o presidente Vladimir V. Putin inspecionou recentemente o parque.

Sete milhões de visitantes anualmente

Para Amiran Mutsoev, ex-construtor de shopping centers, o proprietário do parque, toda a concepção é uma grande aposta de que o poder aquisitivo da classe média se manterá. A esperança de Mutsoev é que o parque seja visitado anualmente  por cinco milhões de habitantes de Moscou e dois milhões e meio de turistas,  na maioria  de outras partes da Rússia. Os ingressos nos fins de semana custarão 11 mil rublos, ou cerca de US$ 163, para uma família de quatro pessoas. No ano passado, o salário mensal médio na Rússia foi de 46.073 rublos, ou aproximadamente US$ 683. No ano passado, o salário médio na capital foi cerca de duas vezes a média nacional.

Projeto inicial 'encalhado'

Kruchev propôs a construção de um parque temático em Moscou depois de uma visita aos Estados Unidos em 1959, quando ele quis reproduzir as realizações americanas. “Foi a ideia de imitar o poder brando que os EUA têm para tornar a vida do seu povo mais interessante e melhor”, explicou sua neta Nina Khrushcheva, professora da New School em Nova York. Mas o projeto ficou encalhado nos debates a respeito dos temas que deveriam ser promovidos. Os militares queriam um elemento marcial, com tanques.

Nadya Soloyeva, mãe de duas garotas, de Moscou, disse que o seu emprego de relações públicas permitia que ela adquirisse os ingressos, mas que eficava imaginando se os novos personagens de contos de fadas teriam o mesmo atrativo emocional da concorrente americana. “Todo mundo compara estes preços aos da Disneylândia”, que podem chegar a mais de US$ 150 por pessoa, lembrou. “Mas será que eles vendem emoções como a Disneylândia?”.

Logo na entrada, erguem-se torres medievais semelhantes às da Disney. Atrás delas, há edifícios gigantescos cobrindo 30 hectares. Segundo os construtores, este é o maior parque coberto da Europa, a única opção para o longo inverno de Moscou. O enpreendimento tem nove zonas. Cinco foram criadas por “artistas russos, especificamente para a Disneylândia”, diz um folheto. As outras são atrações obtidas sob licença: o Hotel Transilvânia, da Sony Pictures; os Smurfs, da companhia belga IMPS; as Tartarugas Ninja Adolescentes Mutantes, da Viacom; e Hello Kitty, da Sanrio do Japão. Mutsoev demonstra muita confiança em relação ao projeto.

“Disney tem a sua rainha da neve, nós temos a nossa”, ressaltou Kruchev. E acrescentou que estava feliz  por ter abandonado a ideia de introduzir no parque elementos educativos: “Nem todo mundo quer ler Tolstoy, principalmente aos oito anos de idade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Rússiaparque de diversões

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.