Tim Gruber / The New York Times
Tim Gruber / The New York Times
Patricia Cohen, The New York Times

07 de junho de 2019 | 06h00

OSSEO, WISCONSIN - Desde o início, a estratégia combativa do presidente Donald J. Trump em relação à China trouxe a promessa de um breve período doloroso para os agricultores, que valeria a pena por causa dos ganhos no longo prazo para os produtores americanos de setores que incluem agricultura e tecnologia.

Conforme a guerra comercial se intensifica, a fé nessa lógica entre os mais ardentes defensores do presidente na zona rural está sendo testada até o limite.

“Quanto tempo vai durar esse curto prazo?”, perguntou Shane Goplin, da sexta geração de agricultores de sua família, manobrando a plantadeira pelos campos de soja e milho na região centro-oeste de Wisconsin.

A China era a principal compradora da soja americana até a troca de tarifas praticamente interromper esse fluxo. Em maio, a piora nas perspectivas de um acordo comercial levou a uma queda nos preços. Trump respondeu anunciando um pacote de US$ 16 bilhões para ajudar os afetados pela disputa.

A estratégia pode ajudar a garantir o apoio dos agricultores a Trump, mas eles começam a se perguntar: como será para eles a vitória nessa disputa? Apesar do estresse para Goplin e para sua conta bancária, ele defende as táticas do presidente. “Entendo os motivos dele", disse. “Os EUA foram passados para trás”. E, se a guerra comercial persistir até a eleição no ano que vem, ele acrescentou: “Por mim, tudo bem”.

O pacote de ajuda emergencial anterior anunciado pelo governo, no valor de US$ 12 bilhões, significou a diferença entre lucro e prejuízo para a sua soja. Mas é mais difícil avaliar se um eventual acordo terá valido a pena. Vários agricultores disseram que, se Trump declarar que chegou a um acordo vantajoso com a China, eles acreditariam na palavra dele. “Não acho que ele vai vacilar até conseguir o que quer", afirmou Lorenda Overman, agricultora e pecuarista da Carolina do Norte.

Outros agricultores sugeriram que uma alta no preço da soja ou uma queda no déficit comercial com a China seria sinais de vitória. Mas, conforme prossegue o impasse com a China, Goplin teme que produtores de soja de países como Brasil e Argentina tomem para sempre a fatia de mercado dos produtores americanos.

Trata-se de um risco, disse ele - como as condições climáticas extremas, o aperto no crédito e os preços voláteis que acabaram com a sorte dos agricultores na década mais recente. E, com a queda nos lucros, endividamento acima do normal e número cada vez maior de propriedades agrícolas em recuperação judicial, Goplin, de 45 anos, entende que, para alguns agricultores, já é tarde demais.

Ele tinha acabado de plantar 500 acres de soja poucos dias depois do presidente ter anunciado pelo Twitter a imposição de novas tarifas à China. Agora, Goplin passava de 16 a 18 horas por dia plantando milho em 2 mil acres. Para ele, uma medida do sucesso seria uma acentuada redução no excedente de soja do país. Em abril, o departamento da agricultura previu que o excedente acumulado de soja chegaria a 3,2 milhões de metros cúbicos em setembro, mais que o dobro do observado em 2018.

Nesse sentido, os agricultores americanos são vítima do próprio sucesso, produzindo mais grãos e alimento do que o mercado mundial é capaz de absorver. Agricultores de outros países, às vezes auxiliados por subsídios do governo ou cotas de importação, disputam uma fatia do mercado, empurrando os preços cada vez mais para baixo.

Goplin conversava a respeito das complexidades do comércio e da superprodução com o amigo Joe Bragger, de 53 anos, da sexta geração de fazendeiros de laticínios de Buffalo County, não muito distante. “Há quanto tempo estamos nessa, Shane? Dois anos de brigas pelo Twitter", lembrou Bragger a respeito da política do governo para o comércio. “Posso suportar mais alguns”. Goplin riu. “O que ele publicou no Twitter no domingo passado custou… Vejamos…”. Ele fez uma pausa, lembrando o dia seguinte ao anúncio de novas tarifas contra mercadorias chinesas feito por Trump no Twitter, quando o valor do metro cúbico da soja caiu mais de US$ 0,10. “Quanto isso lhe custou?” perguntou Bragger. Goplin respondeu: “Quarenta mil dólares. Foi uma publicação no Twitter que me custou US$ 40 mil".

Na Carolina do Norte, Lorenda, de 57 anos, disse que não poderia suportar outro ano ruim. Na temporada passada, ela perdeu US$ 450 mil quando a maior parte do seu trigo e soja foi arrasada por um furacão. O cultivo de cada metro cúbico de soja custa-lhe US$ 10,35 para cultivar. Quando a família terminou o plantio de quase 1.500 acres de grãos, o preço de venda do mesmo volume era US$ 8,03. No mês passado, depois de esgotar seu crédito, Lorenda e o marido tiveram de tirar dinheiro do seguro de vida para pagar as contas. “Está me parecendo que o tal curto prazo dolorido se tornou um longo prazo dolorido", lamentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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