Akos Stiller/The New York Times
Akos Stiller/The New York Times

Dissidente húngaro liberal torna-se herói da extrema-direita

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, faz parte de uma geração de líderes europeus que exploram os fracassos do liberalismo

Patrick Kingsley, The New York Times

11 Abril 2018 | 15h00

BUDAPESTE - Durante os últimos dias do comunismo na Hungria, um jovem dissidente liberal escreveu a uma fundação dirigida pelo filantropo húngaro-americano George Soros, pedindo uma verba para financiar sua pesquisa sobre democracia popular. A Hungria logo "passará da ditadura para a democracia", escreveu o estudante, em 1988. "Um dos principais elementos dessa transição pode ser o renascimento da sociedade civil".

O jovem era Viktor Orban. Agora, o primeiro-ministro Orban acaba de vencer seu terceiro mandato consecutivo nas eleições de 8 de abril, mas como um herói da extrema-direita e a personificação da promessa fracassada de liberalismo na Europa Oriental pós-Guerra Fria.

O partido de Orban, Fidesz, conseguiu uma maioria de dois terços no Parlamento, o que permitirá que ele busque mais mudanças legais e constitucionais para aumentar o controle sobre os tribunais e outras instituições do Estado.

Cada país tem sua própria história. Mas as sociedades da Europa Central e Oriental são dominadas por figuras semelhantes - algumas por políticos que, como Orban, perderam interesse no projeto democrático liberal que se seguiu ao desmoronamento do comunismo em 1989, e outras que exploraram a crescente insatisfação dos eleitores com o liberalismo.

"É um fenômeno de toda a região", disse Jiri Pehe, ex-assessor sênior de Vaclav Havel, primeiro presidente checo. "A democracia provou ser um projeto muito difícil para esta geração de políticos dominar".

No início dos anos 1990, quando dissidentes como Havel e Lech Walesa, na Polônia, assumiram seus cargos como presidentes, presumiu-se amplamente que a região se transformaria naturalmente em um lugar de estados democráticos e economias de mercado. Os eleitores esperavam que os padrões de vida logo se igualassem aos da Europa Ocidental - especialmente quando muitos países comunistas se mudaram para a União Europeia.

As liberdades pessoais e a riqueza aumentaram, mas a natureza caótica do processo, agravada pela crise financeira global de 2008, fez que as expectativas muitas vezes superassem o progresso. Em alguns países, a privatização de ativos estatais foi percebida como beneficiando investidores estrangeiros e políticos corruptos com mais frequência do que os cidadãos comuns.

Os políticos sentiram o clima e migraram para a direita. O atual presidente checo, Milos Zeman, era um dissidente de mentalidade liberal nos últimos anos do comunismo, mas agora corteja a extrema-direita. Seu primeiro-ministro, Andrej Babis, nunca lutou pela liberdade, mas foi eleito no ano passado em uma plataforma populista que atacou os fracassos percebidos da elite política pós-1989.

Na Polônia, o líder do partido do governo, Jaroslaw Kaczynski, é um conservador que já foi marginalizado pelos primeiros líderes da Polônia pós-comunista. Mas suas ideias autocráticas e nativistas ganharam valor como o ressentimento sobre aspectos da transição estabelecidos quando as aspirações dos eleitores excederam o ritmo da mudança social e econômica.

"Kaczynski é um mestre em jogar com emoções ruins", disse Radoslaw Sikorski, que foi ministro das Relações Exteriores e presidente do Parlamento polonês durante o governo que precedeu o de Kaczynski.

Mas ninguém exemplifica a direção furiosa da Europa Oriental pós-comunismo mais do que Orban, cuja jornada de acadêmico liberal a populista é mais forte do que a de qualquer um de seus contemporâneos regionais. Ele usou a doação de Soros para estudar a história da sociedade civil na Universidade de Oxford, lutou contra o comunismo por trás da Cortina de Ferro, e então, como político de centro-direita, ajudou a conduzir a Hungria à União Europeia e à OTAN.

Orban assumiu o poder em 1998, tornando-se primeiro-ministro pela primeira vez à frente de uma coalizão conservadora. Nos quatro anos seguintes, ele atuou como um político relativamente ortodoxo de centro-direita. Mas foi sua derrota nas eleições de 2002 que acelerou sua movimentação para a extrema-direita.

Orban reinventou-se como um forasteiro que prometeu restaurar o controle húngaro a uma economia golpeada por forças externas - uma política popular entre húngaros casou irritação em razão da maneira como os esforços de privatização depois de 1989 permitiram que estrangeiros assumissem parte da indústria húngara.

Eleito pela maioria em 2010, Orban foi enfraquecendo as instituições democráticas da Hungria.

Em 2015, ele persuadira vários países da Europa Central e Oriental a bloquear os esforços da União Europeia para reassentar milhares de migrantes. Orban vê tudo isso como nada menos que a marcha da história.

"O que estamos vivenciando agora é o fim de uma era: uma era conceitual e ideológica", disse ele em 2015. "Colocando a pretensão de lado, podemos simplesmente chamar isso de era da tagarelice liberal"./ Benjamin Novak e Palko Karasz contribuíram com a reportagem.

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